07 nov, 2025 - 07:40 • João Pedro Quesado
A um mês do fim, com quatro Grandes Prémios para disputar, a luta pelo título de campeão mundial da Fórmula 1 em 2025 ainda pode sofrer muitas reviravoltas. Se a maioria da temporada criou a ideia de que esta seria um privilégio exclusivo de Lando Norris e Oscar Piastri, pilotos da McLaren, Max Verstappen tem mostrado, desde o verão, que nunca está fora da equação enquanto a matemática permite chegar ao topo.
O tetracampeão de F1 da Red Bull tem sido o protagonista das últimas corridas, somando 116 pontos em 133 possíveis nas idas a Monza, Baku, Singapura, Austin e Cidade do México. A recuperação foi ajudada por uma McLaren bamboleante, abaixo da perfeição necessária, ora por opções erradas, ora por erros dos pilotos.
O que vem aí? A F1 vai ao Brasil já este fim de semana — o circuito de Interlagos, aula de samba anual do campeonato, tem o hábito de injetar algum drama nas lutas pelos títulos —, seguindo depois viagem para Las Vegas, Qatar e, finalmente, Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. No Brasil e no Qatar há corridas sprint, para baralhar ainda mais os candidatos ao título.
O piloto da Mercedes não é um candidato real ao título. Apenas a matemática obriga a incluir o britânico nas contas — a mesma ciência que está prestes a retirá-lo da equação.
George Russell está a 99 pontos do atual líder, Lando Norris. Os quatro Grandes Prémios e duas corridas sprint que faltam significam que há um máximo de 116 pontos para disputar.
Esta hipótese muito ligeira pode desaparecer assim que a corrida acabar no Brasil. Depois disso sobram, no máximo, 83 pontos para disputar.
Para se manter na luta, George Russell tem de ganhar 16 pontos ao líder neste GP: teria de vencer no sábado (corrida sprint) e no domingo, e Lando Norris não poderia ficar acima do quarto lugar nos dois dias. Não é impossível, mas, ainda sem os carros em Interlagos, ninguém imagina ser muito provável que a Mercedes domine por lá.
Para ser campeão, Russell teria de ganhar ao líder 24,75 pontos em média por cada Grande Prémio que falta. Como esse número é praticamente igual aos 25 pontos que vale uma vitória, não basta vencer tudo — se Norris, Piastri e Verstappen estiverem sempre nos lugares seguintes, essas seis vitórias não seriam suficientes para sair do quarto lugar no campeonato.
Ninguém estava a contar, há apenas dois meses, com o campeão mundial das últimas quatro temporadas para o título de 2025. Contudo, assim que a Red Bull melhorou a janela de operação do carro, Verstappen apareceu.
Trinta e seis pontos atrás de Norris, e 35 atrás de Piastri, Verstappen precisa de acumular, em média, nove pontos a mais que a dupla da McLaren em cada um dos GP restantes. Entre as corridas dos Países Baixos e do México, em que reduziu a diferença para o líder do campeonato de 104 pontos para 36, Verstappen teve um ganho médio de 13,6 pontos por GP.
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É possível chegar a primeiro. A exigência dos nove pontos por GP significa, no entanto, que vencer tudo não é suficiente se Norris ficar sempre em segundo lugar (a diferença do primeiro para o segundo lugar é de sete pontos). Se alguém se intrometer entre Verstappen e Norris em duas corridas, os dois ficariam empatados com 437 pontos — com vantagem para Max no desempate por número de vitórias (seriam 11 contra seis).
Para o tetracampeão se tornar pentacampeão, o melhor será haver mais que duas corridas em que ganha nove ou mais pontos a Lando Norris. Se vencer, precisa que outro piloto fique em segundo; se não vencer, começa a precisar de mais pilotos entre os dois — com um segundo lugar, só é possível alcançar esses dez pontos de diferença se Norris for sexto.
Esse piloto pode ser Oscar Piastri, mas apenas por três vezes. Num cenário (improvável) em que apenas Norris, Piastri e Verstappen terminam no pódio durante o resto do ano, esses três segundos lugares de Piastri resultam também num empate a 437 pontos com vantagem para Verstappen. Se Piastri for segundo atrás de Verstappen nos quatro Grandes Prémios, ou em três GP e numa das corridas sprint, seria o campeão.
E se Max não vencer tudo? E se as especificidades de Las Vegas voltarem a favorecer a Mercedes, e Verstappen for segundo nas ruas da “Sin City”? Lando Norris não poderia fazer melhor que sexto, e Oscar Piastri não poderia ficar no pódio. Ou Verstappen ficaria a depender de outro resultado menos bom dos McLaren noutra corrida.
Lando Norris: 357 pontos. Oscar Piastri: 356 pontos. Uma diferença de um ponto significa que a tarefa é simples, mesmo que não seja fácil: ficar sempre que possível na frente do colega de equipa.
Se cada um dos dois vencer dois Grandes Prémios e uma corrida sprint e ninguém se intrometer no meio, Norris acaba o ano com a mesma vantagem de um ponto que tem agora. Num dia menos bom, qualquer posição que um dos dois possa ganhar vai ser fulcral.
Para Piastri superar Norris sem depender de alguém se intrometer entre os dois, tem de vencer mais que o colega de equipa — três Grandes Prémios e uma corrida sprint, no mínimo. Se vencer dois GP e uma corrida sprint antes de Abu Dhabi, até se pode dar ao luxo de ser terceiro na última corrida, desde que não seja Norris a vencer.
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A mesma lógica é válida para Norris — vencer mais é a maior segurança que tem.
A pairar sobre este duelo vai estar a gestão que a McLaren pode fazer dos dois pilotos. As já afamadas "regras papaya" são candidatas a palavra do ano da F1, ganhando destaque desmesurado (e risos de Verstappen) quando a equipa pediu a Oscar Piastri, em Monza, para devolver o segundo lugar a Lando Norris após uma troca de pneus lenta — uma cedência de três pontos.
Mas a McLaren prefere ser justa a escolher alguém para vencer. Em entrevista ao podcast "Beyond The Grid", da F1, Zak Brown (diretor executivo da McLaren) disse preferir uma repetição de 2007 a escolher favorecer Norris ou Piastri. Nesse ano, Kimi Räikkönen (Ferrari) ficou com caminho aberto para roubar o título nas últimas corridas graças à luta interna da McLaren, entre Fernando Alonso e Lewis Hamilton.
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"Prefiro fazer o melhor que podemos com os nossos pilotos empatados em pontos e o outro a derrotar-nos por um que a alternativa, que é dizer a um dos nossos pilotos agora, quando estão a um ponto um do outro, 'sei que tens o sonho de ganhar um campeonato do mundo mas atiramos uma moeda ao ar e não o podes fazer este ano'. Esquece", apontou Brown, apoiado depois pelo diretor de equipa, Andrea Stella: "Se o Max for campeão no fim do ano, para nós, o importante é podermos dizer que demos o nosso melhor e demos o nosso melhor de acordo com a forma como corremos".
Verstappen reconheceu que ele próprio e a Red Bull precisam de "ser perfeitos até ao fim da temporada", independentemente do que a McLaren faça, para vencer o título. Um possível obstáculo a essa perfeição, além das inúmeras variáveis de uma corrida de F1, é a fiabilidade dos motores.
A F1 limita o número de elementos dos motores que podem ser utilizados durante uma temporada. Cada piloto pode utilizar quatro motores de combustão interna, quatro geradores térmicos (convertem o calor em energia elétrica), quatro geradores cinéticos (recuperam a energia perdida na travagem), quatro turbocompressores, duas baterias, duas unidades de controlo eletrónico, e oito sistemas de escape.
Atualmente, Lando Norris, Oscar Piastri e Max Verstappen não ultrapassaram nenhum limite. Todos já utilizaram, no entanto, o máximo de motores de combustão interna, geradores térmicos e cinéticos, turbocompressores, baterias e unidades eletrónicas.
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Ultrapassar o limite de qualquer um dos componentes implica uma penalização de dez lugares na grelha de partida face ao resultado na qualificação, que apenas pode ser cumprida num Grande Prémio, e não numa corrida sprint. As penalizações acumulam: precisar de um quinto elemento de dois ou mais componentes significa ultrapassar os 15 lugares de penalização, o que resulta em arrancar de último lugar.
Idealmente, nem McLaren nem Red Bull vão utilizar mais componentes. Mas podem escolher fazê-lo por precaução, como tem acontecido ao longo dos últimos anos — Verstappen partiu dos últimos lugares no GP do Brasil de 2024 devido a ultrapassar o limite de componentes, mas anulou essa penalização ao vencer de forma categórica.
Um azar mecânico — pior que o sofrido por Norris em Zandvoort, onde a fuga de óleo fez o motor desligar-se antes de uma rotura completa — pode virar tudo do avesso para qualquer um dos candidatos. Para Verstappen, será fatal para as esperanças de um quinto título; para Norris ou Piastri, será uma grande barreira para ultrapassar.