Fórmula 1
Hamilton e Ferrari voltam aos altos e baixos. Entre a adaptação e os relatórios para chegar aos títulos
27 jul, 2025 - 23:49 • João Pedro Quesado
Piloto britânico não quer ficar sem títulos na Ferrari, como Alonso e Vettel, e tem feito relatórios para mostrar à equipa o que é preciso mudar nos bastidores para ser campeão. Mas continua a ficar atrás de Charles Leclerc em pista.
Lewis Hamilton voltou a ter um fim de semana complicado com as cores da Ferrari. Eliminado na primeira fase da qualificação tanto para a corrida sprint como para o Grande Prémio, o heptacampeão salvou a sua honra ao terminar a corrida em sétimo, depois de descartar a posição baixa na grelha de partida por um arranque nas boxes.
O GP da Bélgica devia ter sido de viragem, ainda que ligeira, na temporada da Ferrari. Enquanto o resultado final não foi uma mudança de paradigma, Charles Leclerc foi ao pódio pela quinta vez este ano e disse estar mais “confortável” com o carro. Já Hamilton voltou a passar por problemas, num fim de semana em que revelou ter convocado reuniões para devolver a Ferrari aos títulos.
As dificuldades com o Ferrari, antes e depois das mudanças
Hamilton foi profícuo nos pedidos de desculpas à equipa após a eliminação na qualificação no sábado, provocada por uma das mais ligeiras infrações de limites de pista na curva Raidillon (o topo da rápida subida após o início da volta). “Inaceitável”, reconheceu o britânico.
A Ferrari alterou parte da suspensão traseira — incluindo, entende-se, um novo amortecedor para melhorar controlar a altura ao solo —, uma mudança esperada já há algum tempo. Questionado sobre se sente uma melhoria, Hamilton foi monossilábico — “não, nem por isso” — e continuou a apontar a traseira do carro como a maior limitação.
Hamilton culpou ainda o pião na qualificação para a corrida sprint — um bloqueio do eixo traseiro na última travagem da volta — numa nova peça do carro, que ficou por identificar.
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“Temos um novo componente no carro que o Charles teve em Montreal [há três corridas]”, apontou Hamilton, relembrando que o colega de equipa “teve um acidente” nesse circuito, quando usou a peça pela primeira vez: “eu tive a mesma experiência na minha primeira vez com a peça ontem”.
Do lado de Leclerc, a experiência neste GP da Bélgica tem sido mais esperançosa, ainda que não transformadora. O terceiro lugar na qualificação, a pouco mais de três décimas da pole position na volta mais longa da temporada, é um bom sinal, já que o monegasco é conhecido por proezas na qualificação — e essas proezas dependem do carro lhe dar confiança para dançar no limite da aderência, algo que, até agora, não aconteceu este ano.
“Senti-me confortável com o carro desde o primeiro treino”, apontou Leclerc, para quem a mudança “vai na direção certa”, acrescentando: “É um bocadinho melhor. Foi isso que me ajudou a ser mais consistente este fim de semana. Os tempos apareceram mais facilmente. Normalmente é o meu ponto forte, mas este ano tenho tido dificuldades em pôr tudo junto na qualificação”.
“Como sempre, especialmente para a nossa equipa, tudo é muito empolado”, afirmou o piloto sobre a atenção mediática sobre a nova peça, já que “estamos a falar de diferenças muito mínimas numa volta” e a nova suspensão não vai dar “as três ou quatro décimas” que faltam para chegar à McLaren.
Leclerc já é piloto da Ferrari desde 2019, e entrou na academia de jovens pilotos da equipa em 2016. Conhece bem a equipa, as características dos carros italianos e a forma de trabalhar — que claramente é diferente do resto da grelha (ou pelo menos da Mercedes), dadas as dificuldades de adaptação de Hamilton.
Os relatórios de Hamilton para a equipa
O fim de semana em Spa-Francorchamps começou com Lewis Hamilton a sublinhar que não quer ter o resultado com a Ferrari que Fernando Alonso e Sebastian Vettel tiveram: zero campeonatos.
“Se olharmos para a equipa nos últimos 20 anos, ela teve pilotos fantásticos. Tiveram o Kimi [Räikkönen], o Fernando, o Sebastian, todos campeões do mundo, contudo, não venceram um campeonato do mundo” com a Ferrari, apontou o britânico (esquecendo-se que perdeu o título de 2007 para Räikkönen, então na Scuderia). “Eu recuso que esse seja o caso comigo. Por isso estou a esforçar-me mais”.
A frase surgiu já no fim de uma resposta sobre o que Hamilton tinha feito nas três semanas entre a corrida em Silverstone e o GP da Bélgica, com o heptacampeão a revelar os esforços nos bastidores para desbloquear “o enorme potencial dentro” da Ferrari, onde “nem todas” as partes estão a dar o máximo que podem.
“Estive na fábrica, duas semanas, alguns dias cada semana, fizemos a preparação… E naturalmente estávamos a ver o que aconteceu na última corrida, coisas que precisamos de mudar. Tive muitas reuniões, convoquei muitas reuniões com os líderes da equipa”, apontou Hamilton, referindo John Elkann (presidente da Ferrari), Benedetto Vigna (CEO da Ferrari) e Frederic Vasseu (diretor da equipa).
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“Tenho-me sentado com o diretor do desenvolvimento do carro, com o Loic Serra, mas também com os diretores de diferentes departamentos, a falar do motor do próximo ano, da suspensão dianteira do próximo ano, da suspensão traseira, coisas que quero, problemas que tenho com este carro”, enumerou Hamilton, que revelou que também Charles Leclerc tem participado nestas cimeiras em Maranello.
“Tenho enviado documentos ao longo do ano”, continuou o heptacampeão. “Depois das primeiras corridas, escrevi um documento completo para a equipa. Depois, durante esta pausa, enviei outros dois documentos. Nas reuniões quero falar disso, de alguns ajustes estruturais que precisamos de fazer para melhorar, de todas as áreas que queremos melhorar, e o outro documento era mesmo sobre o carro”, incluindo “os problemas” e novas características para incluir no projeto de 2026.
Durante a pausa entre os Grandes Prémios da Grã-Bretanha e Bélgica, Lewis Hamilton experimentou pela primeira vez o carro da Ferrari para 2026 no simulador, o que envolve “30 engenheiros numa sala e falar com cada um” sobre as várias partes do carro.
Os relatórios e análises descritas por Hamilton são, provavelmente, o maior benefício da chegada do campeão de 40 anos a Maranello — a experiência de trabalhar na equipa Mercedes, que foi campeã por oito anos consecutivos enquanto Lewis Hamilton venceu o título de pilotos por seis vezes, até com elementos que fizeram parte da era de Michael Schumacher na Ferrari, trará lições valiosas.
A questão que fica por responder é se apenas essa aproximação ajuda Hamilton a desafiar mais de perto Leclerc, ou se o piloto britânico vai encaixar ainda este ano na Ferrari.
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