

Construir o plantel para o Alverca disputar a I Liga foi como pintar numa tela em branco. Da equipa que fez história e subiu de divisão não resta quase nada: o treinador Vasco Botelho da Costa foi para o Moreirense e saíram todos os jogadores à exceção de um, o médio Diogo Martins.
O português Pedro Alves é o novo diretor desportivo. Assumiu funções depois da SAD detida pela família Vicintin (também donos do Santa Clara) foi comprada, em janeiro, por Thássilo Soares, empresário de jogadores como Vinícius Jr., Martinelli e Lucas Paquetá.
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Em entrevista à Renascença, o dirigente explica que a venda da SAD complicou as contas do plantel: “Oito jogadores eram diretamente emprestados pelo Santa Clara, outros seis passaram a ficar ligados com a venda da SAD. Subindo, esses 14 não iriam fazer parte do nosso plantel e eram os que mais jogaram. Os restantes decidimos não dar continuidade”, explica.
A circunstância não foi a ideal, confessa Pedro Alves, mas “não foi um pesadelo.”
“Gostaria que fosse diferente, gostaria de ter ficado com uns 12 ou 13 porque têm condições para jogar na primeira divisão. Ficamos só com o Diogo Martins e, a partir daí, começámos a criar valor com direitos económicos. Tirando o ano de 2018 quando estive no Estoril, foi o ano em que mais trabalhei na minha vida”, confessa.
Pedro Alves tem feito grande parte da sua carreira a trabalhar em sociedades desportivas com um dono. Depois de ter liderado o departamento de scouting do Braga, um clube com uma gestão mais tradicional e presidencialista, seguiram-se cinco anos no Estoril com diferentes administrações e uma breve passagem no Olympiacos, cujo proprietário detém vários clubes, entre os quais o Rio Ave.
O dirigente, de 42 anos, considera que o futebol, em Portugal, vive “com prejuízo à nascença”.
“Sem ser os grandes, falamos de receitas fixas em torno dos cinco milhões de euros e não há nenhuma equipa do campeonato com um orçamento abaixo dos dez. Começamos a época a perder cinco milhões. Onde vamos buscar isso?”, questiona, lançando de imediato a resposta.
“Ficando na primeira divisão e vendendo jogadores, não há outro retorno financeiro possível para que não tenhamos de ir ao bolso do dono para pagar as contas”, explica.

Pedro revela detalhes: o Alverca “começa em défice de sete milhões” e, se não vender, terá “de ir ao bolso esquerdo ou direito do dono para pagar as contas, ponto final.”
Partindo da realidade crua destes números, Pedro Alves e a sua equipa começaram por fazer um estudo ao campeonato. Olharam para as equipas que desceram de divisão nas últimas temporadas e observaram que os plantéis tinham uma média de idade em torno dos 30 anos e não venderam nenhum jogador.
Apostar na experiência, por si só, não salvou estas equipas. Partindo destas conclusões, decidir a filosofia para atacar o mercado “foi simples”.
“Criámos um grupo de cinco olheiros, liderados pelo nosso ‘chief scout’ que veio do Lens, o Dominique Castro, que considero um ponto chave deste projeto. Tiveram cinco meses para preparar a temporada e começámos a criar condições de aquisição de jovens jogadores pensando em futuras vendas”, explica.
Tentar fazer diferente vem com um acréscimo de incerteza, que o Alverca assume: “Arriscamos em lutar para não descer, mas tentar rentabilizar jovens com muita qualidade.”
O resultado é um plantel com uma média de idades a rondar os 23 anos. Na primeira jornada, os ribatejanos apresentaram-se na visita ao Moreirense com um onze inicial com uma média de 20,8 anos. O mais velho era o ex-Wolverhampton Chiquinho, de 25.
Ao plantel do Alverca juntam-se outros nomes relativamente conhecidos: do Benfica chegou, por empréstimo, o guarda-redes André Gomes, Francisco Chissumba foi cedido pelo Braga para jogar na ala esquerda, o ex-Sporting Gonçalo Esteves e ainda Lincoln, que se destacou no Santa Clara.
Há, no entanto, nomes mais experientes no plantel. Alguns exemplos são o central Sergi Gómez, que fez mais de 200 jogos na La Liga no Celta de Vigo, Sevilha e Espanyol, e que assume a braçadeira de capitão de equipa, e o ponta de lança Sandro Lima, que regressa a Portugal, onde se destacou no Académico de Viseu, Estoril Praia e Gil Vicente. Têm 33 e 34 anos, respetivamente.
O restante plantel é composto maioritariamente por jovens desconhecidos na realidade portuguesa, contratados em diferentes cantos do globo: há quem tenha chegado das Honduras, outros de Brasil, Espanha, França e até da MLS, nos Estados Unidos.
“A principal contratação e a mais sonante foi o Chiquinho, é o que todos conhecem, mas o que me faz sentir mais orgulhoso é ter sete ou oito jogadores de 19, 20 e 21 anos”, confessa.
As notícias com a contabilização de reforços do Alverca foram-se acumulando. Chegaram às 34 contratações. É um número fora do comum, mas Pedro Alves considera “um equívoco”, até porque a Liga Portugal só permite inscrever 30.
“Fomos vítimas, no bom sentido, de termos tantas saídas. Vários foram contratados para a equipa B. Temos um plantel inscrito de 22 jogadores de campo mais quatro guarda-redes. Criou-se uma imagem de que tínhamos contratado 34 reforços, mas seis estão oficialmente na equipa B e outros dois treinam em cima e jogam em baixo”, explica.
Ficou, no entanto, um objetivo por cumprir: “O que estava predefinido era termos um português por posição, mas temos apenas oito.”
O objetivo era fazer um onze inicial que “conhecesse contexto: o que é o Alverca e o que é a competição da I Liga, mas isso não foi possível.”
Diogo Martins foi o único que restou do plantel da época passada. Festejou a subida com um grupo e, quando voltou das férias, não conhecia ninguém com quem estava a treinar. Como se consegue criar dinâmicas? “Ninguém tem uma varinha mágica, não é de um dia para o outro que se eles se vão passar a conhecer dentro e fora de campo.”
“É o grande risco que se corre, os jogadores ainda não sofreram, sorriram e choraram juntos. Nesse campo, a equipa técnica tem sido campeã porque trabalhou com jogadores a chegar a conta-gotas”, atira.
Custódio, de 42 anos, foi o treinador escolhido para suceder a Vasco Botelho da Costa. É o regresso do antigo internacional português à I Liga, após uma breve e mal-sucedida experiência na equipa principal do Sporting de Braga em 2019/20.
O ex-médio regressou às camadas de formação e treinou mais quatro épocas nas equipas sub-23 e B dos minhotos. Na hora de escolher o treinador, Pedro Alves defende que Custódio "foi quem mais quis o projeto".
"Desde o dia um em que foi entrevistado por mim que lhe disse as regras do jogo", diz.
O caminho promete ser difícil, mas Pedro encontra conforto em saber que o treinador não veio ao engano: "Tínhamos de ter um treinador que soubesse que iria trabalhar com um plantel novo e que iria trabalhar dois meses fora de portas, porque tivemos de criar condições para que o estádio pudesse jogar na I Liga".
Pedro Alves garante que Custódio terá tempo, porque o trabalho teria muitas barreiras nos primeiros metros da corrida.
"O Custódio tem sido muito compreensivo, sabia que o caminho ia ser difícil e vai ser-lhe dado esse tempo, não vamos mexer nem fugir um passo ao caminho que vamos percorrer", garante.
O ex-treinador Vasco Botelho da Costa optou por sair perante o futuro incerto que se avizinhava. Recebeu uma proposta do Moreirense e aceitou-a. É, até ao momento, uma das equipas revelação do campeonato.
O diretor desportivo dos ribatejanos conhece bem o ex-treinador. Trabalharam juntos no Estoril Praia quando Vasco foi bicampeão da Liga Revelação de sub-23. Tentou que a equipa técnica não fosse mais um fator de instabilidade, mas sem sucesso.
"Foi uma decisão fácil para ele, foi o caminho mais fácil. É um belíssimo treinador e com grande futuro. Foi convidado a continuar, fosse na primeira ou segunda divisão, mas teve o convite do Moreirense muito antes de acabar a temporada e decidiu ir pelo caminho em que tinha mais garantias e mais estabilidade de plantel. Ele sabia que ia ser preciso formar um plantel novo caso o Alverca subisse", defende.

Desde que Thássilo Soares comprou a SAD do Alverca que entregou a totalidade da responsabilidade do projeto desportivo em Pedro Alves, mas há outro nome que saltou à vista aquando da aquisição: Vinícius Jr.
O craque do Real Madrid faz parte da empresa que comprou a SAD dos ribatejanos e já esteve, inclusive, presente no estádio no jogo frente ao Benfica, o que não passou despercebido. Mas, afinal, qual é o grau de envolvimento do internacional brasileiro?
"Ele entrou com uma pequena participação, mas não é voz ativa no projeto, até porque em termos profissionais tem de se focar em jogar futebol", explica o português.
Vinícius é um dos melhores jogadores do mundo e ter o nome associado ao Alverca é "gratificante" para o seu diretor desportivo: "Ele não só dá visibilidade ao clube, mas ao campeonato também, só traz benefícios."
Os ribatejanos venceram pela primeira vez na I Liga à quinta jornada, por 1-0, na receção ao Tondela. O jovem guarda-redes André Gomes defendeu um penálti e Lincoln cobrou um canto direto que acabaria atribuído como autogolo.
Nesta entrevista, feita ainda antes do primeiro triunfo, Pedro Alves olhava com esperança para uma equipa que tinha perdido três vezes - com Moreirense, Braga e Benfica - e empatado na Reboleira na visita ao Estrela da Amadora.
"Temos visto os indicadores de produção e visto a equipa realmente a lutar de igual para igual com todos e a crescer", observava.
Para Pedro Alves, não adianta pensar mais do que a manutenção este ano, até porque há muitos problemas estruturais ainda a resolver no clube: "Queremos ficar na I Liga, criar os sub-23 e melhorar os estádio para termos boas condições de trabalho para todos e também para os adeptos."
O estádio já foi alvo de obras, mas ainda falta "cobrir todas as bancadas" e construir "três campos de treino, porque o Alverca hoje não tem um campo para treinar".
"Temos já um terreno e vamos investir cerca de um milhão e 200 mil euros para que o estádio seja mesmo só para jogo", acrescenta.
Perante as condicionantes que limitaram e continuam a limitar a época do Alverca e a melhoria de infraestruturas ainda necessárias, faz sentido pensar em objetivos desportivos maiores a médio prazo? Pedro Alves tem uma visão clara.
"Seria uma montanha russa, ir lá acima para voltar cá abaixo. Temos expectativas reais e honestas. Este ano é para sobreviver a todo o custo, para depois desenvolver condições para que, a três ou quatro anos, possamos ser autosustentáveis e não tenhamos de ir ao bolso do dono para pagar as nossas despesas", conclui.