“Eles aqui pensam que comemos bacalhau ao pequeno-almoço”. Carlos Abreu, o chef da Marinha que atracou em Miami

Numa viagem a Miami percebeu que não queria mais sair de lá. Carlos Abreu é chef num restaurante português em Miami e já comprou bilhete para todos os jogos do Mundial... até a final. Mas antes quer cozinhar um bacalhau à brás para CR7.

16 jun, 2026 - 06:20 • André Maia



Old Lisbon 1
 

Quando a Renascença chegou ao Hard Rock Stadium, em Miami, onde Portugal vai fazer o terceiro jogo da fase de grupos, começou a chover torrencialmente. Era a mesma chuva – e relâmpagos – que poucas horas depois cancelaria o treino da seleção portuguesa, a cerca de 115 quilómetros.

O guarda-chuva tinha ficado em casa. A capa da chuva não era confortável o suficiente. Um abrigo ajudaria, mas árvores no gigantesco parque de estacionamento nem vê-las. E a falta que fazia uma para nos abrigarmos. Magia. Não foi preciso andarmos muito para encontrarmos uma. A cerca de 10 minutos do estádio ali estava ela.


A oliveira centenária que está no centro do restaurante Old Lisbon, em Aventura
A oliveira centenária que está no centro do restaurante Old Lisbon, em Aventura

Oliveira portuguesa, centenária, copa frondosa e com luz a apontar para as folhas. Oásis? Alucinação? Não. É real e a descrição consegue ser ainda mais utópica. Esta árvore está dentro de um edifício, no meio de mesas e cadeiras e recebe visitas diariamente. A oliveira de que falamos está no meio do restaurante Old Lisboa, um pedacinho de Portugal às portas de Miami.

Mas como é que foi parar aqui uma árvore? “O arquiteto lembrou-se de trazer uma oliveira verdadeira para aqui, já seca, como é óbvio. Veio num contentor. Já temos dois restaurantes com oliveiras, mas esta é a maior. E foi uma carga de trabalhos para entrar aqui, foi uma carga de trabalho muito grande. Mas lá entrou e agora é um dos ex-libris do Old Lisbon.”

Quem o diz é o chef executivo do restaurante, Carlos Abreu. Tem 60 anos, cresceu na Ericeira e passou uma vida na Marinha, onde chegou a ser cozinheiro-chefe do Estado Maior da Armada. Um dia, há 14 anos, uma viagem mudou-lhe o destino.


Carlos Abreu foi cozinheiro-chef na Marinha, mas Miami chamou mais alto. Foto: André Maia/Renascença
Carlos Abreu foi cozinheiro-chef na Marinha, mas Miami chamou mais alto. Foto: André Maia/Renascença

“Eu vinha de férias para Miami. Vim uma vez, vim outra e outra. E numa das vezes, passei de carro em frente a um restaurante português e disse: ‘Olha, um restaurante português!’. E eu gostava muito desta cidade. Meti na cabeça que tinha de vir para aqui. Mandei um e-mail para tentar saber quem era o dono, investiguei, procurei, consegui entrar em contacto com ele e, ao fim de sete meses, tinha o visto para trabalhar aqui”, conta Carlos Abreu a Bola Branca.

A teimosia compensou. Hoje é chef executivo do restaurante e braço direito do dono, o também português Carlos Silva, que também encontrou o Old Lisbon da mesma forma: passou ao lado dele, entrou e quis saber quem mandava. Mas antes, pediu um bacalhau, o que comprova uma teoria americana.


O chef Carlos Abreu com Fátima, uma das trabalhadoras do Old Lisbon. Foto: André Maia/Renascença
O chef Carlos Abreu com Fátima, uma das trabalhadoras do Old Lisbon. Foto: André Maia/Renascença

“Quando cheguei a Miami, comecei a ouvir as pessoas a dizer ‘bacalhau, bacalhau, bacalhau, bacalhau’. E eles pensam que nós, os portugueses, comemos bacalhau ao pequeno-almoço, ao almoço, ao jantar, à ceia… é bacalhau todos os dias”. E os americanos não estão longe. Afinal de contas, assim que perguntamos qual é a especialidade da casa, a resposta é: bacalhau. Qual? Todos.

“Temos bacalhau à lagareiro, temos bacalhau assado, temos bacalhau com natas. Aqueles bacalhaus mais conhecidos em Portugal são os que nós temos aqui, os mais tradicionais da nossa casa”. Mas, se recebesse Cristiano Ronaldo para um jantar, o chef Carlos sabe bem que tipo de bacalhau teria de cozinhar. “Fazia-lhe um bacalhau à brás, porque eu sei, por pessoas do círculo dele, que ele adora. É o prato preferido dele. Fazia-lhe a minha versão”.

Não admira que o chef Carlos Abreu fale tanto de bacalhau e de peixe. Afinal de contas, passou cerca de 20 anos na Marinha portuguesa, onde chegou a ser cozinheiro-chefe do Estado Maior da Armada. Foi por lá, no meio de várias aventuras, que conheceu Henrique Gouveia e Melo, que tinha dois vícios secretos. “Conheci-o sim, mas ele ia mais por causa dos cafés. Tomava muito café e bebia muita Coca-Cola”.


A decoração do Old Lisbon, em Aventura, ao lado de Miami. Foto: André Maia/Renascença
A decoração do Old Lisbon, em Aventura, ao lado de Miami. Foto: André Maia/Renascença

A vida de ambos mudou muito, mas há algo que se mantém: o amor à bandeira. E esse amor já levou Carlos Abreu a uma pequena loucura neste Campeonato do Mundo. “Eu vou ao estádio ver todos os jogos, vou seguir a seleção passo a passo. Já tenho bilhetes até à final”, explica o chef português a Bola Branca, que por enquanto não pensa em ficar a “arder”. “Se vou ver os jogos na mesma se formos eliminados? Vamos ver, vamos ver. Depende do estado de espírito nessa altura."

Mas as expectativas são altas. “Estou muito confiante. Temos uma grande, grande equipa, temos grandes jogadores. A opinião unânime de argentinos, de brasileiros, de colombianos, os que vão passando aqui, é que nós temos a melhor equipa do Mundial”.

Agora falta fazer o resto. E se a equipa jogar tão bem como um cozinhado do chef Carlos Abreu, então podemos ter água na boca para alimentar o sonho. E quem sabe, aí, também os jogadores possam provar as iguarias. “Ainda não os convidei, mas obviamente que gostaria imenso de receber os jogadores, principalmente o Ronaldo”.


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