4ª Conferência Bola Branca
João Couto: "O futebol mundial tem o foco voltado para os miúdos de 16 ou 17 anos"
25 mai, 2026 - 17:14 • Luís Aresta
Na antecâmara da 4ª Conferência Bola Branca, a Renascença conversa com João Couto, antigo coordenador de formação do Sporting, no âmbito do tema "Excelência no Futebol".
A três dias da 4ª Conferência Bola Branca, que se foca nos caminhos para a excelência no futebol português e mundial e faz a transição entre o fim das ligas profissionais, a conclusão das principais competições europeias de futebol e o arranque da preparação final do Campeonato do Mundo, a Renascença entrevista um homem que conhece como funciona uma fábrica de talentos.
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João Couto, antigo coordenador da academia do Sporting, em Alcochete, reflete sobre a formação e o futebol jovem em Portugal.
Saiba tudo sobre o evento, agendado para dia 28 de maio, que contará com nomes como Luís Montenegro, André Villas-Boas, Pepijn Lijnders, Antonio Gagliardi, Pedro Proença e Reinaldo Teixeira.
A 4ª Conferência Bola Branca vai ter como tema “A Excelência no Futebol”. Que significado atribui a este conceito?
Vou enquadrar a resposta na experiência que eu tenho, mais no futebol de formação. Estamos sempre a pensar em atingir o mais alto nível, mas a excelência é uma meta, nunca se atinge. Eu posso falar mais naquilo que nos aproxima da excelência. A excelência implica máxima qualidade, superação, eficácia, implica um processo contínuo de superação diária.
O que é que acontece? Por vezes, nós pensamos que nos estamos a aproximar da excelência e já não estamos, não é? Há outros a trabalhar melhor. Por isso, se não controlamos os aspectos todos, afastamos-nos da excelência. Mas a excelência é sempre uma visão, é sempre uma meta que os clubes querem atingir.
E que aspetos são esses a que se refere?
Refiro-me à uniformização de todo o processo formativo de um clube, na tentativa de que o clube consiga ter bons valores, bons jogadores que joguem a alto nível um dia, ou de imediato. É evidente que o futebol mundial, neste momento, incide um bocado sobre os miúdos de 16 ou 17 anos, tem um foco muito voltado para esses miúdos, porque são atrativos em termos de mercado; isto quer dizer que os clubes têm de estar preparados para, de repente, lançar no futebol mundial um miúdo de 16 ou 17 anos.
Por isso, têm de ter uma formação de excelência, não é? O que dizem da excelência, tem que se aproximar dessa excelência. Por isso, têm de ter um trabalho uniforme, processado, muito orientado, muito supervisionado, para conseguir esses bons produtos. Não é trabalhar para a equipa só para ter bons resultados, é trabalhar efetivamente para o jogador e ter os jogadores constantemente preparados para isso.
4ª Conferência Bola Branca
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O João Couto certamente está atento às academias de futebol em Portugal, às maiores e às mais pequenas. Estamos a cometer erros ou estamos no caminho certo, do seu ponto de vista?
Eu acho que há pontos em que estamos no caminho certo. Posso apontar aqui três pontos para não ser fastidioso. Há clubes no nosso topo, não é? Grandes, e alguns de segunda divisão e de segunda liga, que trabalham no sentido dessa excelência, mas tem de ser controlar todo o processo. Quando se apresentam documentos muito bem feitos, muito trabalhados, há que traduzir esses documentos em controlo, em supervisão, em trabalho contínuo. Portanto, no fundo, o que conta é aquilo que se faz no treino, não é? Às vezes aquilo que se diz, aquilo que se pensa, não é efetivamente aquilo que se faz.
Mas há clubes a trabalhar muito bem, uniformizados, com um processo muito bem feito, com uma tentativa de que os miúdos, neste caso, da formação, passem de etapa para etapa com conhecimentos e valores muito bem estruturados.
Consegue nomear algum ou alguns clubes que, do seu ponto de vista, se têm destacado mais nestes últimos anos? Vamos encurtar aqui o espaço para os últimos cinco anos...
Claro, é evidente. Sporting, Benfica, Porto, Braga, e uma série de clubes que apareceram, como o Vitória de Guimarães ou o Famalicão. Com a intervenção dos patrocinadores, que olham, sobretudo, para as segundas equipas e as equipas de Sub-19, que evidentemente querem bons resultados na primeira equipa, mas também querem constituir valores de mercado. Esses clubes têm feito um bom trabalho. E não é só os quatro ou cinco clubes do nosso top; é toda a gama de clubes que trabalham de um sentido de ter bons jogadores.
Deveria haver mais apoios oficiais — refiro-me nomeadamente à Federação Portuguesa de Futebol — ao incentivo desta qualidade formativa nos clubes mais pequenos?
Eu costumo dizer que nós temos uma boa escola de formação de treinadores em Portugal.
E temos um apoio bom. Quando se fala na escola de formação de treinadores, é o apoio da Federação. As faculdades, toda uma série de instituições que têm vindo a trabalhar, mas sobretudo as faculdades, os cursos de treinadores, a Federação tem tido uma intervenção muito boa nisto, porque tem criado e ajudado a criar aqui a nossa escola de formação de treinadores. Quando os nossos treinadores são melhores, quando estão mais preparados, quando são mais competentes, têm uma função muito importante na passagem da mensagem e no processo formativo.
E quanto às questões materiais, as condições de treino, os equipamentos tecnológicos que hoje em dia se utilizam... Deveria haver mais apoio aos clubes menos capacitados financeiramente?
Sim, há apoio, mas somos um país pobre. Não nos podemos comparar com o top-5 da Europa. Tal como não podemos comparar com o número de jogadores que existe na América do Sul. Temos aqui alguns problemas e, dentro da nossa limitação, temos feito um trabalho muito bom, porque somos um país pequeno. Agora, tem de haver apoio, claro.
A maior parte dos jogadores em clubes mais abaixo, paga a sua mensalidade, não é? Há outros que não, clubes que oferecem a prática. Temos limitação nos apoios, mas a Federação apoia, até porque faz a atribuição das estrelas, de quatro, cinco estrelas. Isso implica que os clubes trabalhem dentro de uma norma que é colocada. Portanto, há apoio, só que não temos um apoio ao nível da Europa.
Quando fui diretor técnico visitei muitas academias da Europa. Há alguns países, como a França, a Inglaterra, eles invejam a nossa formação, não é? Invejam. Mas têm um caudal de instrumentos e de condições materiais que não têm nada a ver connosco.
Deteta no exterior tendências de formação diferentes daquelas que temos aqui em Portugal e que possam servir de exemplo aos nossos formadores?
Sim, há muita diferença. Há diferenças, mas eles tentam se aproximar daquilo que nós fazemos. Portanto, há um olhar muito grande e há um respeito muito grande pela formação em Portugal. Eles têm anseio, mas não precisam porque têm tanto dinheiro que compram os jogadores que querem. Não precisam tanto da formação como nós precisamos.
A nível de trabalho, há alguma uniformização na Europa porque as pessoas vão lendo a internet e há os contactos, os cursos aproximam um bocado as pessoas. Mas há formas de ver o futebol, diferentes. Há 40 anos que temos aqui conteúdos programáticos, práticas, uma política formativa, modelos formativos muito bons que têm vindo a evoluir e têm vindo a ser melhorada e às vezes não melhorada, também.
Concorda que um jovem de 16, 17, 18 anos entre em campo um ou dois minutos só para assinalar a estreia pela equipa principal?
Na minha opinião é caso a caso. Se calhar, um jovem que entre um minuto ou dois por aquilo que fez durante o trabalho anual é um prémio, não é? Mas isto não acredita a qualidade do jogador. Para ser lançado numa primeira equipa tem de ter tempo, tem de ter paciência, tem que de ter intervenção, tem de ter processo, não é? Mas é caso a caso, depende.
Eu não concordo, por exemplo, com a utilização de vários jogadores da formação só como "end-train". Claro, evita a entrada de outros jogadores aqui no nosso patamar, brasileiros e outros de outras paragens que só fazem o "end train"; evita, mas também perde um bocado o sentido do jogo. Eles têm de jogar, os jovens têm de jogar; se não jogam acima têm de jogar abaixo. A entrada na primeira equipa tem de ser uma entrada bem cautelada, bem conseguida.
E está de acordo com esta pirâmide competitiva estabelecida no futebol português com a passagem do sub-19 para as equipas B ou sub-23? Como é que olha para este esquema formativo em Portugal?
Na minha opinião, a questão do sub-23 tem uma razão histórica. Os sub-23 foram criados porque faltava preencher aquele espaço, aquela travessia no deserto dos seniores de primeiro e segundo ano que entravam no futebol e não tinham espaço. Foi criada a competição do sub-23 para o aparecimento desses jogadores e para esses jogadores terem tempo de competição. E foi muito bem feita, sem descida de divisão, com o jogo voltado para a frente, com o jogo pelo jogo, para acreditar e para relançar esses jogadores. Isso foi feito e está a ser feito e muito bem; há jogadores que passam do sub-23 para as primeiras equipas.
A “campeonite” é que começou a dar cabo disto, na minha opinião, ou seja, as pessoas começaram a voltar-se para quem é o campeão nacional de sub-23, e o modelo mudou, ou seja, há equipas de primeira divisão e de segunda divisão que as segundas equipas são essas de sub-23, com jogadores mais velhos. Mas eu concordo que faltava preencher ali esse espaço e veio a criar aqui uma zona de lançamento desses jovens. Temos exemplo, e não só com jogadores, treinadores também; há treinadores que saltaram do sub-23 para a primeira equipa e com razão, estão a fazer campeonatos excelentes, têm a competência para isso. Então, é um espaço não só formativo para os próprios jogadores, mas também para os treinadores. No caso do Moreirense, no caso do Torreense, do Vitória de Guimarães, os treinadores saltaram e mostraram-se competentes para isso.
A questão da pirâmide de que está a falar é que tem de se ver caso a caso. Há jogadores que não faz sentido andar dois escalões acima, se não têm capacidade para ter sucesso. A formação tem de ter sucesso; não se pode ter um jogador dois anos a jogar em patamares mais elevados quando ele não consegue ter sucesso, portanto, há que baixar, há que encarar, há que ver que o jogador tem condições para evoluir, mas se calhar nesse patamar não. Há que equilibrar estas subidas, não é só subir por subir, é supervisionar, controlar, e ver se esses jogadores estão a evoluir.
Há jogadores que nesta altura lhe despertem particular atenção aqui em Portugal? Jogadores que queira nomear como tendo maior potencial para atingir patamares de excelência no plano europeu e mundial?
Não quero nomear, eles estão nomeados...O [Geovany] Quenda, por exemplo, passou de um patamar para outro. Vou falar aqui de dois jogadores só a título de exemplo.
Há jogadores que não estão maturacionalmente [sic] completos e passam mal na sua formação porque não têm tempo, não têm capacidade, não têm rendimento para jogar nas equipas, porque estão atrasados maturacionalmente [sic]. São jogadores que só mais tarde é que vão entrar numa linha mais à frente. O caso do Salvador Blopa, por exemplo. O Salvador Blopa teve dificuldades em termos de maturação, faltava-lhe essa maturação. Quando conseguiu o patamar, o pontapé que deu na sua intervenção são minutos que retardados em termos maturacionais, que acabam por chegar mais à frente, com mais tempo. Portanto, é preciso ter um olhar, é preciso acreditar. O Salvador Blopa, por exemplo, manteve-se dentro do Sporting e entrou.
Mas temos outro exemplo com o Chiquinho, que esteve no Sporting e saiu. É uma saída que tem de ser feita para acreditar a sua formação. Também atrasado maturacionalmente [sic[, naquela altura, teve que sair e só mais tarde é que chegou ao futebol profissional quando teve completa a sua maturação. Portanto, isto é caso a caso.
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Vamos aqui a ouros dois casos, talvez paradigmáticos, que eu gostava que comparasse. São dois casos do Benfica, João Félix e João Neves. O que pode ter corrido bem e mal nestes dois jogadores?
Não conheço nenhum dos dois. Não estive com eles e não tenho uma opinião muito concreta. Sei que o João Félix demorou a entrar. Tem qualidades muito boas, mas os jogadores não se fazem todos ao mesmo tempo, não têm todas as mesmas características. Portanto, há que cuidar dessas características. Há que saber esperar. Há que saber influenciar.
Quanto ao João Neves, é um jogador completo. Eu sou fã do João Neves quando ele joga. Não conheço a sua formação; conhecia-o sim como opositor e tínhamos algumas referências de que ele estava a evoluir.
Voltaria a trabalhar na Arábia Saudita?
Claro, claro que sim. A Arábia Saudita tem coisas engraçadas. Foi num tempo diferente. Eu gostava de ver o tempo de agora. É um tempo com mais competência, com outras condições, uma intervenção diferente, com uma mentalidade diferente. Na minha altura a questão é: ou ganhas e és o maior ou perdes, e tens de sair.
Nesta condição, se calhar, a situação ainda é igual, mas em termos de condições, são espetaculares. Eles têm o que querem. O que lhes falta são os jogadores que nós temos. A mentalidade deles não é diferente. É uma questão de comparação. Gostava de trabalhar, é evidente. Sim, não sei se queria ou não. Mas é um desafio porque eu gostei muito de estar na Arábia. E fui campeão na Arábia. Tenho algumas saudades. Mas saí de lá, não aceitei ficar dois anos mais no meu contrato. Portanto, também não sou "persona grata" na Arábia.
Vamos à última questão. Fala-se muito na formatação dos jovens futebolistas, que há cada vez menos espaço para os irreverentes, para os vadios do futebol, vamos dizer assim. Rodrigo Mora é um bom exemplo de que deve ser dada liberdade a um jogador destes para, cá está, maturar dentro das suas características?
Sou um bocado crítico do futebol atual, portanto, tenho mais tempo para ver. Não sei se consigo responder a esta pergunta assim tão simples. Acho que o futebol é um misto entre ciência e arte. A ciência moderna tem vindo a traduzir muitos aspectos positivos com a internet, com a IA, com todas as ferramentas informáticas que nós temos. Mas a ciência antiga também tem vindo a dar um "boom" ao nosso futebol e tem sido contínuo. Há que aceitar a ciência antiga e misturá-la com a ciência moderna, mas a arte é fundamental. A arte do treinador, o "olhómetro" do treinador, a sensibilidade do treinador tem de estar sempre vigente. Portanto, este equilíbrio entre ciência e arte é aquilo que o treinador faz no treino.
O jogo agora está muito monocórdico, muito monótono, muito parado. Falta uma série de condições. Uma dela é essa: desequilíbrio, falta corredor lateral. As equipas têm de ter velocistas. Os desequilibradores nos corredores laterais têm grande vantagem, sem dúvida nenhuma. Falta dar liberdade aos jogadores. O jogo tem de ter mais movimento; não pode só ter posicionamento e melhorarmos o corredor central. Portanto, estes jogadores, tipo Rodrigo Mora, Quenda ou Pêpê são fundamentais porque desequilibram as linhas defensivas. São jogadores desequilibradores, fantasistas, que dão um cunho diferente ao jogo e são sempre considerados importantes.
Portanto, esta gente, estes jogadores com esta capacidade, têm de estar envolvidos e o treinador tem de esperar que eles desequilibrem com a sua cabeça. Quando se formata os jovens, quando se olha só para a equipa, só para as questões, por exemplo, da manutenção de posse-bola...Há aqui uma questão: os treinadores são loucos pelas saídas da primeira fase de construção, pela manutenção da posse de bola, pelo jogo para o corredor central. A grande finalidade, ou seja, o objetivo do jogo, é progredir para finalizar, é chegar ao golo, mas às vezes temos situações de jogos em que há pouca acutilância sobre a linha da área e há poucos remates. Temos de mudar isto. Estes jogadores que têm a capacidade para isso, são sempre atuais.
- Bola Branca 12h44
- 17 jul, 2026









