O Código Farioli
Villas-Boas: "Farioli é um treinador à Porto, sabe como os nossos princípios devem ser defendidos"
05 mai, 2026 - 07:00 • Eduardo Soares da Silva (entrevista) , Fábio Oliveira (vídeo) , Inês Braga Sampaio (vídeo)
O presidente do FC Porto recebe a Renascença numa manhã de sol, durante a pausa de seleções no início de abril, para revelar os bastidores da chegada de Francesco Farioli ao clube, falar da temporada atual e olhar para o futuro do treinador italiano. Ouça na íntegra o podcast "O Código Farioli".
Metodologia, liderança e uma personalidade "à Porto". São alguns dos traços que levaram o presidente do FC Porto, André Villas-Boas, a contratar Francesco Farioli.
Acha que sabe tudo sobre o treinador do FC Porto? Ouça o podcast O Código Farioli
A combinação revelou-se ganhadora: o Porto é campeão nacional, na primeira época com Farioli. Mesmo depois do fracasso da temporada passada, no Ajax, Villas-Boas confiou que o italiano era o homem ideal para assumir o leme, como conta numa entrevista à Renascença, realizada numa manhã de sol no início de abril, durante a pausa para as seleções, no âmbito do podcast "O Código Farioli".
"Vemos um treinador à Porto, que sabe reconhecer a exigência dos adeptos, a pressão que existe neste clube, a forma como se tem de lidar com a pressão e o facto de este clube ter sempre um posicionamento muito específico relativamente ao seu entorno e a forma como os nossos princípios devem ser defendidos", afirma.
Nesta entrevista — aqui transcrita numa versão alargada, ainda que não na íntegra, com alguns excertos reservados para o podcast "O Código Farioli" —, André Villas-Boas fala também, por exemplo, do arranque fulgurante do FC Porto de Farioli, da derrota com o Casa Pia, do mercado de janeiro e do futuro.
Quando é que ouviu falar de Francesco Farioli pela primeira vez? Era o presidente André Villas-Boas? Candidato André Villas-Boas? Era ainda o treinador André Villas-Boas, eventualmente?
Isso é fruto da idade do Francesco, apesar de eu ser jovem também, jovem presidente, jovem treinador na altura. A primeira vez que me cruzo com ele será no Qatar, que ele só me alertou para esse facto agora. O Francesco, quando estava na Aspire, acabou por me seguir no Zenit e no Shanghai SIPG, por conta dos estágios que eu fazia na Aspire [Qatar], no meio das temporadas ou nas pré-épocas, no caso do Shanghai. Portanto, essa é a primeira vez que ele se cruzará comigo enquanto treinador.
Eu ganho consciência do treinador Francesco Farioli mais pelo seu trabalho em França, quando se afirma finalmente como treinador, como alguém revolucionário. Nas ideias, no método e na afirmação das suas lideranças. Pré-Nice há, evidentemente, o período na Turquia, no qual há o seu nome associado mais ao Braga, como potencial treinador do Braga, e uma pessoa que estava a despontar para o início da sua carreira.
Portanto, esse é o primeiro cruzar de informação, depois há tudo o que está relacionado com a busca de um treinador, as suas competências, as suas lideranças, o seu método, que são trabalhos que a estrutura Porto acaba por fazer na sua pré-contratação.
Conte-nos a história da contratação de Francesco Farioli. Quando é que decidiu que seria o treinador ideal para substituir Martín Anselmi no verão?
Há aqui uma parte que não podemos deixar de relacionar com o fim da sua aventura no Ajax, e também o fim do período de Anselmi no FC Porto, pós Mundial de Clubes.
Em primeiro lugar, há uma parte que está relacionada com uma análise do que foi a época do FC Porto, a época transata, 2024/25. Todas as suas fragilidades e insucessos, que terminam com o Mundial de Clubes. A partir daí, nós tomamos uma decisão de mudança de treinador e fomos ao mercado. Estudar o que o mercado oferecia, quais é que eram as suas condições, quais é que eram os treinadores que se identificavam com o perfil do FC Porto, com o que é que os seus adeptos exigem, e a partir daí há um treinador que merecia ter tido sucesso no Ajax, mas que se tivesse tido sucesso no Ajax seguramente não estaria no FC Porto nesta altura.
Portanto, eu acho que a forma como se dá ao fim desse campeonato não invalida, evidentemente, a qualidade do treinador, o seu método, a sua liderança, a forma como lutou por aquele campeonato até ao fim. Mas a verdade é que o tornou disponível no mercado e, a partir daí, encetamos os contactos necessários para trazer para o FC Porto.
Já era sabido que Farioli não iria continuar no Ajax, quer ganhasse o campeonato ou não. Mas se tivesse sido campeão, acha que não seria um treinador ao alcance do Porto? Eventualmente, isso terá afastado os clubes maiores?
Quando nós falamos com o Francesco Farioli, estavam mais clubes a falar com ele. Portanto, há também aqui uma parte de identificação do treinador com o clube, com a sua mística e também com as propostas que nós lhe fizemos em termos de estrutura, de scouting, de renovação de equipa.
Isto é um projeto, há um corpo comum de ideias que se junta. Filosofia do clube, o que é que temos para oferecer ao treinador, que investimento é que vamos fazer na equipa, quais os jogadores que o treinador identifica como fundamentais para o seu método, a tipologia desses próprios jogadores. Portanto, todo este corpo comum de ideias, quando se junta, acho que valoriza esta comunhão e foi isso que acabou por acontecer.
Enquanto o Farioli falava com vários clubes, acabou por se identificar com este projeto e com o que este clube oferecia para o trazer para aqui.
É mais difícil para um presidente escolher um treinador que vinha daquela experiência? É verdade que no início da temporada o Ajax nem sequer apontava o título, mas pela forma como acaba por acontecer, é mais difícil escolher um treinador? Ou acaba por se desligar um bocadinho do desfecho e olhar para quem é o treinador, para as ideias?
Os treinadores podem sempre atingir o sucesso, mas estão sempre dependentes do que é o caos do jogo. A irracionalidade do espetáculo e dos seus intervenientes e as decisões, que não estão só vinculadas a decisões do treinador, mas também ao próprio jogo e ao jogo ser caótico e trazer o inesperado.
E aqueles jogos foram mesmo muito caóticos...
Eu acho que nesta história toda, o Farioli conhecerá todos os detalhes que levaram, no fim, o Ajax a terminar em segundo e o PSV a terminar em primeiro. Com certeza se recordará dos lances em que as bolas foram ao poste em vez de terem entrado e que são momentos que acabam por decidir resultados e o fim do campeonato.
Isso corresponde à sua análise, nós sobretudo temos de olhar para o todo: o que é que ele oferece, o que é que são as suas lideranças e depois também a sua capacidade de adaptação ao todo o que é o projeto Porto e à exigência dos adeptos. E foi por isso que o decidimos trazer para aqui.
Podcast Renascença
O Código Farioli | Episódio 1: Il Gatto
Era sequer possível Farioli não se apaixonar por (...)
Já com Farioli no FC Porto, a primeira palestra que ele faz com os jogadores, ele fala da dor da temporada passada como motor das duas partes, do treinador e do plantel. Toda a gente me fala de uma capacidade muito grande de agarrar o grupo, é uma forma muito forte de entrar e de agarrar o plantel?
É algo construtivo, vai-se construindo. No campo das relações, o primeiro impacto é muito importante e há muitas vezes pessoas que falam que em 20 segundos se consegue obter o ponto de vista comunicacional, personalidade, como é o caráter de uma pessoa. Portanto, o subconsciente do ser humano rapidamente absorve quais são as principais e as primordiais características de um líder.
Depois, há toda a confirmação do que é esse método que vem depois com o treino, com os resultados, com o jogo, com a empatia, com a capacidade de reconhecer as características de cada um, e isso foi-se levando com o tempo. Foi feito um convencimento de ambas as partes, entre os jogadores e o treinador, as diferentes sinergias que acontecem à medida que se vai desenrolando o tempo e que o treinador vai afirmando o seu trabalho.
Farioli sugeriu mudanças no Olival, chegando à pré-temporada, conhecendo o espaço? Fala até do lado revolucionário dele, nesse sentido sugeriu alguma mudança mais estrutural?
Sim. Apesar de tudo, e contextualizando aqui um pouco, o FC Porto está num processo de renovação das infraestruturas. Este belíssimo estádio [Dragão] tem 20 anos, tal como tem 20 anos o nosso Centro de Treinos Jorge Costa, e nós estamos numa fase de renovação infraestrutural a partir do momento em que as nossas finanças permitam esse tipo de desenvolvimentos. Que foi o caso com o novo centro de alto rendimento, que avançará agora em abril para a primeira movimentação de terras, licenciamento e início da construção.
Portanto, em realidade, apesar de nós termos todas as condições para oferecer no Olival, há melhorias que fazemos permanentemente. Não digo que sejam diárias, mas são semanais e mensais, e no caso do Farioli houve uma imediata observação de necessidades infraestruturais que poderiam melhorar o dia a dia do Centro de Treinos Jorge Costa.
Por exemplo...?
Por exemplo, nos ginásios, como as máquinas que cada um dos preparadores físicos decide que são necessárias para o seu método. Nas salas de reuniões, no próprio balneário dos jogadores, que também sofreu mudanças radicais. Ao fim de 20 anos, retiramos os jogadores do seu balneário desde sempre e colocamos noutro sítio, melhorando consideravelmente as suas instalações.
Tudo isto são alterações que melhoram a qualidade do dia a dia, das infraestruturas e, a partir daí, com esta conexão e com os "feedbacks" do treinador, aceitamos que eram alterações que devíamos fazer.
Farioli disse numa entrevista à Sport TV há alguns meses que é consigo que fala menos sobre tática. Parte dele ou parte de si essa distância? Até por ter sido treinador, poderia existir essa tentação de discutir mais os aspectos táticos...
São conversas normais, há um entendimento do jogo que eu tenho naturalmente, pela forma como me fui formando enquanto treinador. Os princípios que eu levei para as minhas equipas, a forma como as orientei, o meu próprio método.
Nesse aspeto, cada treinador tem o seu método. Isto é uma ferramenta e uma arma que nós temos para o reconhecimento das qualidades do treinador e da sua capacidade de intervenção. Partilhamos ideias e depois quer o treinador aplicar sempre o seu método. É um campo onde ele entra e domina.
Há a história de o Samu defender os cantos ao primeiro poste, que Farioli revelou nessa entrevista, que foi uma sugestão sua...
Isso acabam por ser brincadeiras que o Farioli traz à mesa, mas são conversas que nós temos de uma forma muito informal e nunca autoritária de presidente que quer colocar o treinador a fazer alguma coisa.
Aquele primeiro jogo em Alvalade [vitória por 2-1] acaba por ser marcante e importante?
Sim, eu acho que todos os jogos que se dão contra os grandes em fases iniciais da época acabam por marcar momentos. Evidentemente, depois tem de haver regularidade e continuidade.
No ano passado, por exemplo, não deixamos de ganhar a Supertaça contra o Sporting também, de uma forma muito violenta, transformando um 3-0 em 4-3. Tivemos continuidade de resultados, mas sempre com alguma irregularidade pelo meio. Por exemplo, o FC Porto de 2024/25 encontrou-se em janeiro com a possibilidade de atingir o primeiro lugar, o que não fazia ao fim de mil dias. E falhamos essa oportunidade e, depois, tivemos uma série de resultados negativos, desde logo a derrota com o Sporting na Taça da Liga e, depois, as derrotas com o Nacional e com o Gil Vicente, que nos trouxeram muito para baixo animicamente. Os resultados negativos foram-se estendendo e a época acabou por se inverter.
Nós com o Francesco Farioli, no início desta época, atingimos regularidade de resultados, após esse jogo com o Sporting. Depois, dá-se o empate com o Benfica em casa, mas em tudo o que foi resultado de Liga Europa e resultado de campeonato, houve sempre uma afirmação do FC Porto, até ao resultado infeliz que teve com o Casa Pia. O que nós queremos evitar são estes resultados infelizes, estes obstáculos que encontramos no caminho e que nos trazem imprevistos. Queremos ter a continuidade em termos de resultados que nos leve até ao título, obviamente.
O golo sofrido em Alvalade é um autogolo, de Nehuén Pérez. O primeiro golo marcado por um adversário ao FC Porto é só o nono jogo da temporada, já em outubro, na Liga Europa, apontado pelo Estrela Vermelha. Impressionou a fortaleza defensiva que Francesco Farioli conseguiu criar?
Eu acho que faz parte do estilo, não só defensivo, mas um conjunto de uma equipa que trabalha a alta intensidade. Defensivo não só de defesas, digamos assim, mas do todo, do onze defensivo que aplica pressão desde o primeiro momento, que é muito agressiva, que tem um estilo muito próprio de se organizar do ponto de vista da organização defensiva. Portanto, tudo isto influi para uma organização defensiva coletiva muito forte por parte do FC Porto. Que não tem só a ver com a qualidade dos defesas e a qualidade individual dos defesas que trouxemos, por exemplo, mas também tem muito a ver com a forma como o FC Porto defende como um todo e no campo inteiro.
Isso impressiona, tem a ver com o treinador, tem a ver com o seu método e acho que é de louvar a forma como rapidamente o implementou, porque foi muito difícil às equipas no início do campeonato marcarem um golo ao FC Porto. Isto tem tudo a ver com a pré-época, com o método, com repetição, com automatismos, o que valoriza o trabalho do treinador, sem dúvida.
Como é que foram vividos os bastidores da primeira derrota para o campeonato, o jogo com o Casa Pia? Houve impacto ou não sentiu esse peso enorme da derrota?
Sobretudo, a forma como reagimos foi muito importante. Foi um percalço que se deu de uma forma surpreendente, porque foi uma altura em que o FC Porto estava seguro, jogava bom futebol ofensivo e defensivo. São percalços que acontecem, obstáculos de que temos de rapidamente recuperar. A forma como reagimos após essa derrota foi o que mais nos orgulhou até agora, até este percurso de abril.
Portanto, reagimos rapidamente, fechamos a equipa, mantivemos o foco e os resultados positivos aconteceram naturalmente logo a seguir.
Tenho uma curiosidade em relação ao jogo em Braga. O festejo de Francesco Farioli, é para si, é para na bancada? É para os adeptos?
Eu acho que é a forma de celebrar um jogo que é considerado bastante difícil, uma deslocação difícil como é a de Braga. Num contexto de desejo por parte dos rivais de que o FC Porto ali perdesse pontos. Com reviravolta, com condicionantes muito específicas relativamente ao jogo, a certas decisões de arbitragem que nós entendemos que deveriam ser tomadas de outra forma. Portanto, tudo isto gera muita emoção e acho que, não sendo o fator decisivo que pode levar o FC Porto ao título, é sem dúvida um grande desafio ultrapassado com grande sucesso.
Mas o festejo é para si ou não?
Não sei, eu quero celebrar no fim do campeonato com o título nas mãos. Vamos levando cada jogo passo a passo e sabendo que ainda vão ser muitas as dificuldades que vamos encontrar pelo caminho.
Tem jogadores com um grande palmarés, que passaram pelos maiores palcos. Thiago Silva, Kiwior, por exemplo, muitos anos na Premier League. Os jogadores falam-lhe do treinador, elogiam-no?
Eu sou presidente do FC Porto, vivo o meu dia a dia mais nos gabinetes do que propriamente no Centro de Treinos Jorge Costa. Há muitas entrevistas dos jogadores do FC Porto atuais que valorizam o trabalho do treinador. Acho que isso é inegável, já ouvimos palavras muito fortes do Thiago Silva, do Diogo Costa e de muitos outros jogadores com experiência, relativamente à qualidade do trabalho desenvolvido até ao momento.
Percebe-se que há alguns jogadores que já tinham trabalhado com Francesco Farioli no passado, como Terem Moffi, Pablo Rosario. Qual foi o peso dele no mercado de janeiro e o quão importante foi, até para ter a equipa fresca, percebe-se, pela rotação que faz?
Janeiro acaba por ser um momento importante, não só o que está relacionado com a renovação do treinador, no que é o acreditar no projeto, no método e na liderança para o futuro. Acho que esse é um passo também que o treinador e o clube queriam dar em conjunto, na antecipação do reconhecimento de um bom trabalho.
Depois, há tudo o que é trabalhar em estrutura. Enquanto nós estamos aqui a ter uma entrevista hoje, o FC Porto jogou um amigável ontem com o Vizela e o treinador está nos nossos gabinetes reunido com a equipa de scouting, a preparar o futuro do FC Porto. Tudo isto quer dizer uma união e trabalho em estrutura relativamente ao futuro. Foi isso que aconteceu também em janeiro: um corpo comum de ideias relativamente ao mercado de janeiro, entre jogadores que o treinador conhece, com os quais já trabalhou; outros não, mas que sabe do potencial que podem ter dentro do seu sistema. E depois, também, todo o trabalho de equipa de scouting relativamente a jogadores tão jovens como o caso do Oskar [Pietuszewski] e a forma como ele rapidamente se adaptou à equipa e o rendimento que deu, com gols e assistências de forma imediata.
Relativamente à chegada do Thiago, é uma oportunidade de mercado que nós queríamos abraçar. Estávamos muito inquietos com o facto de termos apenas três centrais disponíveis, fruto da lesão do Nehuén e da rotura do tendão de Aquiles. Sabendo também que o Pablo nos ofereceu condições e fez muitos jogos a central, e que nos deu máximas garantias, mas a oportunidade de mercado que se deu com o Thiago Silva foi única. E depois, tudo o que é o campo do emocional relacionado com trazer o Thiago Silva de volta ao FC Porto, após a sua passagem na equipa B, e tudo o que foi as emoções negativas da sua passagem na equipa B do FC Porto. Portanto, todo este retorno do Thiago Silva é mágico e o facto de vermos um jogador com a sua experiência, com o seu palmarés, com todos os títulos que ganhou, capitão do Brasil, no FC Porto é para nós um motivo singular de orgulho e que muito nos dignifica enquanto clube.
Farioli não hesitou, mal soube dessa possibilidade?
Não, não. Isto foi uma possibilidade que nos foi trazida pelo agente, que nós não queríamos acreditar que fosse possível. No seguimento dessa chamada do agente comigo, eu liguei ao treinador e o treinador ficou encantado e, se calhar, foi das contratações que mais rapidamente fechamos.
Quanto é que Farioli se envolve nos outros departamentos? Já disse que está reunido com o scouting, que é uma ligação mais natural, mas quanto é que se envolve em todos os departamentos?
Bastante. Todo o trabalho em equipa, a consistência do trabalho da equipa técnica, o reconhecimento da importância de uma equipa técnica, que é vasta e alargada, como todos sabem, mas onde cada um tem as suas áreas específicas de intervenção e sabe precisamente o que é de tem que fazer... Todo este trabalho em conjunto que nós vemos, não só do ponto de vista da equipa técnica, estende-se a outras áreas, como a administrativa e diretiva, com o Henrique Monteiro [diretor executivo] e o Tiago Madureira [vice-presidente], e é transversal a outras áreas no clube, desde logo a performance e o scouting, que têm influência direta no rendimento da equipa também.
Quem é o Francesco Farioli que não vemos? Como é ele nos bastidores, como é o perfil de Farioli no trato?
No trato, no que é pessoal, muito próprio, muito calmo, objetivo, um homem consciente das suas ideias e do seu método. As reuniões que temos estão mais relacionadas com questões do funcionar do FC Porto, o funcionar da equipa do FC Porto, das suas estruturas, da equipa em campo, e não tanto aquelas que estão mais no campo pessoal.
Evidentemente, encontramo-nos e, aí, há um homem afável, de família e de bom trato, de bons costumes italianos e saudável. Portanto, aí há uma relação mais de amizade e familiar, mas que obviamente são sempre levadas mais para o campo do FC Porto, no nosso dia a dia de trabalho, e não tanto do nosso campo pessoal.
Vamos à renovação de contrato. Farioli renovou a meio da temporada. Como é que surge a ideia? Conte-nos a história da renovação, com o anúncio na livraria Lello.
Bom, sobretudo, a continuação do bom trabalho do treinador. De tudo o que ele fez em novembro e em dezembro. Da constatação que esta é a pessoa que queremos a liderar o FC Porto, de um treinador que é reconhecido a nível europeu, que é assediado a nível europeu também, que se afirma cada vez mais como um dos talentos emergentes a nível de treino e de treinador.
Nesse campo, nós quisemos antecipar cenários. Temos uma união muito forte e um reconhecimento muito forte do que é que cada um oferece: FC Porto ao treinador e treinador ao FC Porto. Quisemos antecipar a construção deste futuro e, por isso, decidimos estender este vínculo.
Da parte do treinador, uma forma quase imediata de reconhecimento de que aqui se sente bem, que nesta casa lhe são oferecidas as condições para se afirmar enquanto treinador. E acho que todos estes passos que se dão em antecipação reforçam a união e o vínculo entre duas entidades. Entre a pessoa treinador e a instituição FC Porto.
Acho que foi por isso que chegamos a acordo muito rápido. Acho que isto ultrapassa muito mais o vínculo que é o laboral. Entra no campo do emotivo, das emoções, e da forma como uma instituição é capaz de fazer transcender um treinador na execução do seu trabalho.
Farioli entrou mesmo no espírito do Porto? Não é português, mas entrou mesmo no espírito, até cunhou a frase "Famiglia Portista". Entrou mesmo na Família Portista?
Sim, sem dúvida. E acho que isso é reconhecido não só internamente, mas exteriormente também. Vemos um treinador à Porto, que sabe reconhecer a exigência dos adeptos, a pressão que existe neste clube, a forma como se tem de lidar com a pressão e o facto de este clube ter sempre um posicionamento muito específico relativamente ao seu entorno e a forma como os nossos princípios devem ser defendidos.
Há sempre aquele mito urbano de que, depois de um treinador renovar contrato, os resultados acabam por cair um pouco. Não foi o caso. Como presidente, foge a esse tipo de conceitos?
De todo. Já houve muitos treinadores com renovações a meio da época que tiveram muito sucesso, desde logo o próprio presidente [Villas-Boas renovou contrato com o FC Porto, como treinador, em dezembro de 2010]. Mas também o treinador [Farioli], que espero que chegue ao sucesso absoluto no FC Porto.
Falemos um bocadinho sobre o futuro. É ano de Mundial, sempre um ano em que há muitas mudanças de treinadores. A renovação foi até nessa lógica? Como é possível garantir, no futebol moderno, a continuidade de um treinador?
Respeitando todos os posicionamentos, acho que os treinadores, evidentemente, são assediados por outros clubes. Constatamos cada vez mais, nos grandes mercados, a imprevisibilidade que está associada à carreira de treinador. Nós vimos fenómenos muito específicos acontecer este ano, principalmente naquela que é reconhecida como a maior liga do mundo, relativamente a treinadores e a esse fenómeno de sucesso e queda.
Isto significa que o mercado de treinadores está muito volátil e que rapidamente os sucessos se tornam em insucessos e é a partir desses momentos que os treinadores começam a valorizar mais onde é que estão, o que é que os clubes oferecem, que clubes garantem estabilidade e, no fundo, que clubes garantem uma simbiose perfeita e uma troca perfeita de sinergias, de corpo comum de ideias, de estrutura, de funcionamento e da dificuldade que é encontrar clubes como este FC Porto no panorama atual. Das poucas conversas que partilhamos, acho que... e seguramente se um dia esta entrevista, pós abril, se tornar num capítulo final com o treinador Farioli campeão nacional 2025/26, seguramente o entrevistarão e ele assegurará que aqui encontrou estabilidade, que aqui encontrou estrutura, que aqui encontrou ideias e que aqui encontrou uma estrutura que funciona para fortalecer o treinador e o seu método.
Mas olhando mais a longo prazo, porque hoje em dia os treinadores já não fazem carreira num só clube, aponta Farioli mesmo aos maiores patamares, aos principais tubarões europeus? É um treinador desse patamar?
Com a idade que tem e com o sucesso que esperamos que ele obtenha no FC Porto nos próximos largos anos, acho que sim.















