Responsabilização dos automobilistas
Diogo regressa à questão da mentalidade. As contraordenações dos condutores "são vistas pela sociedade como normais, é mobília da casa".
"Um carro em cima do passeio faz parte, um carro em segunda fila faz parte, um carro buzinar só porque está zangado e é proibido também faz parte, mudar de direção sem pisca faz parte. Acontece constantemente, mas não é visto como crime. Até se diz que a culpa do excesso de velocidade é porque alguém meteu um sinal de 30 quando dá para andar a 80. Há uma desresponsabilização do automobilista, mas apontam o dedo ao ciclista porque acham que estão nesse direito", critica.
Diogo tem a "convicção" de que nada mudará e faz notar que "não há uma ação sobre a formação para que, quando alguém se senta num carro, camião, sinta que pode ser perigoso para quem está à volta".
Nesse sentido, apela a que seja "incutida a noção de responsabilidade objetiva, como na Bélgica e na Holanda, em que o condutor tem de provar que fez tudo bem".
Uma medida com que Luís Carvalho, da FOCUB, concorda, ainda que reconheça que "não acontece por decreto de um dia para o outro".
"Uma questão que é debatida há muito tempo é a introdução de responsabilização pelo risco dos automóveis. O cuidado a conduzir um carro tem de ser muito maior relativamente ao cuidado a conduzir uma bicicleta. Se introduzirmos, como noutros países existe, regras mais apertadas de responsabilização, obrigando o utilizador a ter mais cautelas, vai desincentivar os automobilistas de terem certos comportamentos", acredita.
Sensação de controlo esvai-se
Entre os ciclistas, cresce a perceção de insegurança.
Luís Carvalho conta que, num "curto percurso" em Benfica, em Lisboa, a mulher "sentiu a proximidade dos carros e, pura e simplesmente, recusou-se a repetir".
"Nunca mais pegou na bicicleta, mesmo para pequenos percursos", revela.
Mário Alves, da MUBi, diz conhecer "imensos casos de pessoas que gostariam de andar de bicicleta, mas dizem, em almoços, jantares de amigos, que não têm coragem, que têm medo".
"Eu próprio já tenho receio", desabafa Diogo Almeida, cuja sensação de perigo mudou nos últimos meses: "Assusta-me sentir que o controlo que eu tenho sobre a minha segurança é cada vez menor."
Diogo conhece, igualmente, pessoas que deixaram o ciclismo "durante muitos anos".
"Conheço um exemplo de um ciclista que fez a Volta a Portugal do futuro, semiprofissional, dos bons da juventude. Teve um acidente em que partiu um fémur ao meio e, durante cinco anos, nem falava disso. Treinava em rolos, mas nem pensar ir para a estrada. E é alguém que, se for preciso, faz tricô em cima da bicicleta", assinala.
Cuidados a ter para os ciclistas
Isto não iliba os ciclistas de responsabilidades.
Para Diogo Almeida, o comportamento de quem vai em cima da bicicleta "é tão mau como o dos automobilistas, com a diferença de que, 99% das vezes, os ciclistas aumentam o risco para si e os automobilistas para os outros".
Mário Alves, da MUBi, admite que "há casos em que os ciclistas têm de ter maior cuidado".
"Por exemplo, na forma como se vestem ou como conduzem a bicicleta. Há também uma certa tendência dos ciclistas iniciados de ficarem junto ao lancil, que é uma zona muito perigosa, porque tem sarjetas, folhas velhas, cacos de garrafas, etc. O uso à noite de luzes é essencial", exemplifica.
Para Tomás Frade, o respeito "tem de ser mútuo, dos ciclistas e dos carros".
"Eles têm de ter atenção a nós, mas muitas vezes não têm. Não podemos normalizar os acidentes muito graves", vinca.