Guerra no Médio Oriente
Sete pediram asilo, uma desistiu. Irão garante segurança das jogadoras da seleção, mas preocupação cresce
12 mar, 2026 - 15:15 • Inês Braga Sampaio
O ministro da Administração Interna da Austrália ofereceu a todos os elementos da seleção, entre jogadoras, equipa técnica e staff, a possibilidade de cedência de asilo. Australo-iranianos reuniram-se em pontos diferentes para tentar, em lágrimas, impedir o regresso da equipa ao Irão.
"Salvem as nossas raparigas". Foi com o abraço deste apelo que o autocarro da seleção feminina do Irão deixou Queensland, rumo a Sydney, para levar a equipa ao aeroporto, depois da eliminação da Taça da Ásia. Seis mulheres ficaram na Austrália, após ter-lhes sido oferecido asilo humanitário; poderiam ser sete, mas uma jogadora mudou de ideias à última hora.
O ministro australiano da Administração Interna, Tony Burke, falou pessoalmente com cada jogadora, tanto em Queensland, primeiro, como em Brisbane e em Sydney, mais tarde, e deu-lhes uma opção: voltar ao Irão, onde o destino que as aguarda é incerto, ou ficar na Austrália, em segurança, mas sem saber o que acontecerá às famílias.
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"Possivelmente pela primeira vez nas suas vidas, estas mulheres reuniram-se com um governo que lhes disse: 'A escolha é vossa'", afirmou Burke, em conferência de imprensa, após uma das reuniões.
Na primeira vaga, na segunda-feira, cinco jogadoras pediram asilo: escaparam ao controlo presente no hotel e foram encaminhadas para um local seguro: Fatemeh Pasandideh, Zahra Ghanbari, Zahra Sarbali, Atefeh Ramazanzadeh e Mona Hamoudi, confirmou o ministro.
Ao início de quarta-feira, mais duas mulheres — uma jogadora, que, segundo a televisão australiana SBS News, é Mohaddeseh Zolfi, de 21 anos, e um elemento da equipa técnica — escolheram ficar na Austrália, enquanto o resto da comitiva embarcava rumo a Kuala Lumpur, na Malásia, onde a equipa fez escala para regressar, a seguir, ao Irão.
Horas mais tarde, no entanto, e depois de falar com colegas de equipa que já se encontravam na Malásia, Zolfi pediu à embaixada do Irão para ir buscá-la. Uma decisão que teve repercussão, também, sobre a segurança das restantes mulheres que tinham solicitado asilo.
"A embaixada iraniana tinha passado a saber a localização das restantes jogadoras", disse Tony Burke, em declarações ao Parlamento australiano. "Dei imediatamente a ordem para mudar o local", acrescentou.
O ministro não condenou a jogadora pelo volte-face: "Na Austrália, as pessoas podem mudar de ideias, as pessoas podem viajar. Por isso, respeitamos o contexto em que ela tomou essa decisão."
Cresce a preocupação sobre a segurança das jogadoras que voltaram ao Irão.
"Ouvimos dizer que elas iam ser mortas", disse uma mulher, em lágrimas, no aeroporto, onde mais pessoas se reuniram para apelar à equipa que não embarcasse e ao governo australiano que não permitisse a partida.
Os receios devem-se ao facto de as jogadoras terem sido apelidadas de "traidoras em tempo de guerra", na televisão estatal iraniana, quando ficaram em silêncio durante o hino do Irão, no jogo de estreia na Taça da Ásia, dois dias após o início da guerra no Médio Oriente. Nas partidas seguintes, a equipa não só cantou o hino, como fez continência.
Preocupa, igualmente, o destino das famílias das jogadoras que decidiram ficar na Austrália. Burke referiu que o governo australiano está a tentar garantir proteção.
Apesar de tudo isso, o presidente da Federação de Futebol do Irão assegurou as jogadoras de que não sofreriam quaisquer represálias, caso regressassem.
"Foi-lhes dito que poderiam voltar. A informação que receberam de que, se voltarem, serão capturadas e mortas, é falsa", afiançou Mehdi Taj, em declarações à televisão estatal iraniana.
Entrevistada pela SBS News, Nos Hosseini, da Associação de Mulheres Iranianas na Austrália, desvalorizou as garantias do líder federativo.
"Estas mulheres foram classificadas como 'traidoras em tempo de guerra'. Por isso, é difícil ouvir e aceitar que a sua segurança será garantida", afirma.
Outra das preocupações em torno da seleção feminina é a forte influência da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC), braço armado do regime dos "ayatollahs", na estrutura da Federação de Futebol do Irão (FFIRI). Desde logo, o presidente, Mehdi Taj, é um antigo comandante da IRGC. Além disso, a Austrália negou vistos de entrada a vários diretores da FFIRI, precisamente devido às ligações já documentadas à IRGC.
Por enquanto, as jogadoras que não ficaram na Austrália estão a caminho do Irão, que se encontra sob bombardeamento dos Estados Unidos e do Irão, e que tem retaliado com ataques aos países vizinhos.
- Bola Branca 18h15
- 19 mai, 2026









