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Fórmula 1

Quem é Gabriel Bortoleto? O discreto brasileiro que pode ser o melhor estreante da F1 em 2025

19 ago, 2025 - 12:05 • João Pedro Quesado

Ex-futura estrela da McLaren, Gabriel Bortoleto tem Fernando Alonso como agente e Max Verstappen como conselheiro. O que atrai a atenção e confiança de dois campeões do mundo? Os títulos consecutivos de Fórmula 3 e Fórmula 2 são apenas uma pista.

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Na F1 moderna, temporadas com estreantes na grelha de partida não são uma garantia. Temporadas com seis estreantes, como é o caso de 2025, são uma raridade, tornando mais longas as conversas sobre o melhor do clube de principiantes.

Adepto de Ayrton Senna, Gabriel Borteleto não começou o ano com nenhum destaque particular, ao contrário de Kimi Antonelli — substituto de Lewis Hamilton na Mercedes — ou de Liam Lawson, novo colega de Max Verstappen na Red Bull. Mas, lentamente, o brasileiro começou a colocar-se nesse debate, a par de Isack Hadjar, da Racing Bulls.

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Como tem sido a temporada de Bortoleto?

Em 14 corridas, o piloto da Sauber apenas pontuou três vezes. O registo parece alarmante, mas Nico Hulkenberg terminou cinco vezes nos dez primeiros lugares — mostrando a limitação do carro que ambos conduzem. Carro esse que, até maio, podia esconder totalmente as boas performances dos pilotos.

“Se eu tivesse um carro que terminasse no top três em todas as corridas e fosse terceiro, as pessoas iam dizer ‘na época de estreia ele está a acabar em terceiro em cada corrida, está a fazer um trabalho fantástico’, mas talvez eu não estivesse a fazer um trabalho fantástico”, disse recentemente Bortoleto. “Às vezes, estás a fazer um trabalho fantástico — e não estou a dizer que sou eu — mas o máximo que se pode alcançar é um 16.º ou 17.º lugar e extraiu-se tudo do carro”.

Fora das equipas de topo, comparar os pontos acumulados numa temporada por vários pilotos pode ser um exercício pouco fiável — apesar de ser apenas isso que conta para o campeonato. Gabriel Bortoleto tem 14 pontos até agora, contra 37 de Hulkenberg, piloto que, depois do pódio em Silverstone (que valeu 15 pontos), fica mais difícil de menorizar, o que acontecia mesmo com a vitória de 2015 nas 24 Horas de Le Mans no currículo.

A corrida mais recente, na Hungria, foi o ponto alto do ano de Bortoleto até agora: um sexto lugar de onde o piloto mal saiu durante a corrida. Antes, na Bélgica, aproveitou uma qualificação no top dez para não cair daí toda a corrida, ficando depois preso no lugar que ocupava (como praticamente todos os carros) devido ao efeito do DRS. A moral dessa história é que o andamento do jovem de 20 anos não o fez perder lugares.

O par de corridas antes é mais ilustrativo da amplitude da temporada deste estreante. Na Áustria, marcou os primeiros pontos depois de ir à fase final da qualificação pela primeira vez. Em Silverstone, cometeu um erro a alta velocidade nos treinos livres, e errou novamente na quarta volta da corrida, com pneus de piso seco numa pista molhada, acabando a desistir.

Com estes dados, uma conclusão possível é que Gabriel Bortoleto é inconsistente. Mas sabemos que, em Miami, uma corrida boa (mas provavelmente sem pontos) acabou com um motor a fumegar; e que, na Espanha, a opção estratégica da equipa lhe tirou a hipótese de pontuar. E há outros dados importantes.

Desde o Grande Prémio de Espanha que a tendência na qualificação tem estado a favor do brasileiro — nessa sequência de corridas, Hulkenberg só foi mais rápido no Canadá. Aliás, na média das qualificações das 14 corridas, a diferença entre os dois pilotos da Sauber é de apenas 0,058 segundoscom vantagem para Bortoleto. Se a tendência continuar, Bortoleto vai acabar o ano como o piloto mais rápido da equipa que se vai tornar Audi em 2026.

Um dos fatores na melhoria progressiva, além das mudanças no Sauber, é a adaptação à atual geração de carros de F1 — que tendem a preferir suavidade e estabilidade, o que perturba menos a plataforma aerodinâmica. “Estes carros de F1 são muito sensíveis”, sublinha Bortoleto, apontando que ainda está “a perceber a forma mais rápida de conduzir”.

“Eu não quero ser um piloto que tem um estilo de condução, porque não o acho correto. Deve-se adaptar às condições que se tem”, aponta o piloto, reconhecendo que “há um estilo que é mais adequado ao que é natural”, mas que quer “tornar-se num piloto que pode mudar a abordagem em todas as curvas, conduzir com uma técnica diferente, travar de forma diferente, acelerar de forma diferente, atacar a curva mais, atacar a curva menos”.

É fácil perceber que piloto serve de exemplo a Bortoleto, e o próprio admite-o: Max Verstappen, alguém que “é capaz de usar tantas técnicas numa volta que é inacreditável”. Ajuda que os dois sejam amigos, aproximados desde 2023 pelo interesse comum pelas corridas virtuais. E, como Verstappen, Bortoleto “não se importa” de ter um carro com uma frente forte, que torna o carro mais responsivo à custa de maior instabilidade na traseira.

Do Brasil para a Itália com 11 anos

Como acontece com todos os pilotos de fora da Europa, depois de começar a competir cedo, aos 7 anos, nos karts, Gabriel Bortoleto teve, eventualmente, de se mudar para o Velho Continente para continuar a perseguir o sonho da F1. Fê-lo em 2017, ainda com 11 anos, passando a morar em Desenzano del Garda (perto de Verona, no norte da Itália), o que quase resultou num divórcio entre os pais — o pai de Bortoleto decidiu esconder da mãe a mudança até o adolescente já estar em Itália, para que esta, que “sempre foi muito apegada”, não a impedisse.

Depois de terceiros e segundos lugares em alguns campeonatos de kart, Bortoleto estreou-se nos monolugares em 2020, na Fórmula 4 Italiana, onde venceu uma corrida e foi quinto no campeonato. No ano seguinte, subiu ao nível da F3, no Campeonato Europeu de Fórmula Regional, mas apenas conseguiu pontos e um pódio, terminando o ano em 15.º.

Em 2022, continuou no mesmo campeonato, e teve “momentos difíceis”, com “vários problemas com os motores, que não foram tornados públicos”: “Apercebi-me que a única coisa a fazer era arregaçar as mangas e tentar recuperar onde possível”, recorda Bortoleto, sublinhando que “a situação me tornou um piloto mais forte e uma pessoa mais forte”.

“Pus todas as minhas forças nos aspetos que podia melhorar, tinha de ganhar décimas onde possível, e acho que cresci. Tive confirmação disso quando os problemas técnicos foram resolvidos”, diz o jovem brasileiro, “comecei a ganhar, e o fim da temporada foi muito bom”.

Foi durante esse ano que Fernando Alonso passou a gerir a carreira de Gabriel Bortoleto, através da A14 Management. “Foi um passo importante, um grande valor acrescentado. Em 2023, cheguei à Fórmula 3 e corri em fins de semana de Fórmula 1 pela primeira vez”, conta Bortoleto, apercebendo-se “que ia correr debaixo dos olhos de todas as principais equipas de Fórmula 1, portanto pedi ao Fernando muitos conselhos sobre como gerir o fim de semana, a pressão, as expectativas”.

A fase da Fórmula 3 começou bem, com duas vitórias nas duas primeiras corridas ‘principais’ (a F2 e F3 têm sempre corridas sprint no sábado, além das corridas de domingo). Os bons resultados continuaram e, a certa altura, chegou “uma chamada do Emanuele Pirro”, pai do engenheiro de Bortoleto na Fórmula 4 e então líder do programa de desenvolvimento de pilotos da McLaren.

Por essa altura, já o jovem era amigo de Verstappen. “O Max ajudou-me muito com o simulador, a sugerir o que tentar, mudanças a fazer. Encontramo-nos online, na casa dele, na minha casa, jogamos, debatemos um pouco de tudo”, conta Bortoleto. Agora, são facilmente vistos a conversar antes das corridas, ou em conferências de imprensa.

Já debaixo da asa da McLaren, a consistência do brasileiro garantiu-lhe o título na F3. O salto para a Fórmula 2 em 2024 foi natural. Depois de desistências por problemas mecânicos e acidentes causados por outros, recuperou, conseguiu pódios, e a primeira de duas vitórias surgiu a meio da temporada. A segunda, em Monza, foi conseguida a partir do último lugar, e o título chegou devido à maior consistência face ao rival, Isack Hadjar — que venceu quatro corridas durante o ano.

Do nada, a McLaren tinha um problema: nenhum lugar onde pôr o campeão que tinha em mãos. “Eles tornaram claro que não seriam um obstáculo se eu tivesse uma oportunidade para correr na F1”, conta Bortoleto. Essa oportunidade apareceu quando os chefes da futura equipa Audi o identificaram como piloto a ter na formação.

“As únicas pessoas a quem preciso de provar coisas são as que estão na equipa”, aponta Bortoleto sobre o estatuto discreto no primeiro ano de Fórmula 1. Comparado com a Fórmula 2, “é muito diferente”.

“Na F2 tem uma pessoa a fazer muitas coisas; na F1 tens uma a fazer uma coisa e é o melhor, focado nessa coisa. Precisas de aprender a trabalhar com toda a gente, como falar com eles, como dar o melhor feedback possível”, reflete o brasileiro sobre o trabalho em equipa.

Já sobre a parte que só depende dele, aponta que “há dados, aprende-se, tenta-se copiar e fazer melhor, mas a parte mais difícil de ser piloto é ser completo. Na minha vida, não vi muitos pilotos capazes de fazer isso. E os que vi, são todos campeões do mundo”.

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