Futebol Internacional
“És uma pessoa admirável, a sociedade precisa de gente como tu”: Simeone agradeceu por tudo ao “amigo” Griezmann
08 abr, 2026 - 15:35 • Hugo Tavares da Silva
Antoine Griezmann vai jogar no Orlando City, a partir de julho, e Diego Simeone aproveitou a véspera do Barcelona-Atlético para a Champions para lhe dizer que ele é um exemplo para os miúdos. “Obrigado pela forma como sempre te comportaste”
A voz estava hesitante. O ar escapava e chegava mesmo a tempo de empurrar para fora mais uma palavra. A garganta era escovada pela tosse seca vezes sem fim. Palavras pausadas, pausa. Os olhos brilhavam, a água dava conta da ternura e da admiração.
Diego Simeone, um homem que já viu tanta coisa e treinou tantos homens desde que chegou ao Atlético na temporada 2011/12, agarrou metaforicamente os microfones de todos os jornalistas na véspera do jogo contra o Barcelona, a contar para os quartos de final da Liga dos Campeões. A razão estava ao seu lado.
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“Antes que façam perguntas ao Antoine [Griezmann], queria dizer, como treinador e em nome dos adeptos do Atlético Madrid, obrigado por todo o teu trabalho”, assim começou o discurso do argentino, que se estenderia por quase dois minutos, entre silêncios, tosses que salvam, olhares que dão mãos.
Há poucos dias, Antoine Griezmann anunciou que vai jogar no Orlando City, da MLS, a partir de julho. O futebolista, natural de Mâcon, chegou à Real Sociedade em 2005/06. Dez anos depois mudou-se para o Vicente Calderón, onde jogaria mais uma década, com dois anos pelo meio no Barcelona, o rival desta noite.
“Obrigado por toda a tua humildade”, continuou o técnico sul-americano, emocionado. “És uma pessoa admirável para os miúdos de hoje, numa sociedade que precisa de gente como tu. Obrigado por tudo o que nos deste, dás e pelo que te vou obrigar a dar. Obrigado pelo teu compromisso, obrigado pela forma como sempre te comportaste, como profissional e pessoa.”
Simeone tirou-lhe o chapéu por, depois de tantos anos juntos, saber reconhecer as fronteiras obrigatórias entre jogador e treinador que constroem diariamente uma amizade. “Soubeste diferenciar essa relação tão linda que temos, como família, e não passar essa linha difícil. Considero-te jogador e depois um amigo.”
A seguir, alcançou o horizonte. “Faltam oito jogos para o campeonato. Falta um jogo na Copa del Rey [a final] e, se Deus quiser, vamos jogar mais cinco jogos na Champions”, disse, mirando os olhos azuis do francês com família portuguesa e um avô que até jogou no Paços de Ferreira, mirando também a final da Liga dos Campeões, que juntos perderam, nos penáltis, em Milão, em 2016. Simeone já tivera essa desilusão dois anos antes, em Lisboa, e nas duas ocasiões o carrasco foi o Real Madrid.
“Convido-te a continuar a desfrutar”, continuou a carta de amor ao amigo. “Gosto muito de ti. Se estivesse aqui algum adepto do Atlético Madrid, diria as mesmas palavras. Sinto-me completamente identificado com eles. Sou o teu treinador, sabes que se amanhã não correres sais da equipa”, lembrou muito simeoneamente. E os sorrisos surgiram, assim como as pancadas ternas do futebolista na perna do treinador. E um aperto de mão como quem passeia na rua, feliz ou desgostoso ou, simplesmente, ao lado da pessoa certa.
Na resposta, o internacional francês em 137 ocasiões confessou que só saberia abrir o coração se estivesse com os filhos, a mulher e a família de Simeone. "Cheguei a um nível futebolístico que nunca imaginei”, admitiu, responsabilizando a Real Sociedad e o “trabalho” de Diego Simeone. “Fez-me ver muitas coisas, ensinou-me muitas coisas. No campo pessoal, admiro-o e amo-o. Para mim, é uma honra, um orgulho e um prazer jogar para ele."
Atlético e Barça jogam esta noite, no Camp Nou. A conferência de imprensa aconteceu na terça-feira. Diego Simeone, de 55 anos, ainda procura o seu primeiro triunfo na Liga dos Campeões, depois de ter conquistado duas edições da La Liga e outras duas da Liga Europa, entre outros sucessos.
Se sempre, com justiça ou injustiça, se cola o treinador ao aspeto físico do jogo e pouco criativo, Antoine Griezmann personifica essa mistura improvável: o futebolista que cria, que joga e faz jogar, que se sacrifica, que tem momentos que podiam ser pendurados no Louvre e que pensa que é apenas mais um. É um grande embaixador do ‘cholismo', um amigo “admirável” do treinador que, aos 35 anos, vai mudar-se para o outro lado do charco.
- Bola Branca 18h16
- 17 abr, 2026










