Análise Porto campeão
Da Toscana à Invicta, com sotaque polaco e brisa nórdica: foi assim que se construiu o FC Porto campeão
04 mai, 2026 - 08:30 • Francisco Sousa*
O efeito Farioli, a construção da equipa, as necessidades, as figuras e os momentos-chave. Um olhar detalhado de Francisco Sousa, comentador Bola Branca, para o regresso aos títulos dos dragões.
Quatro anos parecem demasiado tempo para quem tanto se habituou a ganhar. Também por isso o regresso do cetro de campeão nacional à Invicta foi tão festejado pelas gentes portistas, não só sedentas de títulos, como também de gente que represente a identidade do clube, que muitos também chamam de raça.
E essa fiel representação do FC Porto batalhador, comprometido e exímio na arte da gestão do resultado foi readquirida por Francesco Farioli e por um plantel que, além de construído de acordo com o ideário do treinador natural da Toscana, teve opções em número suficiente para disputar outros troféus até perto do final da época sem comprometer o objetivo maior.
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Não se pode começar por fazer uma retrospetiva do ano de sucesso dos dragões sem recordar Jorge Costa, capitão de tantas conquistas e que foi também responsável por ajudar a alicerçar o campeão 2025/2026. A sua partida serviu também para unir em prol da vitória um grupo relativamente jovem, com vários novos nomes, mas que rapidamente perceberam o que estava em causa.
Como se percebe, a época do FC Porto viveu de diferentes protagonistas, momentos, dores, alegrias e (algumas, poucas) desilusões. Foi uma temporada de renovação que seria impossível de conceber sem um timoneiro em busca de tirar um fantasma da vista.
O efeito Farioli
A chegada de Farioli ao Dragão foi quase como se tratasse de um reencontro com o amor entre dois recém-divorciados, ainda feridos na alma pelas agruras recentes, a portista a relembrar um sólido casamento passado (Conceição) e a procurar esquecer relações fugazes de uma turbulenta época 2024/25; a de Farioli surgida num mês de pesadelo em plena cidade de Amesterdão.
Depressa se percebeu ao que vinha o técnico italiano com fama de bem-falante, excelente intérprete tático e licenciado em filosofia: traçou um plano, definiu o rumo tático, partindo de um 4-3-3 clássico, com nuances particulares (laterais a procurarem espaços mais interiores, extremos bem abertos e interiores incisivos na rutura) e buscando uma pressão alta voraz e uma vertigem incessante nos movimentos ofensivos.
A equipa (da qual já iremos falar) correspondeu aos planos do toscano, tendo somado nove vitórias em outros tantos jogos oficiais a abrir a época. Com uma fase de alguma quebra exibicional entre outubro e os inícios de dezembro (período em que, ainda assim, apenas perdeu dois jogos), manteve sempre o foco no discurso positivo e de valorização do trabalho do plantel, que sempre deu resposta competitiva – ao ponto de ter perdido apenas dois pontos em 51 possíveis na primeira volta do campeonato.
A forma como geriu, qual tabela de Excel, as substituições e a condição física do grupo de trabalho (de forma até algo discutível, em vários jogos) acabou por ser determinante na ponta final da temporada, mesmo com as eliminações frente a Nottingham Forest na Europa e com o Sporting na Taça (em ambos os casos, dando sempre uma brava luta e deixando a sensação de que podia ter conseguido algo mais).
Para isso, também ajudou a aposta em quatro reforços de inverno, um veteraníssimo, dois consagrados e um jovem diamante, que permitiram um alargamento de plantel significativo e até decisivo face a lesões importantes que apareceram. Foi também fiel escudeiro do presidente André Villas-Boas nos episódios de ‘guerrilha’ com o Sporting, mostrando uma velocíssima aculturação à filosofia do clube.
A construção de uma equipa super competitiva
Em entrevista à SportTV, em janeiro passado, Farioli recordou com emoção e saudade uma frase de Jorge Costa na antecâmara da temporada. “Agora sim, temos uma equipa”, terá dito o “bicho” a outros elementos da estrutura azul e branca, numa demonstração de confiança inequívoca no trabalho do técnico italiano e do plantel, construído também com colaboração inestimável do malogrado diretor.
A equipa técnica e a prospeção do clube tiveram um mérito esdrúxulo na identificação dos perfis certos em termos de mercado, mas houve um aproveitamento notório de peças que já faziam parte do plantel e que até vinham de uma temporada muito nefasta (Pepê será sempre o exemplo mais evidente). Reforços como Bednarek, Kiwior, Gabri Veiga ou Froholdt tiveram um encaixe tão fácil na equipa que quase pareciam viver há anos a mística do Dragão.
Até nos nomes que apareceram em janeiro, a experiência e galhardia de Thiago Silva, o empolgamento e capacidade de definição de Fofana e a irreverência de Pietuszewski pareceram assentar que nem uma luva a um plantel que bebeu a filosofia concentrada no detalhe e no controlo promovida por Francesco Farioli.
E assim, do início ao fim da época, ficou sempre a sensação de que, mesmo nos maus momentos, havia uma equipa tremendamente consistente, pouco disposta a conceder muito aos adversários e sempre pronta para forçar ou aproveitar erros alheios.
As fortalezas do campeão
O modelo de jogo de Farioli é bem definido pelos índices de recuperação de bola a partir da pressão alta, forçando erros na construção dos adversários ou sabendo rentabilizar o posicionamento alto dos jogadores, com referências individuais, para tirar partido de eventuais falhas dos oponentes. Vários golos foram chegando dessa forma, sobretudo no período inicial da temporada.
O registo vertical, de ataques de duração mais curta, mas sempre muito intensos, foi sendo alternado com alguma paciência para trabalhar, de forma astuta, dinâmicas de terceiro homem a partir de trás (sabendo usar o guarda-redes e tendo distâncias curtas entre jogadores na primeira fase de construção), ainda que sempre com a verticalidade e com os movimentos de rutura (desde logo dos médios) a serem chave para o FC Porto chegar a zonas de definição.
O técnico italiano dos dragões mostrou estar sempre atento aos problemas/necessidades da equipa, como, por exemplo, quando os adversários começaram a condicionar melhor a entrada da bola no primeiro médio e também soube aportar dinâmicas distintas à equipa após a baixa por lesão de Samu, dando força às dinâmicas de ligação do trio Zaidu-Veiga-Pietuszewski à esquerda e incentivando mais desmarcações para terrenos adiantados dos interiores (Froholdt foi ganhando outra dimensão rematadora).
Outra chave do sucesso azul e branco passou pela consistência defensiva, mais patenteada nos primeiros meses da temporada, tendo terminando a primeira volta do campeonato com tão somente quatro golos sofridos. Este era um FC Porto tão seguro a nível interno que praticamente nem ocasiões concedia aos adversários.
Por último, tem de ser destacado o papel influente da bola parada ofensiva, com muitos golos decisivos sobretudo na primeira metade da temporada a nascerem de situações trabalhadas no “laboratório do Olival”, com Bednarek como alvo preferencial e Gabri Veiga como melhor executante.
As necessidades para o futuro do campeão
Um dos aspetos mais óbvios a carecer de evolução neste FC Porto é o ataque posicional. Mesmo com aspetos bem trabalhados na fase ofensiva, de resto já anteriormente destacados, ficou a sensação em determinados jogos de uma necessidade de ganhar soluções criativas, importante para derrubar adversários mais fechados, mas também para superar algumas pressões mais arrojadas.
Samu melhorou alguns aspetos no jogo de apoios, mas ainda não é a garantia de suporte ideal para a equipa crescer em posse, ficando a faltar uma presença mais afirmativa para aproveitar espaços no corredor central. Com dúvidas quanto à condição física/idade de Luuk de Jong e alguma falta de afirmação de Deniz Gül/Moffi, talvez os dragões se virem para o reforço do centro do ataque a pensar na próxima temporada.
A lateral-esquerda também pode carecer de um perfil mais completo e já se percebeu que poderá chegar um extremo-direito que encaixe melhor no modelo de jogo de Farioli. Uma espécie de Pietuszewski para a outra faixa do campo.
As figuras da conquista do 31º título
O elogio ao coletivo é provavelmente o sinal mais óbvio do trabalho eficaz de Francesco Farioli, mas várias individualidades sobressaíram na época portista. Começando pela baliza, Diogo Costa foi fundamental. Emergiu como figura construtora para bater a pressão rival, com passes mais longos, a lateralizar jogo de forma direta ou em ligações mais curtas. Destacou-se também por várias defesas impressionantes durante esta edição da 1ª Liga.
Na defesa, Jan Bednarek ergueu-se como patrão, central implacável, por vezes faltoso, mas sempre na dose necessária para escapar ao excesso de cartões e dominador por alto (nas duas áreas).
No meio-campo, mora o jogador que melhor representa o espírito incutido pela nova equipa técnica: Victor Froholdt. Máquina de pressão, com uma disponibilidade física fora do comum, grande sentido posicional, capacidade de recuperação e de movimentação vertical para a frente, com e sem bola, tendo melhorado o ataque a zonas de finalização nos últimos meses.
Ainda ao meio, e apesar de Alan Varela ter correspondido em vários momentos e de Gabri Veiga ter confirmado que a passagem pela Arábia não o fez perder a acutilância atacante, destaque para Pablo Rosario, que além de médio-defensivo, ainda foi fazendo todas as posições da linha defensiva e chegou a atuar como interior. Um “faz-tudo” que chegava com pontos de interrogação sobre a mais-valia na construção, mas que depressa se afirmou como um jogador capaz de ser muito efetivo no passe.
Mais à frente, Pepê e Samu deram um passo em frente face a 2024/25 e Borja Sainz acrescentou golos na primeira metade da temporada, mas a figura da linha ofensiva acaba por ser uma pérola de 17 anos… chegada apenas em janeiro. Oskar Pietuszewski entrou para ser o extremo desconcertante, com um-para-um, capacidade de aceleração, drible, combinação e risco no remate que o Dragão necessitava e que se revelou importantíssimo em boa parte dos jogos da segunda volta do campeonato, também pelo que emprestou à equipa no momento defensivo.
Momentos-chave da época
A vitória por 2-1 em Alvalade logo à 4ª jornada mostrou ao que vinha o renovado FC Porto. Num jogo equilibrado, os azuis e brancos iniciaram em grande a segunda parte, com dois lances do lado direito a deixarem o resultado bem encaminhado e a antecipar protagonistas para o resto da época (Froholdt, Alberto Costa ou William Gomes, autor de um golaço).
Os dragões souberam aguentar o impacto da primeira derrota oficial, já a avançar para o fim de outubro, frente ao Nottingham Forest (uma espécie de Mefistófeles da época dos azuis e brancos), e venceram os 11 jogos seguintes para o campeonato, até à única derrota, numa viagem até Rio Maior para defrontar um aflito Casa Pia. Esse desaire foi seguido de um empate consentido em casa no último minuto frente ao aí maior rival na luta pelo título, o Sporting, mas a vitória seguinte na Choupana, com Bednarek a decidir na bola parada num jogo de pouquíssimas chances, voltou a mostrar que este FCP era de carapaça forte.
Outro jogo de destaque foi a vitória em Braga, duas jornadas depois de um empate na Luz, e numa altura em que o Sporting ameaçava uma aproximação. Zalazar marcou de penálti ao minuto 54 e assustou um Dragão que viu o dedo de treinador criar uma vez mais impacto: os suplentes William Gomes e Fofana marcaram os golos da reviravolta e deram asas ao título agora carimbado.
*é comentador de futebol na Renascença













