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Inteligência Artificial pode substituir o treinador? "Espero que não, senão perco o emprego"

27 mai, 2025 - 11:45 • Eduardo Soares da Silva

Os treinadores Vítor Matos, João Carlos Costa e Pedro Caixinha debatem inovação e inteligência artificial no futebol.

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Poderá a Inteligência Artificial desenvolver-se a tal ponto que substitui os treinadores de futebol? João Carlos Costa, adjunto de Sérgio Conceição no AC Milan, espera que não.

"Espero que não, se não perco o meu emprego. De alguma forma, já integramos em tudo o que fazemos, às vezes sem ter a consciência disso. Acho que há um processo gradual em que a IA nos vai ajudar a antecipar alguns cenários, mas que sejamos nós a decidir com elas, nunca em substituição", diz, na Terceira Conferência Bola Branca.

Vítor Matos, antigo adjunto de Jurgen Klopp, concorda: "Acho que a IA nunca vai conseguir prever o momento em que o Neymar inventa um livre que não dá para prever, há esse lado espontâneo".

"Já estamos a avaliar os padrões, mas acho que não teremos máquinas ou algoritmos que nos ajudem durante o jogo, terá sempre a ver com a nossa intuição", diz Pedro Caixinha, treinador de futebol com passagens recentes pelo Santos, Red Bull Bragantino, Tallweres, Santos Laguna, Al-Shabab e Cruz Azul.

Matos, que durante muitos anos esteve no Liverpool, explica que Jurgen Klopp era um treinador "com uma grande abertura a tudo."

"Sempre foi muito aberto à inovação, à neurociência e a deixar entrar outras áreas no futebol. É importante ter uma cultura de clube nesse sentido. No "scouting", depende da visão do clube, mas o Liverpool investia muito em IA no controlo de dados, um lado mais informativo para enquadrar jogadores na ideia de um treinador. Isso permite ser mais eficaz quando vais ao mercado e tomares decisões mais rápidas", explica.

Pedro Caixinha lembra treino com Neymar. "Fez uma paradinha no livre direto"
Pedro Caixinha lembra treino com Neymar. "Fez uma paradinha no livre direto"

Ainda sobre dados, os treinadores concordam que a recetividade dos jogadores depende de cada um. João Carlos Costa diz que "normalmente, os jogadores são muito recetivos", mas há um lado negativo.

"Gostam de saber como fizeram, como estiveram, mas pode levar a um erro que é a comparação, os dados podem ficar enviesados pelas comparações, porque não se pode comparar tudo, quem foi mais rápido e quem correu mais, porque depende das funções e do contexto. Assim, o dado deixa de fazer sentido", argumenta.

Vítor Matos concorda que "há jogadores que são mais intuitivos e conseguem relativizar os dados": "Entendem que não são uma tradução limpa e clara do rendimento, mas há uma curiosidade da parte deles."

Pedro Caixinha exemplifica com Neymar Jr., que treinou recentemente no Santos.

"Num jogo treino, tivemos um livre no limite da área. Ele fez uma paradinha num livre, a barreira saltou, ele calculou o 'timing' e depois colocou por cima. Perguntei-lhe se alguma vez tinha feito antes, ele disse que não, que fez porque sim, que teve a perceção que iriam saltar e tentou acertar no 'timing'", conta.

Os técnicos também concordam que é preciso dosear e filtrar a informação, principalmente durante o jogo. João Carlos Costa exemplifica o que acontece no Milan de Conceição.

"Conseguimos mostrar duas ou três sequências de algo que está a acontecer, porquê e como podemos mudar. Mas tem sempre de ser algo curto, às vezes pode ser por isso que chegamos tarde à segunda parte", brinca.

Vítor Matos exemplifica a sua experiência e diz que nenhum dos analistas no Liverpool dava indicações durante o jogo a partir das bancadas: "Nenhum elemento do 'staff' se sentia confortável, porque essa leitura podia inflingir uma decisão. Um adjunto saía mais cedo para o intervalo, juntava-se ao analista e montavam imagens que mostravamos, ou não, ao Klopp."

Os dados podem limitar os jogadores?

O exagero no controlo, partindo da abundância de informação, é um risco presente para os técnicos.

"Se não prepararmos a informação, isso pode limitar um jogador, dependendo de como vê se sente o jogo", diz Pedro Caixinha.

João Carlos Costa dá outra visão: "Os dados podem ser fundamentais para convencermos um jogador. Suponhamos que um jogador está com muitas perdas e decide menos bem, eu tenho essa avaliação qualitativa, mas termos os dados dá outra convicção".

Acrescenta que, ainda assim, é preciso "saber integrar" os mais criativos, dentro e fora de campo: "Hoje podemos estar menos flexíveis a que alguém que não respeita tanto as ideias integre o nosso espaço, quer seja em termos de personalidade. Normalmente um jogador muito criativo pode ser menos cumpridor fora de campo, mais extrovertido, e é preciso saber integrar."

Caixinha tem muita experiência no continente americano e lamenta que a falta de criatividade esteja relacionada com o fim do futebol de rua.

"Ainda se vê futebol de rua na Argentina, no Brasil já não. Eu não vi. Essa criatividade e cultura existe na Argentina e aqui, em Portugal, temos academias que formatam e formatam os jogadores. O jogador português é muito organizado, muito conhecedor do jogo, mas deixamos de ter o desequilíbrio nato e esse espaço é fundamental", conclui.

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