Entrevista Bola Branca
Paulo Bento: "Fui para o Oviedo por causa do Juanma Lillo, mudou a minha forma de entender as coisas"
25 jun, 2025 - 13:15 • Hugo Tavares da Silva
Vinte e quatro anos depois, o Oviedo está de volta à La Liga, depois de passar pelas agruras da quarta divisão. Paulo Bento jogou no clube durante quatro temporadas, foi capitão e por lá nasceu uma filha.
Depois de subir a escadaria do Jamor, Paulo Bento mudou-se para o Oviedo, em 1996. Graças sobretudo a Juanma Lillo, a “musa” de Pep Guardiola como um dia lhe chamou a mítica revista argentina “El Gráfico”. O agora ex-adjunto do Manchester City marcou a carreira do futebolista português.
“Foi alguém com quem aprendi muito em termos futebolísticos, no entendimento do jogo”, confessa Paulo Bento, em entrevista a Bola Branca, sobre um muitíssimo jovem Lillo. “Mudou um bocadinho a minha forma de entender as coisas, porque era um treinador que te obrigava a entender certos e determinados conceitos, e que estava realmente num patamar elevado.”
O centrocampista jogou no clube das Astúrias durante quatro temporadas, onde também foi treinado por Aragonés e Tabárez, e somou capítulos que o marcaram, assim como camisolas que mantém no roupeiro e na parede.
Em entrevista à Renascença, agora que o seu Oviedo regressou à La Liga 24 anos depois, o ex-selecionador nacional lembra aqueles tempos felizes numa cidade onde foi capitão e a filha mais nova nasceu.
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O Paulo ainda vai a Oviedo? Como é que são esses regressos?
Não, por acaso agora não tenho ido. Já não vou há uns anos. Eu creio que a última vez que estive em Oviedo foi em 2011. Tenho mantido contato com algumas pessoas, mas não tenho ido. Houve uma fase que fui, desde que deixei de jogar em 2004. Mas, desde que saí de lá, de 2000 até 2011, fui praticamente todos os anos. Depois de 2011, por várias questões mais até da vida pessoal e profissional, acabei por não ir.
E era recebido como um herói, ou não? Sei que era adorado pelos adeptos…
Era recebido como sempre, como sempre fui durante o tempo em que estive lá. Posteriormente, quando visitava, para estar com amigos e com gente conhecida, o trato era sempre como foi. Foi um trato sempre espetacular, sempre dentro do respeito, do carinho, das amizades que fomos construindo. Isso não mudou nada, independentemente de ter mudado o destino em termos profissionais.
E esta subida, mexeu consigo ou não? Acompanhou ou foi acompanhando?
Fui acompanhando ao longo do tempo. Não só neste momento agora, que é um momento que eu acho que todos ansiávamos, aqueles que gostam e que sentem um carinho tremendo pelo clube, pela cidade e em especial pelas pessoas, como é evidente. Todos nós esperávamos por este momento. Creio que era algo que se desejava, que demorou realmente muitos anos.
E desceram ao inferno da 4.ª Divisão…
Há ali uma descida desportiva e uma descida administrativa. E um conjunto de problemas, de passarem por escalões muito baixos, em que se torna muito difícil vir cá para cima outra vez, com problemas que foram públicos, com grandes problemas financeiros. Acho que houve, obviamente, muita gente que ajudou, mesmo agora, os últimos investidores.
Hmm, hmm.
Não só os que estão agora, mas como quem esteve antes. Com todo o respeito por todas as outras pessoas que investiram o seu dinheiro e que tentaram trazer o clube outra vez para o mais alto patamar do futebol espanhol, creio que há aqui um agradecimento e uma homenagem que tem que ser feita aos sócios e aos simpatizantes do Oviedo, às pessoas da cidade no geral, por não terem deixado cair o clube num momento mais difícil. Mesmo quando até se tentou substituir ali o Real Oviedo por outro clube, não apoiando o clube num momento difícil.
Pois, eu ouvi isso hoje numa rádio espanhola. A autarquia queria deixar cair o clube, não é?
Certo, certo. Houve um momento em que isso fez parte do pensamento de algumas forças políticas, como é evidente, e que foi naturalmente desagradável, difícil de compreender, mas aí se viu realmente aquilo que é a determinação, a resiliência e a vontade das pessoas de Oviedo, que conseguiram apoiar o clube e ajudá-lo num dos momentos mais conturbados da sua história. Continuarem a fazer o seu caminho foi difícil. Deu-se agora isto pelo trabalho de todos aqueles que estiveram envolvidos, e, volto a referir, com o suporte da sua massa adepta e da cidade, como se pôde comprovar, não só pela festa mas pelo apoio que foi dado ao longo de todo este trajeto.
Deixe-me só puxar atrás, Paulo, para aproveitar a sua memória. Como é que chegou ao Oviedo? Não era assim um destino muito provável. É certo que o Benfica estava numa fase descendente, mas tinham acabado de ganhar a Taça contra o Sporting. Certamente teve outros convites…
Fui por causa do treinador que lá estava, o Juan Manuel Lillo, que foi quem me quis levar para Oviedo. Naturalmente, estou grato a ele por me ter dado essa oportunidade, e ao clube que me fez mudar um bocadinho aquilo que era a minha carreira. Foi uma experiência inesquecível em termos profissionais, porque as coisas correram, eu diria, dentro daquilo que era perspetivável.
Certo.
Manteve-se o clube na primeira divisão, creio que algo mais teria sido bonito, mas não foi possível. A experiência foi, enquanto jogador, uma das mais marcantes. Foi a primeira e única experiência em campeonatos internacionais, mas depois também por aquilo que me marcou em termos pessoais e em termos familiares: a minha filha mais nova nasceu em Oviedo.
Ahhh…
Por isso, também, não só por isso como é óbvio, mas por isso também, juntando todos estes fatores, faz com que tenha sido uma experiência extremamente importante. Muito, muito bonita. À parte daquilo que se ganhou desportivamente, houve aquilo que se ganhou em termos humanos. Estou agradecido eternamente ao clube, à cidade e às pessoas por aqueles quatro anos. Depois, durante muitos e muitos anos em que lá fui, o respeito manteve-se de parte a parte, seguramente, não há dúvidas nenhumas em relação a isso.
O Paulo falou no Juanma Lillo e eu estive a ler uma entrevista dele dos tempos do Euro 2012, portanto a falar na altura sobre o selecionador português. Ele disse que o Paulo tinha aquela coisa que eles chamam de “jerarquia” e autoridade, que se intuía um futuro treinador, que via muito bem o jogo e que era muito disciplinado. Hoje em dia, Lillo é a musa do Guardiola, como chamam, mas já era um treinador assim mais para a frente, não é? Ainda mantêm contacto, como é que essa relação ficou?
Mantenho contacto com ele. Obviamente, as nossas vidas profissionais e pessoais, muitas vezes, não nos permitem um contacto mais próximo, mas sim mantemos algum contacto. Já tive a oportunidade de dizer, é uma pessoa que me marcou de uma forma determinante em termos desportivos, mas também em termos humanos. Foi alguém com quem aprendi muito em termos futebolísticos, em termos de entendimento do jogo. Mudou um bocadinho a minha forma de entender as coisas, porque era um treinador que te obrigava a entender certos e determinados conceitos, e que estava realmente num patamar elevado, independentemente daquilo que muitas vezes foi a fama dele por não ter alcançado alguns resultados…
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Claro.
Porque se olhava, e continua-se a olhar, só para os resultados. Eu tive a oportunidade de olhar para outras coisas, de saber aproveitar, deu-me realmente muitas coisas importantes enquanto jogador, e que depois também me ajudaram na profissão que abracei [de treinador].
O Paulo estreou-se com o Barça.
Sim, perdemos 4-2 no primeiro jogo em casa.
Mas há aqui um 4-1 ao Atlético de Madrid, em que o Paulo é expulso. O que é que aconteceu aqui?
É uma grande vitória.
O Paulo não era assim tanto de ir para a rua.
Mais ou menos, mais ou menos. Fui mais do que as que devia, por responsabilidade própria também, como é evidente. Mas pronto… É um jogo marcante, sim. É um daqueles jogos que marcam. Creio que o Atlético de Madrid tinha sido campeão na temporada anterior, em 95/96.
E o Paunovic [atual treinador do Oviedo] jogou pelo Atlético.
Não me recordo, não me recordo. É um daqueles jogos que marcam, naturalmente. Ganhar 4-1 ao Atlético de Madrid, era uma equipa com jogadores de qualidade. Foi acima de tudo pela ideia que o Juanma tinha, de jogar, ou tentar jogar, de uma maneira que mostrasse essa identidade, independentemente do adversário.
Por isso também tanto se podia ganhar como se ganhou esse jogo, como se poderia perder como se perdeu aquele com o Barcelona na primeira jornada, como se perdeu depois com o Real Madrid, naquela altura de Fabio Capello. Mas era uma equipa que tinha uma ideia clara daquilo que queria fazer. Isso devia-se essencialmente à maneira como ele nos orientava, como nos encaminhava e nos obrigava a pensar no jogo de uma maneira diferente, quer no aspecto ofensivo, quer no aspecto defensivo.
Acho que o Paulo tem quatro golos, com Athletic, Extremadura, Sevilha e Atlético Madrid de Hugo Leal. Houve algum especial?
Não era realmente de fazer muitos golos. Eu creio que eles não são todos na mesma época.
São dois na primeira e dois na última.
Certo. O golo na Extremadura, que eu creio que é o primeiro golo, é na segunda jornada, acho que é depois do jogo com o Barcelona. Não tenho bem a certeza, isto já lá vão muitos anos.
Pois.
Mas, pronto, eu não era um jogador de fazer muitos golos. As funções eram outras, mas creio que, naturalmente, o golo contra o Atlético Madrid é um golo que pode ser mais marcante. Acho que é de penálti. Creio que é o último golo no Carlos Tartieri, no antigo Carlos Tartieri, e que tem esse significado.
Falámos em Lillo, mas ainda teve Óscar Tabárez e Luis Aragonés. O Oviedo estava carregado de bons treinadores. E sei que gosta do espanhol…
Fernando Vázquez. Marcou-me muito também. Já tive a oportunidade de dizer que o João Alves, o Lillo e o Fernando foram os treinadores que mais me marcaram, obviamente por motivos futebolísticos, mas também pelas relações que fomos construindo. O Fernando marcou-me também pela sua simplicidade, pela forma simples como via o jogo. É alguém com quem mantenho algum contacto e de quem gosto muito, tenho um tremendo respeito por ele, à parte da amizade.
Certo.
Os outros dois nomes, diria, tinham maior mediatismo, se quisermos dizer assim. Tabárez vem de Milão para Oviedo. Obviamente que isso é algo importante para um clube como o Oviedo. Foi uma época difícil, acabámos por nos salvar na liguilha, nos jogos do play-off.
…
Depois, com o Luis, que infelizmente já não está entre nós, foi uma época também difícil em que nos salvámos na penúltima jornada. Era um treinador com um carácter forte, com um currículo em Espanha tremendo. Havia um respeito muito grande por parte de toda a gente em Espanha. A experiência foi gratificante. Foi importante porque, nós enquanto jogadores, queríamos aprender e retirar o melhor de cada um.
O Paulo foi capitão, certo?
É mais um dado. Eu creio que nós podemos, independente de sermos capitães, ter a nossa influência que vem de outros fatores. Fatores humanos. Obviamente que fatores desportivos são importantes, mas aquilo que é o nosso caráter, a nossa personalidade, os nossos princípios, o nosso comportamento e depois o nosso profissionalismo… há que o ter, há que o demonstrar, independentemente de sermos capitães ou não. Foi um prazer enorme e um orgulho enorme porque estávamos perante uma experiência diferente, um jogador estrangeiro ser capitão. Tinha havido um capitão durante muitos anos que era um excelente jogador e um excelente profissional, o Berto.
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Hmm, hmm.
Encheu-me, naturalmente, de orgulho. Foi uma situação simples pelo grupo que se tinha, por aquilo que demonstrávamos enquanto grupo. A satisfação, a alegria, o orgulho de ter representado o Oviedo, de ter vivido em Oviedo durante quatro anos seria igual, independentemente de ter sido capitão ou se não. Sigo o clube sempre, desejo-lhe o melhor, esse sentimento manteve-se. É um clube, uma cidade, um conjunto de pessoas que me marcaram para a vida.
Eu perguntei isso da braçadeira porque estava ali a ler umas coisas de 1999 e parece que a direção omitiu que não ia renovar o contrato para os adeptos não ficarem nervosos e chateados.
Não se chegou a acordo e a partir de janeiro de 2000 estava decidido que não ficaria lá. Mais para o final da temporada, acabou por se anunciar, até porque a equipa tinha objetivos para alcançar. Depois desse jogo com o Atlético de Madrid, em casa, na penúltima jornada, creio que fomos a Vallecas e aí sim garantimos a permanência na primeira divisão.
E tem camisolas do Oviedo no roupeiro, ou não?
Tenho sim, claro que tenho.
Muitas?
Tenho algumas, não sei, não muitas porque muitas delas trocávamos. Tenho algumas expostas, são camisolas marcantes, porque o Oviedo não deixa de ser, por os motivos todos que já referenciei, um clube extremamente marcantes na minha carreira e vida.
Deixe-me aproveitar que estamos aqui: o que se segue na sua carreira, Paulo?
Neste momento estou numa fase de descanso, logo veremos o que é que aparece, depois logo decidiremos.
- Bola Branca 18h15
- 08 mai, 2026












