4.ª Conferência Bola Branca
"A FIFA legalizou a candonga no Mundial. Bilhetes de 100 euros estão a ser vendidos a 2.500 euros"
28 mai, 2026 - 19:45 • Diogo Camilo
Numa Tertúlia Bola Branca especial, na 4.ª Conferência Bola Branca, falou-se sobre os bons (e maus) exemplos no futebol. Poiares Maduro critica uma FIFA onde há um silenciamento dos críticos, Soares Dias confessou que "preferia fazer 100 jogos a árbitro do que um a vídeo árbitro" e que chegou a ter dois seguranças a guardar a sua casa.
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A FIFA com conflitos de interesses e a "legalizar a candonga" na venda de bilhetes no Mundial, o papel dos adeptos dos estádios no condicionamento das decisões do árbitro, as pressões que os próprios sofrem fora do campo estiveram em destaque na 4.ª Conferência Bola Branca.
Numa Tertúlia Bola Branca especial, com o ex-presidente do Comité de Governação da FIFA, mas também com Artur Soares Dias, ex-árbitro internacional, e Lídia Praça, vogal do conselho diretivo da IPDJ, falou-se nos bons e maus exemplos no futebol.
Poiares Maduro considerou que a FIFA é um sistema construído de "cima para baixo", onde o presidente, Gianni Infantino, "tem um poder enorme e basicamente não é responsável perante ninguém".
O ex-ministro explicou como o principal órgão do futebol é, ao mesmo tempo, o regulador do futebol e da atividade económica e social — quem pode jogar, quem se pode licenciar, as regras de contratos entre clubes e jogadores, quem regula as sanções — e o principal operador económico, dando como o exemplo da forma como são vendidos os bilhetes no Mundial deste ano, nos Estados Unidos, Canadá e México.
"A FIFA, na prática, legalizou a candonga. Criou uma plataforma de revenda de bilhetes, em que bilhetes de 100 euros estão a ser vendidos a 2.500 euros. E porque é que a FIFA promove isso? Porque com esta plataforma, recebe uma comissão sobre os bilhetes vendidos. A FIFA deixou de ter qualquer incentivo para limitar a venda de bilhetes no mercado negro, porque legalizou-o e com isso está a ganhar dinheiro", explicou.
Poiares Maduro abandonou o comité da FIFA em 2017, por não ceder a pressões, considerando que sofreu mais pressões no futebol que na política.
Neste comité eram realizados testes de integridade a futuros membros da presidência da FIFA, dando o exemplo da exclusão do então vice-primeiro-ministro da Rússia, Vitaly Mutko, um ano antes da realização do Campeonato do Mundo de 2018, precisamente na Rússia.
O membro do painel falou numa "aplicação seletiva do princípio de neutralidade política", exemplificando que a FIFA não tem problemas em criar um prémio especial para Donald Trump, e que ao mesmo tempo há um silenciamento dos críticos e, por isso, é "muito difícil uma reforma por via interna", e que parte deste conflito de interesses.
Poiares Maduro falou também num estudo sobre as pressões sociais num jogo de futebol, com a ausência do público nos estádios a causar um aumento das oportunidades de golo, cantos e remates à baliza para as equipas da casa durante a pandemia, em relação ao período pós-pandemia.
Já para as decisões do árbitro, e sem o público nos estádios, "os árbitros tomam menos decisões favoráveis às equipas da casa e menos decisões desfavoráveis contra as equipas visitantes". "Isto explica porque assistimos todas as semanas a um processo constante de pressionar no espaço público — por presidentes de clubes, treinadores, jogadores —. Porque essa pressão funciona. Ou nós impedimos essa pressão ou estamos a criar o campeonato paralelo de quem é mais eficaz a condicionar árbitros", afirmou Poiares Maduro.
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"Eu preferia fazer 100 jogos a árbitro do que um a vídeo árbitro"
Já o ex-árbitro Artur Soares Dias fala noutros tipos de pressões, nomeadamente por parte de adeptos sem filtro, referindo que deixou de ir a centros comerciais como parte da sua vida de árbitro.
"Somos sujeitos a muita pressão e temos de ser o garante da igualdade, da aplicação das leis, do fair play. Com o hábito que temos de estar em campo, começamos a criar defesas, como deixar de ir ao shopping, por exemplo. Ainda que tenhamos muita gente nos estádios, nas redes sociais a abordarem, criamos essa carapaça que permite preparar para esse tipo de pressão", afirma.
Soares Dias defendeu ainda que entidades organizadores devem criar procedimentos que permitam que não seja um só árbitro com essa responsabilidade
"Se deixarmos esse ónus em cima de uma só pessoa, numa fração de segundos — ou de outro elemento que é o VAR, noutra fração de segundos mas com tecnologia e sob uma pressão ainda maior se não ajudarmos essa — pessoa que está no centro do campo a garantir essa equidade, é certo que essa pessoa vai cometer erros", referiu.
O antigo árbitro lembrou o exemplo do Mundial de 2018, na Rússia, onde foi estreado o VAR, referindo uma pressão acrescida nessa competição.
"Eu preferia fazer 100 jogos a árbitro do que um a vídeo-árbitro. Fui ao Mundial da Rússia iniciar o VAR. Ao fim de 10 dias e de três ou quatro jogos, pedia para ir embora. Não desisti nunca, ainda que a vontade fosse alguma, decorrente da pressão", referiu.
Lídia Praça, vogal do conselho diretivo do IPDJ, diz que hoje já não é uma opção não combater comportamentos como os resultados combinados, as pressões ou a violência no desporto. "Não é uma opção, as federações têm de ter regulamentos disciplinares regras de integridade e de ética. Têm departamentos, criou-se o canal de denúncia, para que esta pressão tivesse visibilidade e fosse punida. E isto está criado em termos de organização europeia e internacional, existindo uma rede destas plataformas que também está ligada à Polícia Judiciária", afirmou.
Artur Soares Dias conta que chegou a ter que andar com dois seguranças a guardar a sua casa e a acompanhá-lo. "Esta é a realidade ao dia de hoje. Existem violações de casas continuadamente. Semanalmente os árbitros são enxovalhados e criticados. São pressionados continuadamente e ninguém faz nada", criticou.
Já a responsável da IPDJ - Instituto do Desporto e Juventude falou ainda das apostas desportivas, com redes onde é muito difícil "quem são, onde estão e como atuam" num mundo que onde se movimentam 500 mil milhões de euros por ano, e em que 80% é através de casas de apostas ilegais.
- Bola Branca 18h14
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