Para os portugueses no Canadá e um luso-canadiano em Portugal, o curling é "voltar a casa"

Daniel mudou-se para Portugal há quatro anos e "ficou maluco" quando soube que havia curling na Covilhã. A Renascença foi espreitar uma aula especial com o jovem luso-canadiano, para perceber como vai o curling nacional.

31 mar, 2026 - 09:15 • Inês Braga Sampaio



Para os portugueses no Canadá e um luso-canadiano em Portugal, o curling é "voltar a casa"

É diferente jogar curling em Portugal e no Canadá. A pista tem metade do tamanho, o gelo é demasiado espesso. O número de jogadores é substancialmente inferior e, por outro lado, o barulho é maior. Ainda há muito trabalho a fazer para que o curling português praticado em Portugal esteja ao nível daquele que é praticado no Canadá. O sorriso de Daniel Vidal, porém, é igual.

Chegou o último dia do inverno, mas faz tanto frio na Ice Arena da Serra da Estrela, na Covilhã, que deixamos de sentir os dedos dos pés. Sentada a 1.500 metros de altura, nas Penhas da Saúde, a meio caminho do ponto mais alto de Portugal continental, esta é a primeira estrutura permanente para o desenvolvimento dos desportos no gelo no país.

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Aqui, as pedras deslizam, chocam, arrancam gritos de vitória aos jogadores, para quem o frio é mera sugestão. Há também o agitar das vassouras a tirar fricção ao gelo, para que os lançamentos ganhem velocidade. É o som de um regresso a casa.

É bom estar de volta ao gelo. Sinto-me como se estivesse de volta ao Canadá, de volta a casa. Logo na primeira vez que entrei no gelo, foi como estar em casa. Senti-me em casa. Foi como andar de bicicleta. Podiam ter-se passado dez anos e eu entrei no gelo e foi instantâneo. Sentia falta disso”, confessa Daniel à Renascença.


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"É bom voltar ao gelo, sinto-me como se estivesse de regresso a casa."

Daniel Vidal joga curling. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Daniel Vidal joga curling. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença

Seis meses para o curling

O Mundial masculino de curling arrancou na sexta-feira, cinco dias depois de a competição feminina ter terminado, em Calgary, no Canadá, o centro mundial da modalidade. Foi lá que Daniel cresceu.

Filhos de portugueses, Daniel e o irmão, David, cresceram numa aldeia em Saskatchewan, uma província do Canadá. A maioria da população vive a sul, entre as pradarias; o norte está coberto de florestas boreais.

Numa terra com seis meses de inverno, o que faz do curling a atividade principal disponível para as crianças, Daniel e David cresceram com a modalidade como quem, em Portugal, cresce com o futebol. É desporto escolar e todos sabem, pelo menos, lançar a pedra — é como dar uns toques na bola. Para Daniel, contudo, o curling é uma paixão. E quando, há quatro anos, a família regressou a Portugal foi difícil para o jovem, agora com 21 anos de idade, dizer adeus.

“O meu último jogo foi um pouco triste. Foi no 12.º ano e perdemos. Mas demos o nosso melhor”, recorda.

A adaptação a Portugal não foi fácil. David conta como lhe custou ver os amigos tirar a carta de condução aos 16 anos, a idade legal no Canadá; aos 17 anos, ele ainda terá de esperar mais um pouco. Via os amigos a ir a festas e concertos, e ficava triste por não poder estar com eles, no entanto, aos poucos, começou a ver a situação por outro prisma.

“Estou em Portugal, estou na Europa. A Europa tem tudo, posso ir a qualquer lado. Então, inscrevi-me numa escola profissional para aprender mecânica, e entrei num programa de Erasmus e fui à Áustria. No Canadá, isso não seria possível”, assinala.


Hugo Gaspar (centro) e David Vidal (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Hugo Gaspar (centro) e David Vidal (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença

A Daniel, faltava o curling. Até que descobriu que a modalidade é praticada na Covilhã, como revela a mãe, Lina Vidal: “Quando descobrimos que havia curling aqui em Portugal, o Daniel ficou maluco. Ficou todo contente.”

“Entrou em contacto com a Federação e fez três meses aqui, numa equipa do Torneio Interassociações. E adorou”, acrescenta.

O regresso ao gelo devolveu o sorriso a Daniel, que até protagonizou um episódio curioso.

“O meu melhor amigo e eu fazíamos equipa no Canadá. E logo na primeira vez que voltei ao gelo, comecei a falar sozinho como se estivesse a conversar com ele. E foi tão estranho, porque não reparei. Só soube mais tarde, porque havia vídeos, a minha mãe tinha filmado. E via-se eu a falar com o meu melhor amigo, que nem estava lá. Na vez seguinte, já reparei. Mas é porque era tão normal para mim, como se estivesse em casa. Era instinto”, conta.

Duas realidades distintas

O curling que Daniel encontrou em Portugal é diferente do Canadá.

Importa recordar que a principal potência mundial do curling é, precisamente, o Canadá, que conquistou a primeira medalha nos Jogos Olímpicos de Inverno em 1932, logo à primeira participação. Por outro lado, a pista de gelo da Serra da Estrela, a primeira estrutura permanente do género em Portugal, foi inaugurada em dezembro de 2021. São mundos de diferença, como explica João Fidalgo, vogal da Federação de Desportos de Inverno de Portugal (FDIP).

Esta pista tem 28 metros de comprimento. As pistas oficiais têm mais de 40 metros e falta-nos exatamente isso. Falta-nos uma instalação ou duas em Portugal que tenham essa dimensão, para que se possa treinar, para que se possa ter eventos oficiais e até mesmo internacionais”, realça.

E mesmo a pista é apenas “permanente entre aspas”, assinala: “Nós chegamos ao final de maio e as condições atmosféricas não nos permitem continuar. Temos de descongelar e, depois, retomar em outubro, novembro.”

O próprio curling português tem duas realidades diferentes: em Portugal e no Canadá.

“O nível de Portugal é aquilo que se vê aqui na Serra da Estrela Ice Arena. É uma meia pista em que se fazem pequenas experiências e alguns torneios de curling, como o Interassociações da Covilhã, que já vai na sua terceira edição e que, neste momento, já movimenta mais de 120 jogadores de 20 clubes”, refere Fidalgo.


Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença

Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença


Letícia Chambino, de 43 anos, é um desses mais de 120 jogadores que competem no Torneio Interassociações da Covilhã, que junta equipas constituídas por elementos das coletividades do concelho, a maioria federados. É uma competição com regras próprias e puramente recreativa, por não ser praticada numa pista com o tamanho regulamentado, nem com gelo próprio para curling.

Devido à necessidade de partilhar o espaço com outras modalidades, como a patinagem artística e o hóquei, o gelo da Ice Arena é mais espesso que aquele em que se pratica curling de competição.

“Tem uma altura muito alta, o que nos dificulta um pouco, no sentido de não vermos bem as marcações e haver, às vezes, algumas dúvidas”, explica a atleta.

Letícia integra as fileiras do Ice Clube da Covilhã. Ao terceiro ano de participação, é a “skip”, ou capitã, da equipa feminina, que terminou o torneio no quarto lugar, entre 20 equipas. Em entrevista a Bola Branca, recorda como começou a jogar.

Foi um desafio de uma amiga, que queria experimentar e tentou criar uma equipa junto de mais amigos. O Ice Clube acolheu-nos muito bem e, a partir daí, temos participado todos os anos e tem sido sempre uma experiência muito enriquecedora”, conta.

Letícia destaca o facto de o curling ser apelidado de “xadrez do gelo”, devido à forte componente estratégica: “Não é só o domínio da pedra e o tentar acertar no centro do alvo, é também como acertar. É muito estratégico, o que o torna um jogo muito interessante.”

Ao início, o medo de Letícia era cair e magoar-se. Três anos depois, já anda sem medos sobre o gelo, cada passo seguro e natural como os de quem caminha pelas ruas, e já desenha “umas jogadas muito interessantes”.

Já começamos a ter um jogo muito estratégico, o que é muito bom. (...) Antes, não conseguia acertar com a pedra no local onde queria, agora já vou conseguindo. Também falho, claro, mas sinto uma evolução enorme. Quando nós queremos mesmo aperfeiçoar-nos e vemos que já começamos a conseguir atingir o nosso objetivo, temos orgulho em nós próprios”, acrescenta.


Daniel Vidal (centro) e Letícia Chambino (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Daniel Vidal (centro) e Letícia Chambino (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença

Este é o presente em Portugal. E no Canadá?

Em Cambridge, Ontário, o Oriental Sport Club está filiado na FDIP, da qual recebeu um apoio de 12.829 euros, em 2026, na assinatura de um contrato de desenvolvimento desportivo.

Segundo João Fidalgo, o Oriental SC “está a dinamizar os portugueses que residem no Canadá” para a prática do curling.

“São eles quem, neste momento, nos representa nas várias competições internacionais. (...) E não é aquele nível de topo, mas já se batem de igual para igual com grandes seleções”, destaca.

O curling como regresso a casa, seja para Daniel, um luso-canadiano em Portugal, seja para os portugueses no Canadá.

"Levam o curling mesmo a sério"

A próxima competição a contar com uma seleção portuguesa é a pré-qualificação europeia para o Campeonato do Mundo de Curling. Na prática, é uma espécie de terceira divisão mundial, em que Portugal competirá com uma equipa masculina da variante de quatro atletas (e um "suplente").

Eric Fenech, Christopher Ribau, Ben Silva, William Barbosa e Allan Chaves são os jogadores que vestirão as cores nacionais em Ljubljana, na Eslovénia, entre 5 e 11 de maio. A orientá-los estarão Tim Schols, que ajuda na gestão do programa nacional e vive em Lisboa, e Steve Szymanski, o único da comitiva sem qualquer afiliação a Portugal.

Os dois finalistas da competição garantem a promoção para a qualificação para o Campeonato do Mundo de Curling, como se chama oficialmente — outro nome para segunda divisão —, agendado para novembro de 2026, em data e local a definir.


Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
 

Daniel Vidal (esquerda) e Nuno Capela (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Daniel Vidal (esquerda) e Nuno Capela (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Letícia Chambino (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Letícia Chambino (direita). Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença


A mobilização da diáspora luso-canadiana é natural, quando se considera que, só no Canadá, existem mais lojas de venda de produtos de curling que no resto do mundo.

Outros países, como Suécia, Noruega, Dinamarca, Suíça, Escócia, Estados Unidos e Grã-Bretanha, conseguem bater-se com os canadianos em grandes competições como os Jogos Olímpicos; contudo, em cada pista de gelo, é sobre quem veste o equipamento com a folha de acer vermelha que os holofotes brilham.

“Eles levam o curling mesmo a sério”, comenta João Fidalgo, vogal da Federação de Desportos de Inverno.

As grandes marcas produtoras de material e equipamento estão no Canadá, o que é também um problema para o curling nacional, porque tudo o que de lá vem paga 23% de IVA e taxas alfandegária.

“Na Europa, há umas dez lojas. Quando queremos comprar algo, dificilmente conseguimos comprar cá. No Canadá, conseguimos, com certeza”, sublinha Fidalgo.

A maioria do material detido pela FDIP foi comprada através de um programa financiado pela World Curling Federation, que este ano atribuiu dez mil dólares às federações nacionais: “Vamos aproveitando este dinheiro para comprar o material. Algum é novo. O outro, como as pedras, é material recondicionado e que nós aproveitamos para dar início aqui, com o menor custo possível e com a maior eficiência.”

Criar tradição em Portugal

Apesar da falta de tradição de jogo, o curling é, de acordo com João Fidalgo, o desporto de inverno que os portugueses mais vêem na televisão.

“E é talvez aquele que os portugueses menos compreendem as regras. Mesmo assim, tem uma atratividade bastante grande e que nos traz esperança para o futuro”, sublinha.

O “maior sonho” dos responsáveis pelo curling na FDIP é construir uma pista com as dimensões oficiais para a prática do curling.


Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença


É um sonho prestes a tornar-se realidade, dado que a Federação tem um acordo de cedência de terrenos com a Câmara Municipal do Seixal para a construção de um pavilhão de desportos de inverno, com uma pista de patinagem com as dimensões oficiais.

Todavia, devido a restrições orçamentais, o projeto teve de prescindir de gelo exclusivamente dedicado ao curling e com tratamento especial, o “pebbling” (um processo de preparação da pista através do qual se borrifa o gelo com pequenas gotículas de água que congelam de imediato, criando uma superfície granulada, que facilita o deslizamento da pedra). Por isso, não será adequado para programas de elite.

Ainda assim, e até para gerar expectativa em torno da nova infraestrutura, a FDIP está a trabalhar junto das escolas para dinamizar uma sub-modalidade chamada “floor curling” e introduzi-la como desporto escolar. É uma variante jogada em pistas de dez metros de comprimento por 1,60m de largura, com pedras de plástico com esferas lá dentro — uma espécie de entrada para a refeição principal, o curling.

A construção do futuro Pavilhão de Desportos de Inverno não descentraliza a Covilhã. Na verdade, o objetivo, diz João Fidalgo, é transformá-la num “cluster do curling”. Esse plano passa por reconverter um edifício existente e criar três pistas.

Temos de catequizar as forças vivas do município. Se isso acontecer, sabemos que temos capacidades para desenvolver o curling e para chegar mais longe com esta modalidade”, afiança.

A partir daí, a ambição é começar a levar os portugueses em solo nacional, em conjunto com os da diáspora, a campeonatos do mundo e da Europa.

Isso é o futuro, no entanto. O grupo que se reúne na Ice Arena da Serra da Estrela, numa sexta-feira, tem a alta competição longe do pensamento.

Uma experiência para repetir

Sobre o gelo, decorre uma “experiência” de curling. Um evento de divulgação da modalidade, com inscrição, para que as pessoas possam experimentar e aprender “pequenas noções de regras, pequenas noções de como deslizar, como lançar, como escovar”.

Procuramos trazer mais gente para o curling”, complementa João Fidalgo

Nesta sessão, o professor é Daniel Vidal. A “larga experiência” com o curling valeu ao jovem lusocanadiano um convite da Federação para partilhar o conhecimento adquirido no Canadá com jogadores e curiosos em Portugal.


Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
 

Três anos de experiência não tiram a Letícia Chambino a sede de aprender. Já com a noite a cair sobre os pontos mais altos da Serra da Estrela, lança-se às curvas e contracurvas da estrada que encaracola montanha acima, para participar na aula.

“Não é a primeira experiência, mas está a ser uma experiência muito positiva, porque estamos a treinar algumas estratégias que, em torneio, não temos a oportunidade de treinar. E ao virmos cá hoje, começamos a ter um maior domínio do equilíbrio no gelo, a pontaria para acertar mais no centro do alvo. São sempre táticas que devem ser mais exploradas e esta iniciativa está a contribuir para uma grande melhoria”, salienta.

Esta experiência também alimenta a ambição de Letícia, para o próximo Interassociações: “No próximo torneio, o objetivo é subir ao pódio, pelo menos o terceiro lugar. Vamos ver se conseguimos atingir.”

A iniciativa não atrai apenas jogadores experimentados. Hugo Gaspar, de 28 anos, e Nuno Capela, de 34, vêm de Coimbra, num grupo de quatro, por causa do “senhor dos relatos do curling”. É a primeira vez que lançam uma pedra no gelo.

“Quando estava a ver jogos de curling, o comentador, de vez em quando, dizia que, em Portugal, o único sítio onde era possível treinar e fazer curling era aqui, na Covilhã. Fiquei curioso, até porque, na maior parte dos desportos, é possível praticar em qualquer sítio. Mas curling, não. Então, foi do género: ‘se temos um sítio em Portugal, por que não experimentar?’”, conta Nuno.

Hugo veio “por arrasto”. No final, porém, mostra-se satisfeito com a “ótima experiência”.

“Gostei muito. É parecido a alguns jogos tradicionais, em certa medida, e é interessante. Em pouco tempo, uma pessoa começa a perceber como é que a coisa funciona”, refere.

Para Nuno, “essa é a parte boa” do curling: “A curva de aprendizagem é brutal. Começamos ali muito ‘bananas’, sem saber muito bem o que fazer, como posicionar o corpo, a perna atrás e coisas assim. Passado meia horinha, já sai de forma natural.”

“Como é óbvio, ainda vamos ao chão e fazemos parvoíces”, acrescenta, com um sorriso.

Independentemente da motivação inicial para fazer a viagem de Coimbra para as Penhas da Saúde, os dois amigos coincidem na conclusão de que a experiência é para repetir.

“Já estivemos aqui a pensar como vir cá na sexta-feira, marcar um jogo e trazer amigos”, atira Nuno.


Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
 

Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença


Quem também participa na iniciativa é David, o irmão mais novo de Daniel. Embora o curling fosse desporto escolar no Canadá, o jovem, de 17 anos, não voltou a praticar desde que a família se mudou para Portugal, há quatro anos.

A experiência reaviva a memória, recorda os músculos de movimentos aprendidos em Saskatchewan durante a infância.

“Inicialmente, estava a apanhar o jeito, precisei de treinar um pouco. Mas depois, já estava a ensinar-lhes [aos outros participantes] como jogar e já conseguia fazer tudo sozinho. Trouxe de volta a alegria, o conhecimento”, relata David.

É “nostálgico” voltar ao gelo, assume, “como se estivesse de volta ao Canadá”. Uma sensação que David já não tinha desde há quatro anos. Fá-lo querer vir mais vezes: “Penso que vou começar a jogar.”

Duas horas e meia por um sorriso

Agora, David entende Daniel e a razão de, todas as semanas, a família Vidal trepar a montanha, de Vagos à Covilhã, para que o irmão mais velho possa jogar o desporto que, segundo a mãe, “está-lhe no sangue”.

“São duas horas e meia para chegar aqui. É um pouco longe, mas ele adora e a gente faz o esforço para vir cá, ao menos uma vez por semana. Pelo sorriso e pela alegria que eles têm, vale a pena”, confidencia Lina.

Já Daniel não se importaria de visitar a Ice Arena “a toda a hora”.

“Adoro estar aqui. É uma viagem de duas horas e meia, mas no Canadá conduzíamos durante horas para chegar a um supermercado. Lá, vivíamos no meio do nada, por isso, para nós, uma viagem dessa duração é normal. O único problema é a montanha, as estradas são um pouco assustadoras”, admite.


Curling na Serra da Estrela. Foto: Inês Braga Sampaio/Renascença
 

O sorriso no rosto Daniel é notório e lá se mantém, rasgado, durante toda a sessão. Quem também o vê é João Fidalgo, que vê no jovem luso-canadiano “bastante potencial”.

O Daniel encontrou alguma felicidade connosco. E nós também encontrámos alguma felicidade com ele, porque ele é um potencial atleta para integrar as nossas seleções masculinas, aqui desde Portugal. Que é um sonho que nós temos: juntar um destes jogadores a uma seleção nacional”, afirma.

A ideia agrada a Daniel: “Seria bastante fixe ir a uns Jogos Olímpicos.”

O sonho do jovem, contudo, é outro.

Adorava ser treinador. Gosto de ajudar pessoas, é algo que sempre quis fazer. Especialmente crianças. Adoro ajudar crianças a aprender, ajudá-las a progredir na vida. Faz-me feliz ver uma pessoa progredir, porque a faz feliz. E isso deixa-me feliz, porque sei que o que estou a fazer está certo”, confessa.

E sim, em Portugal a pista é mais curta. O gelo é mais espesso. Mas “o jogo é o mesmo”, diz Daniel, e praticar, ajudar os outros jogadores, ver o irmão retomar o gosto pelo curling e ter a mãe a assistir na bancada, e o pai por videochamada, vale cada viagem de Aveiro à Covilhã e da Covilhã a Aveiro: “É o meu lugar feliz.”