05 jan, 2026 - 14:10 • Redação
Durante quase três décadas, Alex Ferguson foi o eixo central do Manchester United. Ganhou títulos, moldou gerações e construiu uma cultura vencedora rara no futebol moderno. A sua saída abriu um vazio que o clube ainda não conseguiu preencher e expôs fragilidades estruturais que permaneciam escondidas pelo sucesso.
Alex Ferguson chegou a Old Trafford em 1986 e precisou de tempo para vencer. Teve margem para errar, para construir e para impor a sua visão. Quando começou a ganhar, nunca mais parou.
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Sob o seu comando, o Manchester United tornou-se dominante em Inglaterra e competitivo na Europa, mas, acima de tudo, previsível naquilo que oferecia: intensidade, exigência, confiança e uma identidade clara. Jogasse quem jogasse, o United de Ferguson sabia ao que ia.
Quando anunciou a reforma, em 2013, deixou o clube campeão inglês. Saiu no topo e deixou um padrão praticamente impossível de replicar.
A escolha de David Moyes para lhe suceder foi o primeiro sinal de que o clube não estava preparado para o pós-Ferguson. Desde então, o Manchester United acumulou treinadores com perfis, ideias e métodos distintos: Van Gaal, Mourinho, Solskjær, Rangnick, Ten Hag, tirando os interinos como Ruud van Nistelrooy, Ryan Giggs e Michael Carrick.
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Os arquivos mostram uma rotatividade constante no comando técnico, reflexo de uma estratégia reativa, mais centrada em resultados imediatos do que num projeto sustentado.
José Mourinho lidera a lista de aproveitamento, segundo o Squawka, com 58,33% de vitórias em 144 jogos durante os 1.006 dias em que esteve no clube. Erik Ten Hag segue com 54,69% de vitórias em 148 jogos, ao longo de 773 dias, e Ole Gunnar Solskjær surge em terceiro, com 54,17% em 144 jogos e 1.005 dias à frente da equipa, mostrando que mesmo treinadores com resultados relativamente positivos não conseguiram devolver ao clube a estabilidade da era Ferguson, que se prolongou por 9733 dias.
Louis van Gaal, David Moyes e Ruben Amorim completam a lista, com 52,43% (122 jogos, 1.021 dias), 52,94% (102 jogos, 365 dias) e 36,92% (65 jogos, 163 dias) de vitórias, respetivamente. Estes números confirmam a instabilidade crónica do United: resultados irregulares, mudanças constantes de treinador e períodos curtos de trabalho tornam impossível a construção de uma identidade sólida e consistente, revelando que o problema vai muito além de qualquer treinador individual.
Nenhum treinador teve tempo suficiente para construir, nem apoio consistente para impor uma visão. Cada mudança significou um recomeço e um plantel cada vez mais desequilibrado.
O Manchester United transformou o banco num espaço de desgaste rápido. Mesmo treinadores experientes e vencedores não resistiram à pressão de um clube que vive em permanente comparação com o passado.
Houve títulos pontuais, como a Liga Europa com Mourinho, mas nunca estabilidade. Nunca foi uma equipa verdadeiramente dominante. O problema deixou de ser apenas técnico e passou a ser institucional.
O recente despedimento de Ruben Amorim reforça essa lógica de curto prazo que se instalou em Old Trafford. Contratado com a expectativa de trazer uma identidade clara e um modelo consolidado, o treinador português acabou por não resistir à pressão dos resultados imediatos e a um contexto estrutural pouco favorável.
A sua saída precoce confirma que, no Manchester United atual, o problema raramente se esgota no treinador: projetos interrompem-se antes de ganharem forma e a instabilidade sobrepõe-se à construção.
O legado de Alex Ferguson permanece como referência histórica, mas também como espelho incómodo do presente. O Manchester United continua poderoso fora das quatro linhas, mas fragilizado dentro delas.