Futebol Feminino
Seleção afegã (de refugiadas) voltou a jogar futebol quatro anos depois da proibição dos talibãs
30 out, 2025 - 15:00 • Redação
FIFA deu luz verde à criação de uma equipa de refugiadas e organizou um torneio para o regresso ao relvado. Como Emirados Árabes Unidos barraram a entrada das jogadoras, a competição foi transferida para Marrocos.
Há sensivelmente quatro anos, muitas mulheres afegãs viram-se forçadas a abandonar o país devido à tomada do poder por parte dos talibãs. As jogadoras que representavam a seleção não escaparam à fuga, nem ao medo da perseguição por parte dos invasores.
O futebol – na verdade, o desporto praticado por raparigas e mulheres – foi proibido em 2021, quando os talibãs recuperaram o poder, após a saída caótica do exército norte-americano. Agora, o mundo e o regime que as reprime testemunharam à revanche.
Espalhadas pelos quatro cantos do mundo – Austrália, Europa e Estados Unidos da América –, as jogadoras juntaram-se agora para o regresso ao relvado. Aconteceu no Women’s Series 2025, um torneio organizado pela FIFA em Marrocos. Esta competição não oficial ia acontecer nos Emirados Árabes Unidos, mas aquele país não permitiu que as jogadoras afegãs entrassem no país.
O regresso ao campo de futebol foi batizado por Líbia, Tunísia e Chade, que goleou as afegãs por 6-1. Entretanto, as afegãs defrontaram a Tunísia e voltam a jogar, com as líbias, no sábado.
O nome de Portugal também surge em alguns dos passaportes destas mulheres. Aziza Zada e Maryam Karimyar, por exemplo, jogam no nosso país e foram convocadas para representar as ‘Mulheres Afegãs Unidas’, o nome do “país” de refugiadas pelo qual jogam agora. A equipa recebeu a luz verde da FIFA para competir em maio.
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O resultado foi o menos importante, depois de quatro anos sem competir – o último encontro foi contra o Qatar, em 2021. O que realmente as motivou foi “vermo-nos, abraçarmo-nos e finalmente partilhar o campo e jogar juntas”, disse a capitã Fátima Haidari à agência Associated Press.
E disse muito mais: “É uma mensagem clara para o mundo: se as mulheres querem fazer algo na vida, não só uma carreira desportiva, devem ser iguais aos homens na sociedade, especialmente no âmbito desportivo e em países como o Afeganistão”.
Para trás, deixam abusos, violações, medos e a falta de liberdade. Para a frente, não escapa a alegria por se sentirem “livres como meninas, como mulheres, para terem uma vida normal, para jogar e sonhar”, acrescentou a capitã.
Apesar de ainda não poderem representar o Afeganistão nas eliminatórias para o Campeonato do Mundo ou até nos campeonatos asiáticos, estas senhoras estão a lutar pelas meninas do futuro. Podem não ser elas a conseguir entrar de forma oficial no patamar internacional oficial da modalidade, mas já estão a adiantar trabalho para quem vem a seguir.
"Foi a coisa mais bonita que nos aconteceu"
Quem está a lutar contra a maré constantemente desde que saiu do país, rumo à Dinamarca, é Khalida Popal, ex-jogadora e cofundadora da organização “Girl Power”.
Popal era a única rapariga entre cinco irmãos e jogar à bola fê-la sentir-se livre pela primeira vez. Com o avançar dos anos, apostou numa luta pelos seus direitos. Tornou-se ativista em causa própria, por ela e por outras como ela.
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Quando deu os primeiros passos no mundo do futebol, ouviu a frase típica “o futebol não é para meninas”. E foi aí que decidiu resistir. Com apenas 15 anos, juntou um grupo de meninas e convenceu as pessoas à sua volta a abrirem uma escola. Noutros pontos do país convenceu mais mulheres a fazerem o que ela estava a fazer.
Esta luta recebeu o respaldo de uma aliada especial: a sua mãe, uma professora de educação física. Começaram então os torneios escolares, que tiveram sucesso e permitiram reunir as condições necessárias para a criação da primeira liga de futebol feminina.
Passado alguns anos, em 2007, a federação reconheceu a seleção nacional, a equipa que Popal fundou e capitaneou.
Em declarações ao “The Guardian”, não escondeu a emoção de ouvir o hino pela primeira vez: “Quando o hino nacional tocou, foi a coisa mais bonita que nos aconteceu”.
E acrescentou: “Representar o nosso país, quando nos diziam que o nosso lugar era na cozinha, foi uma grande conquista. Nunca joguei num Campeonato do Mundo, mas, para mim, aquele momento foi como ganhar um”, recordou.
Nunca pensou em liderar uma organização, muito menos escrever um livro sobre o seu percurso, mas acabou mesmo por acontecer. “My Beautiful Sisters”, nome da sua obra, pretende passar uma mensagem não só às mulheres afegãs, como às de todo o mundo de que “se desistirem agora, não vão trazer mudanças para a geração futura”.
Khalida Popal acreditou no seu instinto e não deixou que “lhe prendessem as pernas”. O título de uma entrevista que deu ao “Público” é elucidativo: “Em que livro está escrito que o meu lugar não é no futebol?”.
- Bola Branca 18h14
- 21 jul, 2026








