Como o Mjällby, de uma vila de 800 habitantes, se prepara para ser campeão na Suécia

A primeira grande surpresa da época no futebol europeu chega da Suécia, onde o iminente campeão vive numa vila piscatória. A Renascença conversou o diretor geral do Mjällby, que explica como o clube foi, em menos de uma década, de "estar a um jogo da quarta divisão" a contariar o poder e o dinheiro do Malmö e dos clubes de Estocolmo.

30 set, 2025 - 08:05 • Eduardo Soares da Silva



O Mjallby pode festejar o título de campeão já este fim-de-semana. Foto: Emma Wallskog/BILDBYRÅN/Reuters
O Mjallby pode festejar o título de campeão já este fim-de-semana. Foto: Emma Wallskog/BILDBYRÅN/Reuters

No próximo sábado, o diretor-geral do Mjällby poderá ver-se obrigado a correr, totalmente despido, à volta do seu bairro. Tudo porque o pequeno clube no sul da Suécia está próximo de ser campeão.

Jacob Lennartsson revela que fez essa promessa ao filho no início da temporada, longe de acreditar que fosse ter de a cumprir.

"Se me dissessem há oito meses que estaríamos em primeiro lugar, diria que não era possível. O meu filho de 11 anos perguntou-me o que faria se fôssemos campeões e eu prometi que correria todo nu à volta do bairro. Acho que isso explica o quão surpreendente é o facto de termos uma chance de vencer o título", revela, numa entrevista remota com a Renascença.

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O Mjällby tem apenas 11 participações na Allsvenskan (o principal escalão) desde a década de 80, e chegou a estar "a um jogo de descer à quarta divisão", em 2016.

Regressou ao primeiro escalão em 2020 e o melhor que fez foi o 5.º lugar da época passada. Nem uma década depois de estar a um passo do precipício, está às portas de um título inédito.

A cinco jornadas do fim do campeonato, o Mjällby soma mais 11 pontos do que o Hammarby. Aproximou-se do título com uma vitória suada na capital, no último fim de semana, contra o Brommapojkarna. Em todo o campeonato, apenas uma derrota, na visita ao AIK.

O Mjällby surpreende todos na Suécia, não fosse um clube de uma vila piscatória, Hällevik, onde vivem apenas cerca de 800 pessoas. A cidade mais próxima é Sölvesborg, com cerca de 10 mil habitantes.

Jacob Lennartsson vive e respira Mjällby. Alega que nasceu "a 10 minutos de distância do estádio", é adepto, fez formação no clube e chegou até a jogar pela equipa principal. Regressou em 2016 como treinador da formação, em 2020 liderou o departamento de comunicação e eventos e há três anos que é o diretor-geral do clube.

"Somos hoje um clube muito maior do que há cinco anos, mas a nossa identidade é a mesma. Continuam a dizer que não é possível fazer o que estamos a fazer. Antes falavam de nós aqui na região, agora falam de nós em toda a Suécia", explica, orgulhoso e com um enorme sorriso na cara.


Jacob Lennartsson, o diretor geral do clube. Foto: MATHILDA SCHULER/Bildbyran/Sipa USA/Reuters
Jacob Lennartsson, o diretor geral do clube. Foto: MATHILDA SCHULER/Bildbyran/Sipa USA/Reuters

A Allsvenskan continua a ser um paraíso para os românticos do futebol mais tradicional: a liga rejeitou o VAR após protesto dos clubes e não é permitido que os clubes tenham donos. À semelhança da Bundesliga, impera a lei do "50+1", em que os sócios detêm a maioria de todos os clubes.

"Eu gosto disso, aqui defendemos o futebol pelo qual nos apaixonámos há muitos anos", contextualiza.

Isso não impede que a Suécia tenha os seus tubarões. O Malmö venceu oito de 12 títulos possíveis.

"É o clube mais fácil de comparar, porque é o maior. Têm 10 vezes maior receita do que nós. Recebemos cerca de oito milhões, eles estão perto dos 80. São muito maiores do que nós, mesmo o Hammarby e o Djugarden terão seis ou sete vezes maiores receitas", explica.

Lennartsson dá mais detalhes: o AIK, de Estocolmo, fatura só em bilhética o que o Mjällby amealha de todas as suas fontes de rendimento. Há um grande desequilíbrio de forças, que o Mjällby tenta equilibrar com investimentos certeiros.

"A nossa direção implementou desde cedo, em 2016, que temos de ser eficazes com os custos. Temos de saber onde gastamos o dinheiro. Podemos investir, mas não porque é algo que os outros fazem e tem de ser em algo que nos faça melhores, a curto ou longo prazo", explica.

Como sair da dependência de empréstimos?

A viver a sexta época consecutiva no primeiro escalão, como se explica o salto do Mjällby em 2025? Lennartsson prefere puxar a fita atrás até 2020, quando o clube regressou à Allsvenskan.

"Tínhamos cinco jogadores emprestados. Vinham dos maiores clubes, do Malmö, do Djurgårdens, do AIK. Precisávamos de bons jogadores para sobreviver na primeira divisão, não tínhamos dinheiro para comprá-los, então trouxemo-los por empréstimo", explica.

Este modelo resultou a curto-prazo, mas criava um problema óbvio: no fim do ano, regressavam aos seus clubes, o que obrigava o Mjällby a repetir o processo no ano seguinte. Até que conseguiram quebrar o ciclo com duas vendas que renderam quase três milhões de euros.

"A partir daí, conseguimos construir uma equipa para o médio prazo. Queríamos contratos longos, para não estarmos sempre a renovar a equipa, e com jogadores que fossem bons dois anos depois", explica.


Depois de experiências falhadas, Anders Torstensson deixou o cargo de diretor de uma escola para regressar aos bancos. Foto: CHRISTIAN ÖRNBERG/Bildbyran/Sipa USA/Reuters
Depois de experiências falhadas, Anders Torstensson deixou o cargo de diretor de uma escola para regressar aos bancos. Foto: CHRISTIAN ÖRNBERG/Bildbyran/Sipa USA/Reuters

O clube apostou num "scouting" à base da estatística, um modelo cada vez mais enraízado em clubes europeus, mantendo em campo sempre a mesma estrutura de três centrais, dois alas, três médios e dois avançados, num 3-5-2.

"Agora conseguimos vender jogadores e manter o nível. Nós temos de vender. Se vendêssemos cinco jogadores amanhã, claro que iríamos sofrer, mas conseguimos fazê-lo de uma forma inteligente e gerir isso. É a nossa força", acredita Lennartsson.

O exemplo mais recente é a saída de Nicklas Røjkjær, a meio da temporada para o Nordsjaellend da Dinamarca. Lennartsson fala do avançado como "o melhor jogador do plantel", mas saiu após os dinamarqueses pagarem a cláusula a rondar os 1,7 milhões.

Poderia ser motivo de preocupação, mas o Mjällby tinha um substituto já preparado a assumir a vaga. Ludwig Thorell, de 20 anos, tinha sido recrutado na segunda divisão meio ano antes e assumiu a titularidade. Marcou um dos golos na vitória no terreno do Hammarby.

O diretor do clube acredita que o sucesso da equipa está também "na combinação de jovens que chegam de fora e outros que já cá estão há muito tempo."

"Fomos buscar o treinador a uma escola"

Anders Torstensson é o treinador da equipa, mas durante muito tempo não o quis ser. Depois de uma série de más experiências há mais de 10 anos, entre as quais uma primeira passagem pelo Mjällby, decidiu desistir de ser treinador. Tornou-se diretor escolar.

"Não fomos buscá-lo a um clube, fomos buscá-lo à escola", diz, entre risos.

E foi mesmo preciso convencer o treinador de 59 anos a regressar aos bancos. "Tivemos muitos treinadores na Allsvenskan, mas ou eles queriam ir embora, ou nós queríamos que eles fossem embora, o que procurávamos era alguém para o longo prazo", explica Lennartsson.

Torstensson voltou, num primeiro momento em 2021, quando o Mjällby estava no último lugar e a caminhar para nova despromoção.

"Salvou-nos e queríamos que ele continuasse, mas disse que não. Não queria voltar a ser treinador", recorda.

O treinador que o sucedeu durou apenas um ano. Quando o clube já se começava a soltar da dependência de empréstimos e arrancava um projeto próprio para potenciar jovens, o poderoso AIK recrutou o treinador do Mjällby. Nesse momento, Torstensson regressou em definitivo.

"Eu tinha acabado de chegar a esta função e lembro-me dessa reunião. Ele disse que não tinha a certeza se queria voltar porque consumia muito tempo, vivia uma vida mais calma e que não era um treinador muito tático, não tinha o típico perfil de treinador. Mas nós sabíamos que ele vencia os jogos e que era um grande líder. Convencemo-lo que era o sítio certo", recorda.

Com um treinador que delega "muita responsabilidade nos seus dois adjuntos", um plantel com jovens promissores, líderes experientes e um sistema tático que se mantém há cinco anos, o Mjällby vai conseguindo superar todas as expectativas.


O Mjällby venceu os dois jogos contra o Hammarby. A única derrota no campeonato foi na visita ao AIK. Foto: Kenta Jönsson / BILDBYRÅN / COP 210 / KJ0243
O Mjällby venceu os dois jogos contra o Hammarby. A única derrota no campeonato foi na visita ao AIK. Foto: Kenta Jönsson / BILDBYRÅN / COP 210 / KJ0243

Nesta entrevista, realizada há algumas semanas, o dirigente do Mjällby tentava "não pensar demasiado" no título para evitar uma desilusão: "Independentemente do desfecho, será uma grande época. Mas espero o melhor."

Com o troféu quase no bolso e com a estreia nas provas europeias garantida, o Mjällby tenta garantir que o sucesso se prolongue nas próximas épocas.

"Falamos muito disso, mas o que vale dizer que queremos ser sempre campeões e depois ficar em quinto? Isso seria mau. Não vamos vencer todos os anos, mas acho que podemos continuar a ser um clube com bom ambiente, que lança jogadores e que tenta estar sempre no 'top-5'. É realista pensar isso", prevê.

No entanto, ainda não é tempo de projetar o futuro. O Mjällby pode ser campeão já na próxima jornada, se vencer na receção ao Elfsborg e o Hammarby não vença em Gotemburgo.

O Strandvallen é o pequeno estádio do Mjällby que recebe apenas seis mil pessoas. Antigamente, "esgotava uma vez por ano quando o Malmö nos visitava". Agora, está sempre cheio e no próximo sábado pode ser o palco de uma das principais surpresas do ano no futebol europeu.