Futebol Internacional
Vamos falar sobre Lamine Yamal, sim?
16 mai, 2025 - 12:50 • Hugo Tavares da Silva
Estreou-se com 15 anos, com 17 leva mais de 100 jogos pelo Barça e dois títulos nacionais no bolso. Admira Neymar, é canhoto e faria suspirar Johan Cruijff por uma determinada manobra sublime e silenciosa.
Talvez seja o melhor futebolista do mundo. Pronto, está escrito. Há demasiadas coisas que não batem certo na história de Lamine Yamal. Estreou-se na equipa principal do Barcelona com apenas 15 anos. Com 17 (e 291 dias), na semifinal desta edição da Champions, alcançou os 100 jogos pelos 'culés'. Nem falemos do tal banho que lhe deu Lionel Messi…
Na quinta-feira à noite, no estádio do Espanyol, o rival da cidade, Lamine meteu um daqueles golos que serviram de pancada no bombo para inaugurar a festa. O golo é tão fabuloso, tão fabuloso, que estaria no museu sentimental de qualquer miúdo para sempre. Todos sonham fazer um golo assim. Ele dá ares de que o pode fazer todos os dias.
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Quando o árbitro apitou para o final da partida no Cornellà-El Prat, já com o dois-zero no marcador, o adolescente que opera rotas serpenteantes, sábio sábio sabe-se lá como surgiu sana sapiência imensa, já estava colado à linha lateral, provavelmente para escapar a desvarios populares. Prrri. Aperto de mão a Hansi Flick, o sucessor de Xavi, o homem que o lançou, e andamento para o balneário.
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Contas feitas, o adolescente que cumpre 18 anos no dia 13 de julho… esperem, esperem, ele nasceu em 2007. Coisas que não viu: Cristiano no United, as Champions do Barça de Pep e o futebol imenso e impossível de Leo Messi em Camp Nou, pelo menos uma parte gloriosa. Aii, Zidane ou Ronaldo 'Fenómeno', pobrezito miúdo. Também não viu a era dourada da ‘La Roja’, com triunfos em Euro 2008, Mundial 2010 e Euro 2012 com o melhor futebol do planeta. Xavi, Iniesta, Busquets, lembras-te? Não. Tremendo. Talvez por isso esteja investido em fazer tudo com uma leveza que roça a arrogância.
Voltemos ao assunto que foi iniciado. Contas feitas, antes de chegar à idade adulta, Yamal, nascido em Esplugues de Llobregat em 2007 sem intervenção de Messi, conquistou a La Liga em 2023 e 2025, o Euro 2024 com protagonismo do garoto, mais a Copa do Rey e a Supercopa neste 2025. Escapou a final da Champions, os catalães caíram contra o bom Inter de Simone Inzaghi. Perante o desespero, as bolas caíram-lhe nos pés minuto sim, minuto não, imploraram-lhe que fosse messias ‘a menudo’...
Este rapazinho aparece sempre. Os atrevidos dizem que não marca golos. Ó, perdoai-lhes. Os últimos quatro golos de Lamine Yamal no campeonato foram contra Real Madrid, Atlético Madrid, Real Madrid e Espanyol. Esconder a cara na hora da verdade não é com ele.
Segundo o MisterChip, o mago da estatística no antigo Twitter, Lamine Yamal é o rei dos golos no futebol espanhol antes dos 18 anos: marcou 13, à frente de Ansu Fati (11), um tal de Pombo do Racing Santander (11) e, finalmente, Bojan (10) e Iraragorri (10), de Barça e Athletic, respetivamente.
Ainda de acordo com esta mesma fonte de estatística e dados, apenas dez futebolistas conquistaram a liga antes de atingir a 18.ª volta ao sol. A diferença é que Lamine Yamal já o fez duas vezes. Não é pouca coisa para o rapaz que também já tem as estatuetas de Golden Boy (2023, 2024) e melhor futebolista jovem do Campeonato da Europa de 2024. E do Troféu Kopa, entregue aos magos dos magos sub-21, e ainda do Prémio Laureus, sendo eleito o desportista revelação. Também acumula dancinhas e vídeos no TikTok, obedecendo aos encolheres de ombros da juventude.
Os números dizem coisas, mas não dizem quase nada sobre Lamine Yamal. É o toque de bola que escandaliza. O deslizar em campo, imitando o vento manso que assobia sem sobressaltos, a forma como tira adversários do caminho, assustados, talvez pareçam árvores, talvez se assemelhem a edifícios velhos e arruinados. A súbita trivela, que banaliza como banalizavam Beckenbauer e outros senhores jogadores de tempos idos, é um daqueles números que interessa. O pé direito anda ali para testemunhar tudo, embevecido, às vezes para sacar um cruzamento menos calibrado.
Mas Lamine tem outra ferramenta que teria enlouquecido da maneira mais bela Johan Cruijff: acelerar e travar. Isso desanca os rins alheios, atrofia a locomoção, a alma até. Cruijff fazia isso tão bem. Vejam o primeiro minuto da final do Mundial de 1974, disponível no YouTube, e testemunhem o que ele fez depois de ficar como jogador mais atrasado até arrancar um penálti a Uli Hoeness, ainda antes de a Alemanha ter tocado na bola.
Lamine é como a água, mete-se em todo o lado como bem entender. É um futebol fino, que é filho da beleza e do aparente descaso. Que encaixe na lógica posicional do Barça sem se tornar previsível é uma obra imensa. Foi detectado por Isidro Gil, olheiro do Barcelona, com apenas sete anos. No relatório, contou Ramon Besa no “El País”, havia palavras como “desfrutar”, “passador” e “altruísta”, na verdade foi “não egoísta”. Era um driblador. Ainda é, fiel operário de tal manobra rara em alguns relvados.
Ramon Besa, o jornalista que é uma autoridade no que toca a assuntos de Barcelona, chama a esta canalha toda junta “a geração Lamine” e isso é algo grandioso. “É o melhor jogador do mundo, para ser honesto”, reconheceu, depois de bufar, Cole Palmer, craque do Chelsea, numa entrevista à Sky News nas últimas horas.
“A Liga de Mbappé é para Lamine”, escreveu Ricardo F. Colmenero no “El Mundo”. Atentem ao que escreve este senhor: “O Barça ganhou a Liga com o golo de Messi, mas nas botas de Lamine”:
O ídolo de Lamine Yamal é Neymar e isso explica muita coisa que lhe salta da gaveta da criatividade. O arrojo também. O adolescente chegou a dizer que o impressionava ver miúdos de 13 anos com a sua camisola, pois só tem mais quatro anos do que eles. Assombroso.
Com raízes marroquinas, Lamine Yamal será certamente uma das figuras do Mundial 2030, organizado por Marrocos, Espanha e Portugal. Nessa altura, terá apenas 22 anos. No Euro 2040, o canhoto terá 26 anos. No Mundial 2046 (engolir em seco…), o jovem fabuloso terá 38 anos, ou seja, a idade que Messi terá quando arrancar o Campeonato do Mundo do próximo ano.
Depois disto tudo, resta-nos uma missão, enquanto povo e filhos da infância: desfrutemos da arte do artista.
- Bola Branca 18h15
- 19 mai, 2026










