07 jan, 2026 - 11:45 • José Pedro Frazão , Hugo Tavares da Silva
Como a liberdade não se belisca e cada um pode dizer o que entende (dentro dos limites da lei), são os clubes que se têm de afastar de certas ideias e mensagens. É essa a opinião de Carlos Freitas, diretor desportivo com 25 anos de carreira e convidado do primeiro programa “Da Capa à Contracapa” de 2026.
“Acho que a forma como se trata o futebol diariamente tem de ser repensado. Não se pode impedir as pessoas de comentar e dizer o que quer que seja (...), mas acho que os clubes têm a obrigação e vão ter a necessidade de se demarcarem de alguns comentários que são feitos diariamente nas televisões, rádios e jornais”, defende o dirigente e comentador televisivo.
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Freitas cola esse ambiente tóxico ao afastamento das pessoas dos estádios. “Algum tipo de mensagens leva a que alguns pais até tenham dificuldade em deixar os filhos irem ao futebol ao fim de semana.”
O problema vai mais além, avisa. “Criou-se em Portugal a cultura de que quem ganha, independentemente de quem seja, não ganha por mérito. Ganha porque é mais libidinoso do que os outros…”, reflete, visando o tal ambiente inflamado pela 'clubite' de alguns intervenientes. No fundo, denuncia, criam suspeita sobre a verdade desportiva das competições.
“Queremos vender este tipo de produto por 300 milhões quando França, que tem uma população seis vezes maior que a nossa, acaba de vendê-la por 81 milhões. Leva a vários pontos de interrogação pelo caminho que estamos a seguir.”
No futebol europeu, janeiro é o mês intercalar de transferências de jogadores. Durante o último verão foram batidos os recordes de investimentos no futebol masculino chegando a 8,4 mil milhões de euros. Portugal foi o segundo país com mais contratações em 2025. Os milhões estão também a aumentar no futebol feminino, com 80% de crescimento no investimento em 2025.
Apesar das movimentações dos clubes portugueses, conclui-se facilmente que os futebolistas talentosos de outros tempos, nomeadamente provenientes da América do Sul, já não aterram em Portugal. Se o mercado está inflacionado, é verdade também que a perda de influência dos fundos poderá ter algo que ver, pelo menos por cá.
“Eu lembro que durante a existência dos fundos Portugal teve a capacidade, entre 2003 e 2014, de colocar quatro clubes diferentes em finais europeias”, nota Carlos Freitas.
“A região de Paris tem 1,2 milhões de jogadores federados, Portugal tem 250 mil em todo o território. É notável, e isso tem a ver com a capacidade que os clubes tiveram nesse período histórico de serem competitivos, mas também o acesso, através dos fundos, de fazerem chegar a Portugal jogadores que hoje em dia não têm a mínima hipótese de recrutar, tendo em conta a forma como o mercado se passou a movimentar.”
A entrada de investimento forasteiro foi outro tema do “Da Capa à Contracapa”, que também recebeu Miguel Farinha, o Country Managing Partner da EY Portuguese Cluster, a entidade que elabora o Anuário do Futebol Profissional em parceria com a Liga Portugal.
“Quanto à abertura de investimentos estrangeiros, sou o mais aberto possível, desde que seja regulado”, confessa Carlos Freitas. “Ainda há passos para dar, porque acho que, em alguns casos, um determinado nível de investimento devia obrigar não só ao reforço momentâneo de uma equipa de futebol, mas devia obrigar, por exemplo, a um incremento a nível infraestrutural de algumas regiões. E isso acho que é fundamental”, defende.
O dirigente considera que a partir de um determinado investimento deve estar “consignado” que essa entidade ficaria obrigada a construir mais um determinado número de campos relvados, por exemplo.
Mais sensível é o tema da propriedade das SAD. Por cá, inúmeros clubes são detidos por grupos estrangeiros, como o Moreirense e Alverca, só para dar dois exemplos mais mediáticos. Para Carlos Freitas, é válido tanto a orientação legislativa de manutenção da maioria por parte dos clubes, como acontece na Alemanha, como a possibilidade de ser vendida a maioria do capital da SAD e assim os clubes, os sócios, deixarem de ter qualquer poder.
“O que eu preconizo é que, como em qualquer sistema, tem que haver uma regulação forte e que se faça sentir. Do Estado e das federações”, esclarece.
Oiça aqui o “Da Capa à Contracapa”, um programa da Renascença moderado pelo jornalista José Pedro Frazão.