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1500 kms em quatro dias. Como um português atravessou o Irão para fugir da guerra

04 mar, 2026 - 20:49 • José Pedro Frazão

José Moreira, treinador no Chadormalou Ardakan, meteu-se num carro e num avião para evitar as certezas e as incertezas da pólvora. Em conversa com a Renascença, o português relata as entranhas de uma fuga, explica como atravessou a fronteira para a Turquia e revela como vê o país que agora abandona: "Antes desta intervenção, havia desejo. Agora, o desejo já se está a transformar em receio".

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1500 kms em quatro dias. Como um português atravessou o Irão para fugir da guerra

O moral das tropas estava elevado quando José Manuel Moreira desceu para o pequeno-almoço num hotel de Khorramabad, 470 quilómetros a sudoeste de Teerão. Os dois golos do camisa 10 Habibinejad, marcados na véspera ao Keybar, tinham colocado o Chadormalou Ardakan a 4 pontos da liderança da primeira liga iraniana.

O plano era fazer um treino de recuperação e depois viajar de avião a meio da tarde para Teerão onde o plantel treina, apesar de sediado em Ardakan, nos arredores de Yazd, no sudeste do país.

“Estávamos a tomar o pequeno-almoço e começámos a saber pelas notícias que tinha havido ataques em Teerão. Obviamente que o plano deixou de fazer sentido. Treino cancelado, espaço aéreo fechado, já não havia hipótese de regressar a Teerão via aérea”, conta José Manuel Moreira, 43 anos, treinador-adjunto do quinto classificado da tabela iraniana.

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Khorramabad, assim se chama a cidade onde Moreira acordou no sábado, é a capital do Lorestão, região que faz fronteira com o Iraque. Entre montanhas, corre um vale Património da Unesco desde o verão passado, pelos vestígios de 63 mil anos de presença humana.

“Houve quem tivesse ouvido durante a noite alguns caças a passar. Disseram, quem ouviu, que foi um som muito longínquo, não muito vincado, mas certo é que houve quem dissesse que ouviu”, relata do que ouviu ao pequeno-almoço. Faz sentido, olhando o mapa militar do Irão. É ali também que está baseada a 184.ª Brigada de Assalto Mecanizada das Forças Terrestres do Irão, armados com batalhões de infantaria e artilharia, para além de defesas anti-aéreas.

Nos primeiros dias de operação aérea, cinco militares iranianos morreram num ataque norte-americano em Khorramabad. “É uma zona perigosa, supostamente uma cidade-alvo porque tinha lá algumas milícias militares, alguns postos de comando. Depois de sabermos que Teerão tinha sido bombardeada, disseram-nos que tínhamos de sair dali rapidamente, porque a cidade podia muito bem vir a ser também bombardeada, como acabou por ser”, recorda José Moreira.

O plantel dispersou-se a partir daí. Os responsáveis do clube colocaram os estrangeiros - o treinador-adjunto José Moreira e sete jogadores – numa carrinha em direção a Teerão. Os outros jogadores, iranianos, regressaram a Teerão ou a outras cidades de táxi.

Primeira jornada: Khorramabad - Teerão

A paisagem observada ao nível do asfalto não incluía sinais de guerra. Era preciso olhar para o céu para perceber o que se estava a passar naquele sábado. “Víamos muito mísseis no ar na viagem de Khorramabad para Teerão. Sabíamos que os alvos daqueles mísseis lá no alto são todos bem delineados, sabem bem para onde é que estão a atacar. Supostamente não iriam atacar uma carrinha de quinze lugares “, confessa o treinador português, temperando apreensão com a serenidade possível.

Fora de campo, metido numa carrinha, José Moreira foi fazendo um treino invisível, individual, no plano mental. “Meti na minha cabeça que, a partir do momento em que estava a acontecer o ataque – e não me parecendo que ia terminar tão cedo - o meu primeiro objetivo seria como conseguir sair dali e não entrar em desespero”, confessa agora, à distância de quatro dias.

A estratégia era manter calma, exercer prudência, relativizar algo que era demasiado grave. Ao longo das oito horas de viagem, José Moreira foi fazendo ‘mind games’ consigo próprio, antecipando ataques externos como um qualquer míssil transviado na travessia terrestre até à capital.

“Sempre me prepararam: ‘caso haja uma coisa destas, o que vais sentir mesmo é um estrondo e um abanão para te pôr em sentido”. José Moreira começou a confrontar-se na viagem com os hábitos locais, como se os iranianos envergassem uma camisola interior tecida com um estranho relaxamento.

“As pessoas falavam disso com alguma ligeireza, mas é mesmo assim, é a forma como eles sentem isto. Porque eles já passaram por estas situações algumas vezes e dizem que é assim que funciona. O pessoal ia no carro a tirar fotografias, a fazer vídeos. Cheguei a uma altura em que pensei que estava de férias”, recorda José Moreira.

Um susto na estrada

Incrustada na paisagem iraniana, a tensão não tinha mexido na rotina até ali. O técnico diz que ninguém foi surpreendido pelo ataque israelo-americano. O pára-arranca de negociações, de Oman a Genebra, a juntar a um caldo de notícias sobre mais navios, aviões e bases militares norte-americanas à porta do Irão, não alterava o quotidiano iraniano.

“Acaba por se entrar ali num rol em que pode acontecer a qualquer momento. Mas passando demasiado tempo e não acontecendo nada, estávamos sempre à espera de que algo pudesse acontecer. Não estava descartado. Por muito que houvesse muita gente a dizer que não ia acontecer nada, tínhamos sempre aquele pensamento: ‘mais dia menos dia, algo vai acontecer’. E aconteceu”.

De repente, algures numa espécie de portagem no caminho para Teerão, José Moreira apanhou o maior susto dos últimos dias.

“A partir do nada, é disparado um míssil ao nosso lado, a 100 metros de nós. Ou era de defesa antiaérea, ou também de ataque contra Israel ou para uma base aérea norte-americana. Saiu do nada”.

A reação de José Moreira contrasta com a descontração indígena. “As pessoas à volta a riam-se, divertiam-se. Aquilo para eles é normal, para nós já não é tão normal assim”.

Memórias de Janeiro

Não era a primeira vez que a tensão iraniana lhe caía no prato. Desde o verão de 2025 que o português estava no Irão. Convencido pelo agente a trabalhar naquele país, chegou logo após a guerra dos 12 dias com Israel. Viajou para Portugal para a passagem de ano, depois de um jogo em Isfahan e foi já no Porto que soube dos protestos de 28 de dezembro no Grande Bazar de Teerão.

Foi a faísca que incendiou o país, levando a uma forte repressão policial de manifestações contra o aumento do custo de vida. Os protestos foram-se multiplicando, criando divisões, sobretudo subtraíndo violência à contestação.

Mas o povo vinha somando razões de desespero pelas diversas faltas do regime. Reclamando liberdade, saúde económica, direitos humanos, os protestos escalaram a 8 e 9 de janeiro para um nível sem precedentes nas últimas décadas.

É o que dizem os ativistas, as organizações de direitos humanos ou um mero emigrante português no Irão. José Moreira tinha tido jogo na véspera em Mashad, cidade sagrada para os shiitas, situada no nordeste do país.

“Aquilo acabou por sair fora do controle de toda a gente. Até ali, haver protestos era indiferente para nós, para o nosso dia a dia. Íamos treinar, vínhamos para casa ou para os locais que costumávamos frequentar, para socializar. Em Mashad, o nosso hotel tinha vista privilegiada para os confrontos entre os manifestantes e a polícia, provavelmente com algumas pessoas infiltradas. Estávamos todos nas varandas dos quartos do hotel, a ver o que eu nunca tinha visto na vida. Senti mais tensão nesse dia e nessa noite, do que propriamente nestes últimos dias”.

José Moreira não se esquece desses dias de janeiro, de internet bloqueada e de ruas barricadas. “Aquilo estava a passar-se a 200 metros de nós. Era confronto, era fogo do ar, tiros, balas de borracha. Queimavam tudo, havia agressões, que provavelmente acabaram por resultar em algumas mortes, Foi uma batalha campal”, recorda este portuense emigrado no Irão.

Tal como no episódio do último fim de semana, foi o presidente do clube que resolveu quase tudo. Levou a equipa de avião para Teerão e cedeu internet aos estrangeiros do plantel para estes tranquilizarem as famílias.

“Aconselhou-nos a não frequentar os locais que costumávamos frequentar socialmente. Visto sermos estrangeiros, havia rumores de que havia muitos infiltrados, vindos de fora, a fazer coisas que o governo não iria permitir. Pediu que nos salvaguardássemos, para não sairmos à rua, irmos treinar, porque o clube disponibilizaria tudo que precisássemos”, relata José Moreira.

A conexão portuguesa no Irão

Nesses dias de janeiro, o telefone deste portuense recebeu muitos alertas de iranianos conhecidos. “Diziam para tomar cuidado, que iria haver manifestações muito fortes, porque o filho do Xá Reza Pahlavi tinha feito declarações para as pessoas virem para a rua, para se manifestarem de uma forma mais violenta”, recorda José Moreira. Em Teerão, este português comprovou que muita gente estava contra o regime. É aqui que entra em cena a diplomacia portuguesa.

“Tínhamos um jogo em Ahwaz, que é também na zona oeste. E eu tinha a garantia que, caso acontecesse alguma coisa, a embaixada portuguesa me retiraria imediatamente do país por via terrestre. Mas a dez horas de Teerão, caso acontecesse um ataque, iria ter de fazer aquilo que acabei por fazer há três dias, ou seja, regressar a Teerão sem garantias nenhumas. A embaixada portuguesa já não poderia estar dez horas à minha espera para sair do país”, relata o técnico português.

Decidiu não viajar pois havia uma grande possibilidade de um possível ataque. O plano da embaixada de Portugal era uma retirada rápida para seguir de carro para o Azerbaijão ou para a Arménia. Seriam 12 horas de viagem, em circunstâncias normais, com mais 2 ou 3 horas em caso de trânsito mais intenso.

Nessa altura, José Moreira estava a receber autênticas lições de geopolítica. Avisaram-no que os possíveis ataques poderiam vir daquela zona. Havia também a solução da fronteira iraquiana. “Quando ouvi Iraque, aquilo não me entrou muito bem no ouvido. Mas para sul, não tinha hipótese de sair, a não ser para o mar. Teria que continuar a ir para norte e de ter cuidado também, porque os possíveis ataques podiam passar por ali”

A representação diplomática portuguesa em Teerão era um local seguro e permitia as ligações de internet necessárias para falar para casa. Foi aí que Moreira se cruzou com Ricardo Sá Pinto, treinador do Esteghlal, e os portugueses da sua equipa técnica. Passou a contactar com Leandro Mendes, adjunto de Sá Pinto, até que estes sairam do Irão uma semana antes dos ataques de 28 de fevereiro.

O presidente do clube decidiu, entretanto, mandar o português de férias até a situação se acalmar. “Insisti com ele que estava tranquilo em Teerão, mas o presidente queria que estivesse mais salvaguardado. No dia 15 de janeiro, no dia em que a Embaixada portuguesa fechou, regressei a Portugal com o diplomata André Oliveira que sempre me acompanhou e foi impecável em tudo”.

Mesmo sem apoio presencial da embaixada portuguesa, José Moreira regressaria a Teerão três semanas depois, com indicações do clube a apontar para uma acalmia na agitação popular. A solução durante algumas semanas passou por jogos à porta fechada para não prejudicar o calendário da Liga iraniana. Num país de grandes dimensões, a manutenção das ligações aéreas permitia cumprir o planeamento da época num campeonato onde apenas 3 das 16 equipas são verdadeiramente de Teerão.

Como sair de Teerão?

Desta vez o cenário era diferente. A evacuação estava em curso pela mão de Alireza Babaei, o presidente que acolheu José Moreira em 2025 e que tudo fez para serenar o português mesmo depois dos graves incidentes de Janeiro.

“O presidente tentou-me tranquilizar e dizia que, à partida, não iria acontecer nada à partida. Caso fosse necessário, garantia que me retirava do país e o que é certo é que as coisas aconteceram e ele cumpriu com a sua palavra”, reconhece o técnico português.

À chegada a Teerão, José Moreira reparou nas extensas filas de automóveis para sair da capital, a caminho dos apartamentos para onde o clube os encaminhou. A maior preocupação era avisar a família e para isso os sistemas de comunicações privados do presidente do clube foram preciosos.

“Quando saímos de Khorramabad, mandei logo uns áudios à família para ser mais rápido, dizendo que ia ficar sem internet. Quando chegámos a Teerão, o presidente foi às nossas casas, fornecendo internet para falarmos com os familiares”, recorda o português outrora conhecido como Cuco enquanto jogador de futebol.

Com a internet do presidente, Moreira foi comunicando com o diplomata André Oliveira, da embaixada de Portugal em Teerão, que não tinha regressado ao Irão. No apartamento do português, fez-se uma reunião com os estrangeiros do plantel para discutir os detalhes do plano de saída.

Inicialmente o presidente do clube queria que os jogadores fossem para outra zona, apesar do bairro dos jogadores ser relativamente seguro. Babaei insistia que os jogadores não deveriam dormir em Teerão naquela noite de sábado, dia em que a cidade foi bombardeada em diversos pontos, levando à morte do Lider Supremo iraniano.

“Ele ainda estava a tentar arranjar as casas para o sábado à noite, mas acabámos por pernoitar nas nossas residências. Nós dissemos que queríamos sair do país e de forma direta”, relata Moreira.

O trânsito intenso assustou o presidente do clube. “Posso tirar-vos daqui hoje, mas o problema é o trânsito e muito caos nas fronteiras”, contrapôs Babaei, que sugeriu ficarem no Irão por mais um ou dois dias para se conseguir uma evacuação com mais facilidade. A ideia de irem dormir logo nessa noite fora de Teerão não agradou aos estrangeiros do clube. “Alguns estavam com as mulheres e com os filhos, mas acabámos por conseguir convencê-los a irmos para umas moradias no dia seguinte”.

Aos estrangeiros do plantel Alireza Babaei garantia alojamento em duas moradias em Kordan, a cerca de uma hora de Teerão. “Eram casas com muita qualidade, com todas as comodidades possíveis. E o que é certo é que saímos na altura certa”, confessa o treinador português.

Segunda jornada: Teerão - Kordon

A última noite do português José Moreira em Teerão foi a do primeiro dia do ataque ao Irão. Na noite de sábado, pelas 23 horas, o português começou a ouvir gritos na zona da sua residência, quebrando o silêncio habitual do bairro.

“Eram gritos de contentamento, muita gente na rua a gritar de um momento para o outro. Comecei a ver carros a apitar. Não estava a perceber o que é que se passava e falei com o porteiro do meu prédio. Disse-me que o Ayatollah Khamenei tinha sido encontrado morto e esses gritos eram de felicidade de muita gente”

Na manhã seguinte, os estrangeiros do Chadormalou Ardakan saíram para Kordan sem armas, mas com muitas bagagens. Os sul-americanos do plantel estavam a abandonar o Irão com 40 a 50 malas, obrigando a montar uma coluna de três carrinhas – a terceira era a das bagagens. O grupo era composto por José Moreira, sete jogadores, acompanhados por três esposas e quatro crianças pequenas.

“Saímos na altura certa. 15 minutos depois de termos partido da nossa zona de residência, uma esquadra da polícia e as instalações da televisão que ficavam próximas foram bombardeadas. Ligámos ao nosso porteiro, para ver se ele tinha ouvido. Disse que não, provavelmente devia estar a dormir porque todas as outras pessoas disseram que ouviram…”, relata o portuense emigrado no Irão, o último português a sair do Irão neste contexto.

Não se pode dizer que tenham apanhado sustos na viagem de saída de Teerão. Pelo retrovisor, observavam fumo no horizonte da capital. Até o volume das explosões escutadas em Kordon tinha sido calculado pelo presidente do clube e o seu staff. “Avisaram-nos que provavelmente íamos ouvir explosões muito ao longe. Foi isso exatamente o que aconteceu. Se estivéssemos a falar, não ouvíamos os estrondos. Apenas víamos muito fumo ao longe em Teerão”.

Tinham passado 48 horas do ataque inicial. O Irão já retaliava no Golfo e a aliança israelo-americana continuava a bombardear várias cidades em vagas que atingiam sobretudo Teerão. Era tempo de nova reunião para reavaliar o plano de saída.

“Embora ele nunca o tenha expressado, sentimos que o presidente do clube estava a tentar protelar a situação. Poderia estar a acreditar que, 3 ou 4 dias depois, aquilo voltava tudo ao normal. Ele dizia para estarmos à vontade, já que ali estávamos em segurança pelo tempo necessário. Sentimos que ele podia estar a achar que este conflito não ia durar assim tanto”. José Moreira conta que mesmo com internet cortada era possível aceder a sites exclusivamente iranianos, bloqueando as páginas que terminavam em “.com”.

Terceira jornada: Kordon – Van (Turquia)

Os ataques que antes se centravam no período da noite, surgiam agora de manhã e prolongavam-se pelo resto do dia. “Tínhamos acesso a alguns noticiários, vimos que aquilo que era só o começo, que estava para durar e acabámos por pedir para sair”.

Apelaram então ao presidente do clube para desenhar um plano de evacuação para o estrangeiro. Babaei ordenou então que as carrinhas se dirigissem para a Turquia e o grupo de futebolistas emigrantes arrancou na segunda-feira para 12 horas de viagem até à fronteira. Foram cerca de 900 quilómetros por via terrestre numa rota que passava pela cidade de Tabriz, no norte do Irão, até à fronteira.

Foi uma viagem sem qualquer foco de tensão. Na fronteira, onde chegaram na manhã de terça-feira, não encontraram filas e o maior desgaste era mesmo de ordem logística. “Estamos a falar de malas que não são propriamente pequenas nem leves e apareceram todas do outro lado da fronteira”, relata Moreira, impressionado com o plano montado pelo presidente do clube.

Foi feita uma troca de carrinhas e motoristas porque os iranianos não podiam continuar. Do outro lado da fronteira, outras três carrinhas estavam já preparadas para levar o pequeno contingente até à cidade turca de Van e daí, de avião, para Istambul.

Quando chegou à Turquia, voltou a contactar o diplomata português André Oliveira que lhe ligava com muita regularidade desde a crise de janeiro. “No clube, até pensavam que ele estava a fazer pressão para eu sair do Irão. E não é verdade, ele simplesmente estava a desempenhar uma função com excelência”, assinala José Moreira nesta conversa com a Renascença.

O que querem os iranianos

Para trás ficam algumas certezas e outros cenários que o tempo nunca vai permitir esclarecer. José Moreira acredita que há muita gente no Irão que ficou muito feliz com a intervenção externa dos Estados Unidos e de Israel.

“Antes dessa mesma intervenção, havia desejo. Provavelmente agora, com o escalar e com a dimensão que isto está a tornar, o desejo já se está a transformar mais em receio”, afirma este emigrante português no Irão.

José Moreira sentiu mesmo que "eles queriam que algo fosse mudado no país”, mas admite que havia preferências diversas sobre o melhor para o país.

“Se está a tentar perceber se havia muito medo da parte das pessoas que houvesse algum ataque, diria antes o contrário: se calhar era o desejo de muita gente”.

O português já trabalhou nos outros países da região atacados agora pelo Irão como retaliação pelos bombardeamentos que começaram no sábado.

“O Irão não é árabe, mas é muçulmano como os outros países onde eu estive. Adorei ter estado nos países onde estive, em Oman, na Arábia Saudita, no Qatar. São realidades totalmente diferentes, umas face às outras, e confesso que as expectativas relativamente ao Irão, ao seu povo e à sua cultura não eram tão altas. Da mesma forma que aconteceu isto quando emigrei pela primeira vez para a Arábia Saudita e tive uma surpresa muito agradável. Foi em 2017, está a fazer 10 anos. Mas na altura não havia Cristiano Ronaldo lá na Arábia Saudita e, portanto, a imagem era totalmente diferente”, desabafa José Moreira.

A sua carreira como treinador começou pela Arábia quando deixou de jogar, após um trajeto de futebolista com formação no FC Porto, e uma episódica passagem na equipa B do Sporting antes de se estabelecer como sénior em clubes nortenhos como o Maia, Rio Ave, Freamunde, Rio Tinto, Beira-Mar ou Tirsense.

Muitas camisolas, muitas terras, muitas vivências. José Manuel Moreira, o Cuco, sabia que o Irão era um país “com enormes sanções e estrangulamentos económicos”. Mas como estrangeiro só pode constatar que o Irão foi uma “surpresa agradável”, principalmente na forma como tratam os estrangeiros.

“O Irão é um país riquíssimo, com uma cultura riquíssima e paisagens lindíssimas. Mas o povo é a maior riqueza que o Irão tem”, afirma sem pestanejar, lamentando a perceção “de quem nunca lá esteve ou nunca lidou com eles” e reconhecendo que também partiu com reservas para Teerão no início da sua jornada iraniana.

Bola ao ar

Diz-se que no futebol não há “ses”. No Irão abundam os “ésses” e as curvas da vida também mexem com a bola. A jornada 23 do campeonato iraniano ficou por jogar, pelo menos no imediato.

José Moreira garante que o clube estava numa fase “muitíssimo boa, muitíssimo positiva”. O presidente e a estrutura técnica estavam até a reformular os objetivos da época. “Estávamos todos muito unidos e muito convictos de que poderíamos alcançar algo nunca atingido pelo nosso clube. Foi pena. Íamos jogar contra os três da frente, faltavam oito jornadas e porque não poderíamos chegar ao título?”

É difícil dizer se José voltará ao Irão e ao Ardakan, clube de uma grande empresa de alumínios, criada em 2021, que tem mais quatro emblemas no seu portfolio. Sentado num quarto de hotel em Istambul, responde rápido à interpelação da Renascença.

“O que eu quero fazer? Voltar à cidade do Porto, que é a minha cidade. Tentar fazer com que a minha mãe me ‘amasse’ depois destes sustos que ela teve, dar-lhe um enorme abraço, um enorme beijo à minha mãe, ao meu pai, à minha irmã também. Isso é o que eu quero fazer nos próximos tempos. Depois há coisas que não podemos controlar. Nem eu, nem o meu clube, se calhar nem o próprio Irão”.

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