Futebol feminino
"Uma vez mais, futebol feminino cai para segundo plano". Desistência do Euro 2029 é "oportunidade perdida"
20 nov, 2025 - 14:15 • Inês Braga Sampaio
João Almeida Rosa, diretor de scouting do San Diego Wave e ex-coordenador do scouting do Sporting, diz esperar, em entrevista à Renascença, que esta desistência da organização do próximo Campeonato da Europa "não reflita um menor interesse" da federação em relação ao futebol feminino.
A desistência de Portugal da candidatura à organização do Euro 2029 é "uma boa oportunidade perdida" e dá a João Almeida Rosa, coordenador de scouting do San Diego Wave, dos Estados Unidos, a sensação de que, "uma vez mais, o futebol feminino é deixado em segundo plano".
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Na terça-feira, a duas semanas do anúncio do anfitrião do próximo Campeonato da Europa, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) comunicou a retirada da candidatura, "em total sintonia com a UEFA", para se focar totalmente na organização do Mundial 2030.
Na quarta-feira, fonte da FPF justificou a decisão à Renascença, tomada de forma "consciente e ponderada", com a intenção de focar esforços no desenvolvimento da estrutura interna do futebol feminino.
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João Almeida Rosa foi treinador-adjunto do Sporting, antes de assumir a coordenação do scouting durante três temporadas. Agora, cumpre a mesma função no San Diego Wave. Em declarações a Bola Branca, admite não estar por dentro da estratégia da federação, nem saber o que a organização de um Mundial (com Espanha e Marrocos) implica.
Contudo, fica a sensação de que, "uma vez mais, é o futebol feminino a ser deixado em segundo plano, em detrimento do futebol masculino".
"Viriam cá as melhores seleções da Europa, boa parte das melhores jogadoras do mundo, e são sempre jogos interessantes. Seria certamente um momento que iria fomentar o interesse do público no futebol feminino e isso tem acontecido um bocadinho por toda a parte onde grandes competições são organizadas, não só os Europeus, mas também os Mundiais, etc. Temos visto que, de facto, o futebol feminino, nos países em que há essas organizações, tende a ganhar ali um 'boom'", diz.
"Espero que não reflita menor interesse"
O head of scouting do San Diego Wave, uma das melhores equipas da Liga norte-americana, a NWSL, dá o caso da Inglaterra, em que a organização do Euro 2022 potenciou o futebol feminino no país, e da Suíça, em que o mesmo sucedeu com o Euro 2025: "Visto de fora, parece-me estranho que organizar o Campeonato de Europa de 2029 vá contra a estratégia de melhorias do produto interno, porque acho que o produto interno tende a ficar melhor se as pessoas tiverem mais interesse."
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Até porque, assinala, "esse é um dos grandes desafios do futebol feminino: continuar a atrair espectadores, interesse, e por consequência marcas também". Mais ainda numa altura em que se instalou um "sentimento de estagnação" da modalidade em Portugal.
"Espero que esta desistência não reflita um menor interesse relativamente ao futebol feminino. Acho que é, talvez, uma boa oportunidade perdida de ter cá uma grande competição. Não sei se tem a ver com essa desaceleração ou estagnação do crescimento do futebol feminino em Portugal. Sei é que, por comparação a outros países, esse crescimento tem sido mais lento. Isso é uma evidência", observa.
Concorrência? "Iam na mesma a votos, perdiam e até saíam mais bem vistos"
Portugal tinha concorrência forte à organização do Euro 2029. A Polónia é uma nação de menor relevância no futebol feminino, mas a Alemanha, oito vezes campeã da Europa, e a Dinamarca e a Suécia, que se associaram numa só candidatura, têm grande tradição.
No entanto, Almeida Rosa não entende que isso fosse um obstáculo à candidatura portuguesa, dado que "até faz sentido que a UEFA atribua este tipo de organizações a países em desenvolvimento, que precisem mais desse 'boom'". Retoma o exemplo da Suíça, que "não é uma potência do futebol feminino", mas cujo Europeu teve estádios cheios, recordes de assistência históricos e "excelentes jogos de futebol".
"Se não iam ganhar, iam a votos na mesma, perdiam e se calhar até saíam mais bem vistos do que através desta desistência. Com algum esforço, até se pode pensar o contrário. Achariam que iriam ganhar, não queriam por alguma razão prosseguir com a organização e, portanto, desistiram antes que ganhassem. Mas isto sou eu a pensar alto, não faço a mais pequena ideia se foi isto ou não foi isto", acrescenta.
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"Gostaria de ter os dois e não apenas um"
Almeida Rosa também lamenta a justificação da desistência com a necessidade de concentrar esforços na organização do Mundial 2030, com Espanha e Marrocos. "Poderá ser legítimo", ressalva, porque não está a par das exigências da organização de duas provas.
"Mas sai-se sempre com aquela ideia de que uma vez mais é o futebol feminino a ser deixado em segundo plano em detrimento do futebol masculino. Mesmo que não houvesse Mundial 2030, isto seria sempre uma notícia negativa. Assim sendo, não digo que é mais negativa, mas digo que uma vez mais promove aquele sentimento de que em Portugal quer-se saber sobretudo do desporto masculino e sobretudo do futebol masculino", vinca.
E conclui: "Portanto, também gera um bocadinho esse sentimento atrelado de que não apenas não vai acontecer um torneio que estava a gerar algum entusiasmo, ou que poderia gerar esse entusiasmo se a candidatura fosse bem sucedida, mas ainda se percebe que acontece para potenciar mais a organização de um Mundial masculino".
O head of scouting do San Diego Wave sublinha que "é ótimo" que haja um Mundial masculino, que "será sempre um grande momento". Todavia, como alguém que trabalha no futebol feminino há vários anos, João Almeida Rosa "gostaria de ter os dois e não apenas um".
- Bola Branca 18h14
- 10 jul, 2026










