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Benfica-Real Madrid

"É um erro o Benfica usar Eusébio como escudo", defende diretor do Observatório da Discriminação Racial do Brasil

20 fev, 2026 - 15:50 • Inês Braga Sampaio

Marcelo Carvalho aprova cartão para quem tape a boca em casos como o de Prestianni e Vinícius e critica quem utiliza os festejos do jogador para refutar a denúncia de alegado racismo.

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Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol do Brasil, sugere a utilização do videoárbitro (VAR) para avaliar casos de possível racismo, como o do alegado insulto de Gianluca Prestianni a Vinícius Júnior, no Benfica-Real Madrid, e critica quem puxa para o tema o caráter do jogador brasileiro ou usa Eusébio "como escudo".

O inglês Joe Cole, antigo jogador de Chelsea, West Ham e Liverpool, entre outros, sugeriu, num espaço de comentário na televisão norte-americana TNT Sports, que se mostre cartão amarelo ou vermelho a jogadores quem tapem a boca para falar, em incidentes como o do Benfica-Real Madrid. Em entrevista a Bola Branca, Marcelo Carvalho aprova a ideia.

"É uma boa alternativa, porque neste caso a gente percebe que ele tapou a boca para fazer um xingamento. Se o xingamento foi um insulto racista, se foi um insulto homofóbico, a gente não sabe, mas a gente tem a certeza que foi para fazer um xingamento ao Vinícius Junior. Então, eu acho que essa ideia do Joe Cole é muito importante, muito válida. Mas tem um outro ponto aqui que é muito importante a gente salientar, que é o uso do VAR quando acontece um caso de racismo", assinala.

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Vinícius queixou-se de que Prestianni lhe teria chamado "mono", a palavra espanhola para "macaco". O árbitro ativou, então, o protocolo antirracismo da FIFA, cruzando os braços e parando o jogo, durante oito minutos. Marcelo Carvalho defende, contudo, que François Letexier "devia ter ido até ao VAR para entender o que aconteceu".

"Se há todo esse equipamento voltado para o campo... O árbitro não viu o momento que o Prestianni tapa a boca. Ele paralisou o jogo para dizer o que estava acontecendo, mas não fez nenhuma medida contra o jogador do Benfica. Não questionou o jogador do Benfica para saber o que aconteceu, e aqui eu acho que o VAR tem de ser inserido nesse protocolo. O árbitro, quando acontecem casos de racismo dentro de campo, tem de ir até o VAR para tentar entender o que aconteceu", sustenta.

Marcelo conta que, no Brasil, o caso foi recebido "com muita indignação".

"Aqui no Brasil, diversas instituições estão mostrando solidariedade e apoio ao Vinícius Jr. (...) A mudança aqui no Brasil que dá para salientar é o apoio que o Vinícius Jr está tendo das diversas organizações, dos diversos clubes, todo mundo apoiando o Vinícius. É muito importante e é algo bem recente que a gente está vendo no futebol", refere.

"O Vinícius não pode dançar?"

O caso entre Vinícius e Prestianni, que se resume, neste momento, à palavra de um contra a do outro, ficou também marcado pela forma como José Mourinho e o Benfica reagiram, em defesa do seu jogador.

Logo na conferência de imprensa, o treinador condenou o festejo do brasileiro após marcar o golo da vitória do Real Madrid (1-0), com uma dança na bandeirola de canto, virado para os adeptos do Benfica.

"O que eu perguntei ao Vinícius foi: 'Tu marcas um golo do outro mundo, por que é que celebras assim?'", disse Mourinho aos jornalistas.

Marcelo Carvalho critica quem chama à conversa o comportamento de Vinícius: "É uma coisa que as pessoas precisam de entender. A gente está falando de racismo, de violência. Quando as pessoas dizem que o Vinícius deveria fazer isso ou aquilo, estão esquecendo da violência que o Vinícius Junior sofreu. A mesma coisa que o Mourinho disse que não deveria ter dançado na frente da torcida. Gente, isso é uma comemoração, isso todo o mundo faz no futebol. Então, por que essa observação está direcionada apenas ao Vinícius Júnior? O Vinícius Júnior não pode dançar? As pessoas têm de entender que, quando se manifestam dessa forma, elas também estão sendo racistas."

"Dá uma ideia de que a gente avalia o que acontece com a pessoa a partir do que ela faz. O Vinícius Júnior precisa de ser uma pessoa que siga todas as regras, que não existem, para que possa ser apoiado", lamenta.

Palavras de Mourinho "não têm como"

Para o diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, "a questão do Vinícius Júnior não é a dança e a irreverência".

"A questão do Vinícius é que ele se manifestou contra o racismo, é um jogador que luta contra o racismo. Não só denunciando o racismo que ele sofre, mas falando de racismo de uma forma muito aberta, muito forte. E aí está onde ele incomoda as pessoas. Não é a irreverência dele. A irreverência do Vinícius é a irreverência do jogador brasileiro, do Ronaldinho, que dançava. Então, isso é só um subterfúgio, uma defesa que as pessoas estão fazendo do sistema racista", argumenta.

Marcelo também aponta o dedo de volta a Mourinho, cuja crítica ao comportamento de Vinícius, no seu entender, "não tem como".

"A gente olha as imagens do Mourinho comemorando suas vitórias, ele era provocador. O Vinícius não foi provocador naquele golo. Ele dança na bandeirola, mas não olha para a torcida do Benfica. Ele dança sem olhar para os torcedores. O Mourinho não podia ter dito isso para ele, porque o Mourinho é um dos mais provocadores no mundo do futebol", frisa.

Eusébio? "Eu tenho um amigo negro..."

Tanto Mourinho como o Benfica evocaram a figura de Eusébio da Silva Ferreira na defesa ao caso. O treinador, em concreto, afirmou que "a maior lenda do Benfica é Eusébio, portanto o clube não é racista".

Marcelo Carvalho evoca outro argumento: "'Eu tenho um amigo negro, não sou racista'. 'O Eusébio jogou no Benfica, nós não somos racistas.'"

"Isso é algo muito comum aqui no Brasil também. É dizer que, 'olha, nós tivemos ao longo da história esse jogador negro ou esses jogadores negros, então nós não somos um clube racista'", assinala.

Marcelo sublinha que "não existe uma acusação ao Benfica de ser um clube racista, existe uma acusação de ter ocorrido um ato de racismo".

"A história do Benfica com o Eusébio, com tantos outros jogadores negros, com o Luisão, é uma história do futebol. Não existe uma equipa de futebol hoje que não tenha uma história com algum jogador negro. O que a sociedade não consegue entender é que o ato de racismo é um ato individual que ocorreu naquele momento. A instituição não está sendo colocada à prova. Não estamos falando da história da instituição. É um erro que o Benfica adota ao usar o Eusébio como escudo", critica.

O diretor do Observatório reforça que em julgamento está apenas a alegada ação de um jogador "que talvez nem saiba quem é Eusébio".

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