Guerra no Médio Oriente
"Preocupadas e tristes": Irão joga Taça da Ásia feminina com um olho na bola e outro na guerra
05 mar, 2026 - 16:33 • Inês Braga Sampaio
As jogadoras da seleção ficaram em silêncio durante o hino, no jogo de estreia; no segundo, não só cantaram, como fizeram continência. Os adeptos desfraldam bandeiras do antigo regime. Uma seleção que chegou à Austrália, dias antes do início da Guerra no Médio Oriente, para celebrar o futebol rapidamente se tornou numa curiosidade política.
Cerca de 12 mil quilómetros separam a Austrália de Teerão, uma capital fustigada pelos bombardeamentos de Estados Unidos e Israel e que retalia contra os vizinhos. É à distância desses 12 mil quilómetros, já longe da linha do horizonte, que as jogadoras da seleção do Irão, a competir na Taça da Ásia, acompanham as notícias da guerra no Médio Oriente.
É uma vivência dividida, para uma seleção que chegava à Austrália, ainda no final de fevereiro, para viver a festa do futebol asiático e rapidamente se tornou uma curiosidade geopolítica. Um olho na bola e outro na guerra — ambos assomados pelas lágrimas, como os da jovem avançada Sara Didar, enquanto ouvia a tradução para inglês da sua resposta a uma pergunta sobre o conflito armado, em conferência de imprensa.
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"Obviamente, estamos todas preocupadas e tristes com o que está a acontecer no Irão, às nossas famílias e entes queridos. Queremos muito que haja boas notícias para o nosso país e espero que o meu país continue fortemente vivo", confessou a jogadora, de 21 anos, que, mal pôde, apressou-se a abandonar a sala, de olhos vermelhos.
As jogadoras iranianas e a a selecionadora, Marziyeh Jafari, têm evitado tecer comentários sobre tudo o que se passa com o Irão: as dúvidas sobre o regime, os protestos que, segundo a revista "Time", citando dois altos funcionários do Ministério da Saúde iraniano, levaram à morte de pelo menos 30 mil pessoas, e agora a guerra contra EUA e Israel.
Pedidos de entrevista têm sido recusados, informações sobre treinos abertos ao público e à imprensa foram removidas da agenda oficial do torneio. Nas conferências de imprensa, só têm sido autorizadas três perguntas, com a exigência de que se cinjam ao futebol.
Será possível separar o que se passa dentro de campo, cada ação, cada olhar, das explosões ouvidas a 12 mil quilómetros de distância?
Na estreia na Taça da Ásia, com a Coreia do Sul, dois dias depois do início dos bombardeamentos de Israel e EUA sobre o Irão, as jogadoras permaneceram em silêncio enquanto tocava o hino nacional. Ninguém da equipa ou da Federação Iraniana de Futebol especificou se se tratara de um ato de protesto ou de luto pelas mortes. De qualquer modo, as imagens correram mundo; no jogo seguinte, diante da anfitriã Austrália, o silêncio tornou-se canção a uma só voz e numa continência ao hino.
Foi na antevisão do jogo com a Austrália que Didar foi movida às lágrimas ao falar sobre o conflito no Médio Oriente. Na mesma conferência de imprensa, a selecionadora agradeceu o apoio da diáspora iraniana na Austrália e admitiu que tem sido difícil lidar com a falta de notícias de casa.
Um "blackout" da internet tem tornado impossível para as jogadoras e o staff da seleção contactarem os seus entes queridos no Irão.
"Estamos muito preocupados com as nossas famílias e os nossos entes queridos e toda a gente no nosso país, de que estamos completamente desconectados. Viemos para aqui para jogar futebol profissional e faremos o nosso melhor para nos focarmos nisso", disse Marziyeh Jafari.
É o máximo que a equipa fala sobre a guerra. Não há comentários sobre os ataques militares ou sobre a morte do "ayatollah" Ali Khamenei.
Esse silêncio é preenchido pela voz da diáspora, que tem acudido aos jogos da sua seleção às centenas e aos milhares. Quando as colunas começaram a trompejar o hino do Irão, antes do duelo frente à Coreia do Sul, os adeptos desfraldaram bandeiras verdes, brancas e vermelhas. Um gesto normal, não fosse a ausência das inscrições da frase "Allāhu akbar", repetida 22 vezes nas margens da lista branca, e do brasão de armas vermelho, e do facto de, ao centro, surgir o emblema do Leão e Sol.
Não era a bandeira da República Islâmica do Irão, mas sim a do regime que caiu em 1979, uma memória à qual os revolucionários se agarram e que foi reavivada como símbolo da resistência aos "ayatollahs".
"É a nossa bandeira nacional. O regime atual não nos representa, portanto a bandeira deles não nos representa. Não representa o Irão", declarou Ara Rasuli, uma adepta que fez parte da iniciativa no estádio.
Dentro de campo, o Irão soma maus resultados, ainda que nada fora do esperado, tendo em conta o poderio das equipas que enfrentou. Na estreia, perdeu com a Coreia do Sul, por 3-0. No segundo jogo, foi goleado pela Austrália, por 4-0. No terceiro e último jogo da fase de grupos, terá pela frente as Filipinas, um laivo de esperança para o apuramento para a fase a eliminar. Será mais um jogo de nervos, com a cabeça na calculadora do resultado e o coração para lá dos mares de Arafura e Timor.
- Bola Branca 18h15
- 15 mai, 2026










