Ténis
Loïs Boisson, a primeira "wild card" da história a chegar às meias-finais de Roland Garros
04 jun, 2025 - 19:00 • Inês Braga Sampaio
A tenista francesa, de 22 anos, que ocupa apenas a 361.ª posição do "ranking" mundial, ultrapassou as números 22, três e nove, entre outras, para chegar às quatro melhores em Paris.
Loïs Boisson, número 361 do mundo, nunca passara da qualificação num torneio do Grand Slam e tinha angariado um total de 130 mil euros em toda a carreira, antes de dar a primeira pancada na bola amarela em Roland Garros. Uma semana e depois, já amealhou 690 mil euros, cerca de cinco vezes mais, e tornou-se a terceira tenista com "ranking" mais baixo a chegar às meias-finais de um Major nos últimos 30 anos.
Tudo começou com um "wild card" oferecido pela organização. Tenista francesa — nascida em Dijon —, de apenas 22 anos e com potencial. Vencera o primeiro título WTA 125 em 2024, o que lhe permitira entrar no "top-200" pela vez desde que se tornara profissional. Porém, mesmo antes de se estrear em Roland Garros, sofrera uma rotura do ligamento cruzado anterior, que lhe arrancara das mãos a possibilidade de disputar um dos maiores torneios do ténis mundial em casa, perante o seu público.
Este "wild card" foi uma segunda oportunidade para a jovem Loïs, depois da desilusão do ano passado. E que aposta a da organização, que viu Boisson derrubar obstáculo pós obstáculo até ao lote das quatro melhores de Paris. Começou logo com a belga Elise Mertens, número 22 do mundo; não é de todo incomum favoritos serem surpreendidos nas rondas iniciais. Seguiram-se dois duelos mais acessíveis: a ucraniana Anhelina Kalinina, 113.ª, e a compatriota Elsa Jacquemot, 138.ª.
Primeiro a número 3, depois a número 9
Foi à quarta ronda que Boisson deixou mesmo o público e os comentadores de Roland Garros de queixo caído. Perante a norte-americana Jessica Pegula, atual número três mundial e finalista do último US Open, a francesa até começou a perder, mas conseguiu dar a volta nos dois sets seguintes e avançar para os quartos de final.
Podia ter sido um feito isolado, no entanto. Um laivo de brilhantez fortuito rapidamente abafado pela maior qualidade e/ou experiência da adversária seguinte. Até porque a próxima na lista era a russa Mirra Andreeva, a nova coqueluche do ténis, que aos 18 anos já é a número seis da hierarquia mundial. Seria este o último capítulo de uma já histórica caminhada de estreia na terra batida de Passy? Qual quê.
Diante de Andreeva, a francesa sobreviveu ao "tie break" do primeiro set, que venceu por 7-6 (8-6), e no segundo resolveu com tranquilidade, para 6-3. Dois parciais de uma vez e rumo às meias-finais. É a primeira francesa que lá chega desde Marion Bartoli, em 2011. E é a primeira "wild card" da história a chegar às quatro melhores de Roland Garros.
Pancada forte e controlo das emoções
Ajuda a sua "forehand" — pancada com a mão dominante —, que frente a Pegula chegou às 3.851 rotações por minuto. Mais forte que a polaca Iga Swiatek, a principal referência nesse aspeto entre a vertente feminina, que chegou às 3.588 rotações por minuto frente à ucraniana Elena Rybakina na quarta ronda. É uma pancada mais poderosa que muitos homens: os atuais melhores do mundo, o espanhol Carlos Alcaraz e o italiano Jannik Sinner, são dos únicos que roçam os quatro mil.
O desporto corre-lhe nas veias: o pai, Yann Boisson, foi jogador de basquetebol e representou equipas da elite francesa, como o ASVEL, o Dijon e o Tours. Também foi agente, treinador e dirigente.
Talvez seja isso que lhe dava, quando era mais nova, aquela mentalidade de desportista obstinado, resmungão, que se zanga quando perde. Palavra do treinador que descobriu Loïs Boisson e a treinou até aos 12 anos.
"Ela tinha uma personalidade muito forte. Eu tinha de ser muito paciente, era um grande desafio. Fazia birras e tinha de ser acalmada, às vezes até tínhamos de tirá-la do 'court'. Era muito perfecionista, por isso ficava tão frustrada quando perdia. A pouco e pouco, aprendeu a controlar as emoções. Agora, vejo-a calma nos 'courts", recorda Patrick Larose, em declarações à estação televisiva francesa Ici, esta quarta-feira.
Ainda assim, o treinador viu grande potencial em Loïs, de apenas oito anos, quando ela pegou pela primeira vez numa raquete. E assim disse aos pais dela: "A vossa filha é mais que talentosa, é um diamante."
Seguem-se Gauff e escalada no "ranking"
O diamante foi lapidado e, agora, brilha perante o seu público, em Roland Garros. Loïs Boisson sabe que, depois de chegar às meias-finais, tem garantida uma escalada de quase 300 lugares no "ranking" WTA: será, no mínimo, a nova 68.ª classificada. A próxima rival é a norte-americana Coco Gauff, atual número dois mundial e vencedora do US Open 2023.
Aconteça o que acontecer, Boisson já fez história e conquistou o seu lugar nos registos do ténis francês e mundial. Não obstante, vale a pena o exercício: caso ultrapasse Gauff, chegará ao 35.º lugar da hierarquia mundial; e se vencer? Disparará para a 21.ª posição, às portas do "top-20". Isto para uma tenista que chegou a Paris no 361.º lugar.
A verdade é também que este não será, certamente, um caso de queda imediata após um grande sucesso. A grave lesão em 2024 tirou-a dos "courts" até ao início de 2025, o que quer dizer que Boisson não tem mais pontos a defender este ano. A partir de agora, já não perderá pontos.
A responsabilidade está, por isso, toda do lado de Coco Gauff, que luta pela segunda coroa num torneio do Grand Slam. Do duelo entre a norte-americana e Loïs Boisson, na quinta-feira, a partir das 15h10, será a segunda finalista de Roland Garros. A primeira será conhecida antes, entre as duas titãs dos últimos anos do ténis, as duas únicas líderes da hierarquia desde 2022: Iga Swiatek e a bielorrussa Aryna Sabalenka.
- Bola Branca 12h44
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