Futebol nacional
“Benfica viu finalmente que o rei vai nu”. Pedro Brinca aplaude posição sobre centralização
10 jul, 2025 - 13:40 • Pedro Castro Alves
O economista e professor universitário, apoiante de Noronha Lopes às eleições das águias, critica a visão “profundamente errada” de Pedro Proença e alerta que o futebol português pode ficar com “a competitividade internacional da Albânia”.
Pedro Brinca, economista e professor na Nova SBE, que nos últimos anos estudou o modelo de venda centralizada dos direitos de transmissão no futebol, aplaude a posição publica do Benfica de tentar suspender o processo. Apoiante assumido de Noronha Lopes às eleições encarnadas, lamenta apenas que a direção liderada por Rui Costa tenha demorado tanto tempo assumir esta postura.
“Congratulo-me que finalmente se diga que o rei vai nu. Nada daquilo que está no comunicado do Benfica é propriamente novidade, são coisas que vão sendo faladas já há muitos anos. A mim, o que me custa é que a três meses das eleições é que se lembrem de trazer isto à mesa, quando estamos a menos de um ano de ter de apresentar um modelo ao Governo e à autoridade da concorrência de como se vai explorar a centralização”, afirma, em entrevista a Bola Branca.
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O economista viu também com bons olhos a resposta da Liga Portugal, que, também em comunicado, diz já ter começado a reunir com operadores televisivos nacionais e internacionais e plataformas de “streaming”, em paralelo com uma comunicação constante com o Governo e a Autoridade da Concorrência. Ainda assim, culpa a direção anterior do organismo pelo atraso no processo.
“O comunicado até me parece feliz. No entanto, não se pode pedir a esta direção da liga que, em três meses, resolva uma coisa que anda aqui a marinar desde 2016 e sobre a qual nunca se avançou de forma significativa. Pedro Proença entrou em 2015 para a presidência da Liga, em 2021 é criado o decreto da centralização, sem uma análise crítica sobre o impacto que isso podia ter no futebol português, e, até hoje, não se concretizou nada”, atira.
Nas críticas ao atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Brinca vai mais longe e diz que Pedro Proença “não tem nenhuma visão para o futebol que não seja copiar” as principais ligas europeias, um pensamento que o economista considera “profundamente errado” e dá o exemplo da discussão sobre o aumento do formato das competições europeias.
“A fase de liga do novo modelo da Liga dos Campeões era para ser de 10 jogos. Portugal era, de longe, de todas as ligas, aquela que tinha um interesse maior em que este aumento se realizasse. Mas o que é que Pedro Proença fez? Pedro Proença esteve contra esta expansão. Claro que depois foi para a presidência da Associação de Ligas Europeias, tinha os interesses alinhados com as principais ligas”, acusa.
Com a centralização Portugal passa a ter “18 clubes de dimensão média”
Pedro Brinca defende que as contas da Liga Portugal não batem certo com a realidade. Se o objetivo é “diminuir a desigualdade” de forma a “ninguém ficar a perder”, a única opção é “fazer com que o bolo cresça de forma muito acentuada”. No entanto, ainda não viu qualquer proposta nesse sentido.
“Estamos a falar de quase duplicar o bolo. Ora, que estratégias é que têm sido apresentadas, discutidas, que possam sustentar uma valorização que duplique o valor dos direitos televisivos, para que ninguém saia prejudicado? Nenhuma, zero”, alerta, nestas declarações à Renascença.
Nesse sentido, e caso a receita com a venda dos direitos não cresça, o futebol português poderá sair prejudicado com a centralização.
“Quando discutimos economia, todos nós dizemos que as nossas empresas precisam de ganhar escala para competir nos mercados internacionais. Chegamos ao futebol português e é precisamente a lógica contrária: parece que o que nós queremos é ter 18 clubes de dimensão média e ter a competitividade internacional da Albânia. Nós temos a competitividade que temos porque temos 10 milhões de ovos com pouco poder de compra, uma base comercial fraca, mas concentrada em três clubes, em três cestos”, diz.
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O economista reforça que “as pessoas não têm noção da dimensão do país” no momento de discutir as desigualdades entre os clubes, motivadas pelo baixo número de grandes centros urbanos em Portugal, e dá o exemplo do Moreirense.
“Estamos a falar de uma liga que tem clubes como o Moreirense, por exemplo, de uma freguesia com 5 mil habitantes. Assumindo que nós conseguimos manter as receitas que obtivemos em 2015, o dinheiro que o Moreirense vai receber pelos direitos televisivos com este novo modelo dá para pagar, todos os anos, a cada habitante da freguesia de Moreira de Cónegos, uma viagem às Caraíbas com tudo incluído”, afirma.
Revogar a centralização é possível
Com todos os pontos negativos que aponta, Pedro Brinca considera que o decreto-lei que força a aplicação do modelo centralizado da venda dos direitos de transmissão televisiva tem de ser alterado e, no limite, revogado.
Desta forma, o professor da Nova SBE está convicto de que, da mesma forma que o governo foi pressionado a avançar com a legislação, poderia facilmente ser pressionado a seguir no sentido inverso.
“Se se chegasse à conclusão, no âmbito da FPF e da Liga, que a negociação centralizada não era do melhor interesse dos clubes e assim deixassem de apoiar a aplicação desse decreto-lei, eu não tenho dúvidas nenhumas de que o governo revogaria. Este é o pior pesadelo para o governo. O governo fez isto porque na altura a indústria do futebol, e as entidades que representam os clubes, o pediram. Não tenho a mais pequena dúvida disto”, conclui.
- Bola Branca 18h14
- 11 mai, 2026









