Benfica
Foi um português que promoveu o sisudo Trubin quando tinha 16 anos: "Precisa de títulos no Benfica"
26 jun, 2025 - 10:45 • João Filipe Cruz
António Ferreira é treinador de guarda-redes e estava com Paulo Fonseca no Shakhtar Donetsk quando Trubin virou sénior. A Bola Branca o técnico traça o perfil psicológico de Trubin e recorda o início em Donetsk.
Desde 2023 é titular indiscutível da baliza do Benfica, que não hesitou em pagar cerca de 10 milhões de euros ao Shakhtar Donetsk. De lá para cá, Trubin tem quase 100 jogos de águia ao peito e ao 98.º, contra o poderoso Bayern no Mundial de Clubes, foi peça fulcral para que se fizesse história.
Bola Branca conversou com o responsável pelo primeiro "molde". António Ferreira era treinador de guarda-redes dos ucranianos quando viu pela primeira vez o menino Anatoliy de 16 anos. Bastaram 20 minutos para Paulo Fonseca ficar convencido e pedir que Trubin não voltasse à academia.
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Dono de uma "maturidade" que sobressaiu cedo, quase que é preciso "pagar para arrancar-lhe um sorriso", mas quem o viu crescer não tem dúvidas: só "falta a eficácia dos títulos" para voar mais alto. E, para António Ferreira, pelo jogo de pés "está preparado para um Barcelona ou um Manchester City".
Quando é que se cruzou com Trubin pela primeira vez?
Recordo-me perfeitamente. Foi numa paragem de inverno. Eu tinha, por norma, o hábito de ver alguns jogos das camadas jovens. Recordo-me de ter visto o Trubin e chamar-me a atenção. Ele ia às seleções, era capitão nas equipas por onde jogava, já era um líder. Tentava ver os jogos mais difíceis, contra o Dínamo Kiev, por exemplo, adversários mais fortes.
Daí a ser chamado para a equipa equipa principal demorou pouco…
Então, depois de andar a ver os jogos, pedi para que ele fosse connosco na pré-época.
Ainda com 16 anos?
Ainda com 16 anos. Ele faz anos em agosto, vai fazer agora. Ele começou a treinar com dois que também ainda tinham 16 anos. E foi. Teve a felicidade de ter que jogar, porque nós tínhamos alguns guarda-redes e marcávamos alguns jogos, às vezes dois por dia e, assim, toda a gente jogava.
E recorda-se do primeiro jogo?
Não sei se foi com o Estrela Vermelha… Foi com uma equipa da Sérvia. Ele jogou uns 20 minutos e esteve muito bem. E no final, lembro-me do [Paulo] Fonseca vira-se e diz ‘olha, o miúdo portou-se muito bem, se calhar até podemos pô-lo mais tempo’.
Ganhou lugar no plantel principal?
Lembro-me que, no final desse estágio na Turquia, ter dito ao diretor para informar a academia que ele já não ia mais. Ia ficar connosco. Na primeira época ainda fez um jogo oficial, em Kharkiv. Não foi um jogo muito difícil, como alguns disseram. E depois, na época seguinte, já fez uns 10 jogos, já com o Luís Castro. No ano seguinte já foi o número um, com 18 anos.
O que é que via nele? O que é que já sobressaía?
Primeiro que tudo, uma maturidade muito grande para a idade. Claro que tinha coisas a corrigir e muitas coisas a evoluir. Não tinha só a ver com ele, tinha a ver com a nossa forma de jogar. Mas ele tinha uma capacidade de trabalho e uma vontade de evoluir que não era normal para a idade. Depois, há o facto de eles saírem de casa muito novos. Os ucranianos crescem muito mais rápido que nós. Em Portugal, dificilmente saímos de casa e debaixo das asas dos nossos pais. Eles vão muito cedo para as academias, muito longe, e são obrigados a crescer.
Ele tinha essa maturidade. Tem pai, mas não vivia com ele. Ele é o homem da família. Ele sempre teve essa responsabilidade, é muito responsável, com vontade e capacidade de trabalho tremenda.
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E isso reflete-se no campo? É difícil encontrar aquela dose de ‘loucura’ que, há uns tempos, se esperava de quem ocupasse as balizas…
Entendo… mas acho que isso nunca se vai perder. Para jogar naquela posição tens que ser muito corajoso. Hoje já não se vê tanto, mas muitas vezes metemos as mãos onde outros metem o pé. E se metemos as mãos, a cabeça anda lá perto.
É preciso ser corajoso? É. Mas, acima de tudo, não ir abaixo porque sofremos um golo, mesmo que tenha sido por nossa culpa. Costumo dizer que há alguns guarda-redes que têm uma arrogância positiva.
Trubin sempre teve essa boa arrogância?
Veja o Lucas Chevalier, que esteve connosco no Lille. Começou a jogar com 20 anos, mas nunca tinha estado na primeira liga e, agora, é guarda-redes da seleção francesa. Ele tem isso. Mas também é um bocado cultural. O francês tem mais essa arrogância de, por vezes, acharem que são os maiores do mundo. O Trubin tinha essa coragem. É do povo ucraniano e vê-se com a guerra. Ele é corajoso mas, acima de tudo, é muito inteligente.
Parece muito cerebral. Sempre foi assim?
Lembro-me de lhe dizer ‘a ti, quase que é preciso pagar para esboçares um sorriso’. É a frieza ucraniana. A minha esposa também é ucraniana, eles sentem as coisas de uma forma diferente e demonstram as coisas de uma forma diferente. No caso dele, para além disso, tem a ver com o contexto em que viveu. O pai ausente, por exemplo.
O meu pai faleceu quando eu tinha dois anos, mas eu sou diferente. Nós somos muito mais calorosos, reagimos muito mais, demonstramos muito mais. Com ele, nunca sabia se gostava, ou não, dos exercícios, porque reagia sempre da mesma forma. Para ele, ter vencido o Real Madrid ou um adversário mais modesto na Taça, parece a mesma coisa. A reação dele, em termos faciais, é um bocado a mesma.
Para um treinador, isso é bom ou mau?
Não sei… Para ajudarmos alguém, precisamos de saber o que é que vai naquela cabeça. Trabalhei com ele cerca de três épocas e já conseguia perceber pequenos sinais, pequenos ‘quase sorrisos’. Um guarda-redes, quando é jovem, pode não estar preparado para a crítica, para os dias difíceis. E ele também passou por isso. Foi titular, deixou de jogar, voltou a jogar. Faz parte do processo.
E isso é o que eu tentava fazer ver, às vezes nos jogos menos conseguidos. Tu vais superar isto e no futuro vais ser muito mais forte. Não há problema nenhum em esboçar reações, mostrar o que é que vai aí dentro. Não quero que sejas uma pessoa eufórica, mas também não quero que sejas uma pessoa deprimida.
Mas no caso de Trubin, o seu ‘problema’ era a tal frieza.
Era uma estabilidade emocional que às vezes até ultrapassa um bocado os limites. Parece sempre muito frio. Na primeira época de Benfica, há uma vitória frente ao FC Porto ou o Sporting, que são dos jogos que deixam mais marca. Disse-lhe ‘ganhaste, tiveste uma boa prestação e, no final do jogo, parecia que estavas um bocado chateado’. Ele disse-me que eu já sabia como era a forma de ele ser, não demonstra muito o que lhe vai na alma, tem que ser equilibrado.
Tudo bem. Tem que ser equilibrado, mas às vezes até parece que anda um bocado triste ou desiludido. E ele respondia que não, muito pelo contrário, que estava muito feliz no Benfica e em Portugal. Essa frieza ajuda-o, acredito que sim. No tempo que passei com ele, via como uma coisa boa, mas às vezes também pode ser perigosa, porque podemos estar ali com algum problema e não conseguimos, sequer, tentar ajudar.
Para além de poder extravasar um pouco mais em termos emocionais, o que é que ainda falta a Trubin?
Neste momento, para dar o salto no Benfica, precisa de títulos. E precisa de outra coisa que o pode ajudar imenso: passar a ser realmente o número um da Ucrânia.
Tem andado a saltitar entre ele e Lunin, do Real Madrid…
Exato e eu percebo que um selecionador ceda quando tem um guarda-redes do Real, que nem é titular, mas está lá. Passa na cabeça das pessoas. Para o Trubin, ser o número um da seleção vai ajudar. Vai levá-lo para um nível superior. E, no Benfica, faltam-lhe os títulos e acumular boas prestações na Champions.
E em termos técnicos? Hoje pede-se aos guarda-redes que joguem bem com os pés, por exemplo.
Nisso o Trubin é exemplar. Eu penso que está preparado para o Barcelona ou o Manchester City, que são aquelas equipas que os seus guarda-redes sobressaem muito por esses jogos de pés.
Mas insisto, para ele evoluir e sobressair muito mais, precisa de títulos no Benfica. Essa estabilidade de vencer vai levar a que tenha uma confiança muito maior. Para dar o salto para campeonatos superiores ao português precisa da eficácia dos títulos. É mostrar que está preparado para ganhar competições.
E na equipa de António Ferreira? Titular indiscutível?
[risos] Recordo-me que, quando saí do Shakhtar, disse-lhe que esperava encontrá-lo novamente um dia. Já lá vão quatro anos e, naquela altura, já tinha muitas coisas que eu achava que eram importantes para um guarda-redes. Quando apanhas alguém com 16 anos, consegues moldá-lo um bocado mais à tua imagem, mas sempre com respeito e respeitando as características de cada um.
Ele, sendo um guarda-redes tão grande, é normal que reaja muito mais vezes com os pés do que outros não tão altos. E respeitar as características psicológicas. Não tens que estar ali a forçar e a tentar arrancar sorrisos. Tens que respeitar, saber lidar com ele e estar atento aos pequenos pormenores. Aí vais conseguir perceber o que é que vai ali dentro e também o que está a falhar.
- Bola Branca 18h14
- 11 mai, 2026










