12 nov, 2025 - 11:43 • Inês Braga Sampaio
O presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, garante que "ninguém irá arrebentar com nenhum árbitro", após a polémica que estalou nas últimas semanas. Qualquer árbitro que desça de divisão será por demérito, e "jamais por interferência de quem quer que seja".
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Em conferência de imprensa de análise ao trabalho feito nas dez primeiras jornadas, esta quarta-feira, Gonçalves e o diretor técnico da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Duarte Gomes, revelam que foram analisados, até agora, nas provas com videoárbitro (VAR) — I e II Ligas e Taça da Liga masculinas, e I Liga feminina —, 1.308 clipes.
"A taxa de acerto registada foi de 97%, em relação ao parecer técnico e avaliação dada na secção de classificações dos observadores, que é absolutamente independente deste processo de análise. Aquilo de que se fala, muitas vezes, são os outros 3%. Fala-se pela consequência, pelo impacto e pela visibilidade", lamenta Duarte Gomes.
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"Por momentos de desconcentração, por terem o foco no local errado. Porque estão muitas vezes mal colocados, mal posicionados em relação ao lance. Porque o lance é muito difícil, cinzento, de fronteira, suscetíveis de criar dúvidas. Por inexperiência. Por incompetência momentânea, o árbitro simplesmente não foi competente naquele momento, não se lembrou da regra. Também erra porque é ludibriado", explica.
Numa referência ao relatório de Gustavo Correia após o Benfica-Casa Pia, em que o diretor-geral para o futebol do Benfica, Mário Branco, dirigiu insultos e ameaças ao árbitro, Luciano Gonçalves sublinha, por sua vez, que, na FPF, "ninguém rebenta ninguém".
"Ninguém irá arrebentar com nenhum árbitro. Se um árbitro descer, será por ter tido uma época menos positiva e jamais por interferência de quem quer que seja. Infelizmente, as duas ações estão a ir buscar aquilo que de pior tivemos há alguns anos. Esperamos que tenham sido casos isolados", frisa, também em relação ao caso da alegada televisão no balneário de Fábio Veríssimo, no Estádio do Dragão.
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Gonçalves informa, ainda, que, depois do que foi exposto nos relatórios, os dois casos estão agora nas mãos das entidades competentes.
"Da parte da arbitragem, foi feito o que devia. Claramente que ambas as situações têm o objetivo de criar pressão no árbitro, no jogo, e na arbitragem no seu todo", condena o líder do Conselho de Arbitragem (CA).
A solução é "treinar mais, treinar melhor, detetar os erros, perceber por que motivo acontecem": "Trabalhar, trabalhar, trabalhar."
Luciano Gonçalves assume que o objetivo da nova liderança é "trabalhar diariamente para que cada vez exista uma taxa de acerto maior".
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O presidente do CA vinca também que "não houve nenhum pedido de reunião de clube que não tivesse tido resposta" do órgão federativo, que "será sempre parte da solução e nunca parte do problema".
"Não continuaremos satisfeitos enquanto houver erros. Queremos a perfeição, mesmo sabendo que é utópico. Todos nós sabíamos que ia ser desafiante. Nestas primeiras dez jornadas, estamos surpreendidos pelo ambiente que começou a ser criado, e foi muito mais cedo. Sabemos perfeitamente que isso não tem apenas e só a ver com os erros dos árbitros. Estamos cá para assumir esses erros e trabalhar diariamente para que eles sejam melhores e tenham taxa de acerto muito acima destes 97%. Mas infelizmente teimamos em não valorizar o que é bem feito. Estamos aqui para dar a cara", assinala.
A melhoria dos desempenhos dos árbitros "é um processo" e "as coisas demoram o seu tempo". Algo que "não pode servir de desculpa", reconhece Duarte Gomes, o diretor técnico da FPF para a arbitragem.
"Não estamos imunes ao ruído exterior. Sabemos que neste momento ele é mais corrosivo. Não nos escondemos dele e aproveitamos daquele que é o ruído que entendemos ser construtivo, momentos de aprendizagem. Aprendemos com a crítica construtiva e que faz sentido. E neste período, ouvimos e lemos coisas que fazem sentido. Infelizmente, na sua maioria, não fazem, mas isto faz parte das regras do jogo, estamos numa classe escrutinada. Os árbitros estão habituadíssimos à pressão e a lidar com o aparato excessivo que acontece, nós sabemos, tantas vezes de forma estratégica, por vezes de forma direcionada", refere.
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O antigo árbitro sustenta que a arbitragem tem "um rumo definido a quatro anos porventura a oito e a 12", dependendo da extensão do mandato da direção liderada por Pedro Proença, presidente da FPF.
"Não vamos vacilar no nosso caminho, independentemente das tempestades que venham. Haverá momentos em que erramos, em que vamos recuar, em que reconhecemos que não estivemos bem, e vamos assumi-lo com toda a frontalidade. A neblina de não dizer nada já não é a nossa postura e não é a nossa arbitragem", atira.
Luciano Gonçalves acrescenta que "jarras é para flores", pelo que o Conselho de Arbitragem "jamais irá fazer jarras por os jogos correrem mal ou por pressão exterior". O que se faz com os árbitros, diz, é "gestão".
"O Conselho de Arbitragem assumirá os seus erros, responsabilizará os erros dos árbitros, mas jamais irá gerir com pressão externa ou outro ruído que não tenha a ver com a nossa leitura e gestão, sempre com o princípio de responsabilização do erro. É muito importante que os árbitros sejam defendidos e valorizados, mas também responsabilizados. (...) Não é por um clube não gostar deste ou daquele árbitro que não o vamos nomear. Isso nunca vai acontecer", garante.
Duarte Gomes acrescenta que "quem achar que os árbitros não são penalizados está enganado; são e muito": "Um mau jogo tem consequências a nível pessoal e familiar para o próprio árbitro. Claro que queremos que eles se sintam responsabilizados, temos de assumir as consequências. O fator económico inerente a uma não nomeação, a classificação afetada, a autoestima derrotada por ser sancionado por um erro e a exposição pública."
Num olhar para o futuro, Luciano Gonçalves define o objetivo de continuar a alargar o acesso a dérbis e clássicos, assim como de formar cada vez mais árbitros: "Queremos triplicar o número de árbitros."
Para isso, assume, é necessário fomentar um ambiente mais apelativo para que os jovens queiram fazer carreira. Em janeiro, será apresentado o Plano Nacional de Arbitragem, que será a "bíblia" da classe.
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O que está fora de questão é o recrutamento de árbitros estrangeiros: "Confiamos muito nos nossos árbitros, que são reconhecidos a nível internacional como de muita competência. Jamais iremos sentir necessidade de ir buscar árbitros ao estrangeiro para arbitrar os nossos jogos, a não ser que se integre em ações de formação. Jamais iremos buscar árbitros ao estrangeiro por incompetência dos nossos árbitros."
O presidente do Conselho de Arbitragem defende, por fim, que os Regulamentos Disciplinares do futebol português "deviam ser mais punitivos".
"Não queremos punir, queremos é que essas situações não aconteça. Se tiver de ser pela via punitiva, que assim seja. A própria APAF irá apresentar à Liga uma sugestão de alteração ao Regulamento Disciplinar para a próxima época. O que queremos todos é que estes episódios não aconteçam. Terá de haver uma alteração de regulamentos, para que passem a ser mais punitivos", defende Luciano Gonçalves.