Futebol Internacional
A história da “granada” de Salah e o "mantra vivo e pulsante” que lhe pode complicar a vida
09 dez, 2025 - 11:40 • Hugo Tavares da Silva
Depois de três idas para o banco do Liverpool, Salah verbalizou as angustias e as promessas que o clube não cumpriu. Carragher diz que a ideia era fazer despedir Arne Slot. Alisson, Owen e Collymore também reagiram.
Quando Mohamed Salah renovou até 2027 com o Liverpool, em abril, eram tudo rosas. Mais um título nacional no bolso, a sublime influência habitual do egípcio e a certeza de que Arne Slot não se atrapalhou ao calçar os sapatos de Jürgen Klopp.
Esta temporada tudo mudou. À entrada para o jogo com o Leeds United, o Liverpool contava com sete vitórias e seis derrotas em 14 jornadas. Uma catástrofe para um clube desta magnitude. E Salah, pela terceira vez, foi para o banco de suplentes, depois de ter acontecido com Sunderland e West Ham.
Os campeões nacionais não foram além de um empate a três bolas e Salah, que não entrou no relvado, decidiu dar pérolas explosivas aos repórteres que ali estavam na ressaca do jogo.
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“Não consigo acreditar que fiquei no banco 90 minutos. A terceira vez no banco, penso que é a primeira vez na minha carreira. Estou muito, muito desiludido, para ser honesto. Fiz tanto por este clube durante anos e especialmente na última época. Agora estou sentado no banco e não sei porquê.”
O queixume do futebolista africano de 33 anos, um dos grandes nomes da história da Premier League, continuou: “Parece que o clube me mandou para debaixo de um autocarro. É isso que estou a sentir. Acho que é muito claro que alguém me quer culpar. O clube fez-me muitas promessas no verão e estou no banco há três jogos, por isso não posso dizer que cumprem promessas”.
E mais: “Eu disse muitas vezes anteriormente que tinha uma boa relação com o treinador e, de repente, não temos qualquer relação. Não sei porquê, mas parece-me que alguém não me quer no clube. (...) Não penso que seja eu o problema. Não luto pelo meu lugar todos os dias porque ganhei direito a ele. Não sou maior do que o clube. Não sou maior do que nada. Mas ganhei [o lugar]..."
Arne Slot, o treinador, revelou estar surpreendido. “Quando não meto alguém a jogar, normalmente os jogadores não gostam muito do treinador, mas ele foi realmente respeitador com o staff e com o treinador, com os seus colegas e treinou muito arduamente, por isso foi uma surpresa para mim quando ouvi os comentários dele”, começou por dizer.
E continuou: “Mas não é a primeira vez nem será a última que um jogador que não joga diz algo semelhante. Mas a minha reação é clara e é por isso que ele não está cá esta noite”. Slot referia-se à não convocação do egípcio para o jogo com o Inter, a contar para a Liga dos Campeões.
“Normalmente sou calmo, bem-educado, mas isso não significa que seja fraco, por isso se um jogador faz estes comentários sobre tantas coisas então é responsabilidade minha e do clube reagir. Nós reagimos de uma forma que podem ver: ele não está aqui”.
Alisson, o guarda-redes do Liverpool e companheiro de Salah há quase 10 anos, reagiu à polémica. “Não é uma situação fácil, mas como grupo levamos da melhor maneira que conseguimos. Temos uma relação pessoal com ele, eu jogo com o Mo desde que cheguei à Europa, um ano na Roma, oito no Liverpool.”
O futebolista brasileiro garantiu que Salah “é um grande tipo”, com um “grande caráter” e “uma lenda do Liverpool”. Este episódio não deixa Alisson feliz, “mas no futebol não há tempo para ficar a queixar das situações”.
“Estar ausente [com o Inter] é só uma consequência do que ele fez e ele é esperto o suficiente para saber isso”, continuou o guarda-redes. "Não falei com o Mo sobre isso. Temos uma boa relação. Ele não é só um companheiro de equipa, passamos muito tempo juntos. Somos bons amigos. Partilhámos bons momentos, momentos felizes, isso cria uma relação. Teremos uma conversa mas é pessoal.”
Um histórico jogador do Liverpool e atualmente uma estrela da televisão, Jamie Carragher, tentou adivinhar o plano de Salah. “Ele escolheu este fim de semana para fazer isto, e penso que ele esperou por um resultado mau do Liverpool. Os adeptos, o treinador, todos no clube sentem-se no fundo do poço, e ele escolheu este momento para ir atrás do treinador e talvez conseguir que ele seja despedido.”
O antigo defesa do Liverpool deixou ainda um recado para o futebolista. “Lembraria o Salah e o seu agente que antes de ele vir para o Liverpool ele era conhecido como o homem que falhou no Chelsea. Nunca tinha ganho um troféu importante antes de chegar ao Liverpool”
Também Michael Owen, uma coqueluche dos reds e que chegou a ganhar uma Bola de Ouro, comentou o caso: “Salah, imagino como te sentes. Carregaste esta equipa às costas durante muito tempo e ganhaste tudo o que havia para ganhar. Mas este é um desporto de equipa e, simplesmente, não podes dizer publicamente o que se disseste. Vais para o CAN daqui a uma semana. Certamente vais morder o lábio, desfrutar a representar o teu país e ver como estão as coisas quando regressares, não é?”.
Stan Collymore esteve apenas dois anos no Liverpool, entre 1995 e 1997, mas deixou uma desabafo nas redes sociais sobre o tema. “Penso que conheço um pouco o Liverpool, os seus adeptos e como veem o clube, moldado por Shankly, depois Paisley, Kenny, Jürgen e agora Slot. Uma coisa mantém-se constante, talvez mais do que em qualquer outro clube inglês: o clube vem sempre em primeiro e último lugar.”
O antigo avançado, numa longa declaração, continuou: “É interessante ver a entrevista dele, largou uma granada no clube, mas se conheço o Liverpool e os seus adeptos a primeira reação deles vai ser ‘o clube em primeiro e último lugar', não importa quem é. É um mantra vivo e pulsante e até Mo Salah teria dificuldade em combatê-lo.”
Ainda assim, Collymore reconhece que há diferenças geracionais na reação ao tema: os mais novos apoiam a granada, os mais velhos abanam a cabeça negativamente. E deixou ideias para a resolução do problema: jogador e treinador falam em privado; o treinador diz ao jogador o que ele quer do jogador; o jogador compromete-se ou diz ao treinador que quer sair; se o jogador quer sair, que aconteça rapidamente.
Para já, reina a incerteza. Slot não soube responder se Salah voltará a jogar pelo Liverpool. A confiança e a relação estão quebradas. Os resultados, como sempre, poderão vir a ditar os heróis e os vilões da história.
- Bola Branca 18h15
- 08 mai, 2026










