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Europeu de Basquetebol

“Não vamos estar aqui com ilusões, mas acredito que a 2.ª fase é possível”: o selecionador e a estreia no Euro

19 jun, 2025 - 08:35 • Carlos Calaveiras

Ricardo Vasconcelos explica o que vem aí no Europeu de basquetebol e confessou que não vale a pena colocar demasiada “pressão” nas jogadoras. "Esta etapa histórica é bonita, mas é vazia se nada vier depois disto."

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A seleção portuguesa de basquetebol feminino defronta, esta quinta-feira, a Bélgica na primeira jornada do Europeu da modalidade. As "linces", alcunha pela qual são conhecidas as jogadoras lusas, vão estrear-se numa fase final de um Euro.

Ouvido pela Renascença, o selecionador Ricardo Vasconcelos está confiante numa boa prestação. Os dois primeiros adversários são mais fortes que Portugal, mas num jogo só, tudo é possível. Já a partida contra Montenegro pode representar a primeira vitória portuguesa neste evento.

A fase final do Eurobasket feminino realiza-se de 18 a 29 de junho, na República Checa, Alemanha, Itália e Grécia. Portugal está no Grupo C, com Bélgica (dia 19), República Checa (dia 20) e Montenegro (dia 22).

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Faltam poucas horas para o primeiro jogo. A seleção está pronta para esta estreia inédita?
Está, está pronta e motivada. Obviamente que os níveis de ansiedade, conforme vamos chegando ao momento, aumentam porque toda a gente quer que a bola vá ao ar. Mas Portugal está pronto e toda a preparação foi bastante positiva e agora é desfrutar do momento.

A ideia agora será baixar ansiedade das atletas e ir aos detalhes das adversárias.
Bem resumido, é esse o ponto onde estamos. A preparação está praticamente feita. Podemos polir pequenos detalhes e, acima de tudo, referir-nos ao plano de jogo porque cada adversário obriga-nos a preocupações diferentes. Estamos a limar arestas e, acima de tudo, pôr as ideias muito claras para cada um dos jogos.

Como são as adversárias de Portugal na primeira fase? Bélgica, República Checa e Montenegro.
A Bélgica é a atual campeã europeia. É capaz de ter a melhor jogadora da Europa neste momento, é uma equipa que tem uma junção de três gerações muito completa com todas as posições do campo e jogadoras muito experientes e muito habituados a estes palcos. Há dois anos foram campeãs europeias e vai ser um adversário bastante difícil. Têm muita plasticidade e muitas jogadoras, têm mobilidade, apesar de serem altas. É uma equipa em que os erros se pagam muito caro, são muito agressivas defensivamente. É o tubarão e a cabeça de série do grupo. É, realmente, um jogo difícil e em que tem de haver muito rigor tático para saber onde explorar pontos frágeis delas e sabemos onde são os pontos fortes delas e ter as ideias muito claras na altura de tomar decisões defensivas.

E as checas...
A República Checa joga em casa, o que, por si só, é sempre uma mais-valia nestas coisas. Quem joga em casa tem muita gente no pavilhão a ajudar. É uma equipa que tem postos mais pesados, não tão móveis. Tem duas lançadoras fortíssimas. É, claramente, a segunda equipa de melhor ranking e é a que tem mais aspirações de passar à fase seguinte das equipas que vamos enfrentar. Obrigatoriamente obriga-nos a aumentar as defesas no campo, a subir as linhas e ser mais agressivos no campo inteiro. Vai-nos obrigar a reduzir o tempo que possa jogar em meio-campo para não explorar tanto as suas jogadoras grandes. Vai-nos obrigar a um plano diferente do jogo com a Bélgica, mas, claramente, é também um dos rivais a temer.

Certo.
O Montenegro é uma equipa que, apesar de ter muita tradição, está a passar uma fase de transição, de alteração de jogadoras e à procura de voltar a estar no topo. Neste momento, não é uma equipa tão forte como as outras duas. Tem uma norte-americana muito forte, nacionalizada, e que está magoada. Nenhum de nós ainda sabe 100% se ela vai ou não participar e isto muda muita coisa e contra Portugal mais ainda porque a sua potência é interior e é onde nós acabamos sempre por ter mais dificuldade. Ainda assim, é claramente o rival que está mais ao nosso alcance, é a equipa que revela ter menos consistência. Tem boas jogadoras, tem alguma experiência, mas não tem tanta quantidade de jogadoras. É a equipa que vai, juntamente connosco, tentar surpreender os seus adversários mais potentes.

Portugal estreia-se no Europeu, não terá tanta responsabilidade, mas qual é o objetivo? Não vai fazer turismo, seguramente.
Não, nem pensar, nem pouco mais ou menos. Chegar aqui obrigou-nos a tanto trabalho e a tantos anos de dedicação que é fundamental não perder o norte. Temos que desfrutar disto. Não nos podemos pôr uma pressão tão grande, que depois quase que entupimo-nos connosco mesmo. Não podemos ser os nossos melhores adversários. A inexperiência paga-se, de alguma maneira, e a nossa aqui ou ali vai ter que aparecer, mas o que nós realmente queremos focar muito é fazer uma vitória na Europa, porque se nunca cá estivemos, também nunca ganhámos.

Hmm.
E, portanto, o primeiro [objetivo] é ganhar um jogo. Quando é que ganhamos esse jogo é que nos vai permitir sonhar com algo mais ou não. Se essa vitória só vier no último dia dificilmente podemos sonhar com a continuidade na prova. Mas se essa vitória chegar no primeiro ou no segundo dia, a partir daí podemos começar a pensar nas nossas hipóteses e ver que possibilidades temos de passar à fase seguinte, o que seria algo extraordinário porque estar numa das oito melhores equipas da Europa era qualquer coisa extraordinária.

Não sabemos se isso é possível. Agora, o basquetebol tem uma particularidade bastante interessante: não há empates. Só podemos jogar para ganhar. Precisamos de uma vitória e quanto mais cedo essa vitória chegar - que é a nossa próxima história - mais depressa podemos recalcular e entender se a nossa vontade, se a nossa ilusão, se todos os nossos sonhos são possíveis ou não de poder realizar e dar um passo mais na prova.

Resumindo, vai ser muito difícil, mas não é impossível.
Não se pode dizer que é impossível. Da análise que temos feito dos adversários, sabemos que a vitória perante o Montenegro é possível – não sendo fácil, é possível. Contra a Chéquia e a Bélgica partimos, obviamente, com muito menos possibilidades, mas recorde-se que isto é só um jogo. E quando só se joga um jogo, todos os resultados são possíveis.

Os pontos fortes da Bélgica e da Chéquia são superiores aos pontos fortes de Portugal, mas num jogo bem realizado e com um plano de jogo adequado podemos tentar surpreender qualquer um destes adversários. E se conseguimos surpreender um dos dois podemos pensar em sonhar com a segunda fase. Não é fácil. Não vamos estar aqui com ilusões de que é fácil, mas que é possível, eu acredito que seja possível. Precisamos que o jogo nos saia bem, que saia um jogo de perfeição, que as ideias estejam claras e que, obviamente, as percentagens de três pontos são fundamentais.

Hmm, hmm
Não somos uma equipa que pode lançar e marcar perto do cesto só porque não teremos essa capacidade física contra nenhum destes rivais, mas, se jogarmos com os ritmos adequados, e sabendo como explorar determinadas vantagens, podemos pensar numa vitória contra estes dois cabeças de série do grupo.

A seleção fez recentemente uma série de jogos de treino. Tirou boas ilações dos últimos particulares?
Tivemos jogos muito equilibrados e fomos competitivos com todas as equipas. Jogámos contra a Sérvia e contra a Espanha - que são equipas que podem chegar e pensar em medalhas -, fomos competitivos com uma Eslovénia - que tem possibilidades de passar à fase seguinte também. Ganhámos um jogo à Sérvia, perdemos outro, perdemos um jogo com a Eslovénia por um ponto, à Suíça ganhámos as duas vezes. Com a Espanha e com a Sérvia apresentámos resultados de competição inferiores a elas, mas inferiores na ordem dos 10 pontos. E esses 10 pontos, num bom dia, são facilmente recuperáveis.

O que nós sabemos é que temos capacidades para realmente dar jogos muito difíceis aos adversários. Não será normal para eles perderem com Portugal, isso é para o bem e é para o mal porque se o jogo não estiver a correr bem, vai enervá-los mais, vai pô-los mais desorientados.

Foi difícil decidir o corte final para as 12 convocadas?
É sempre muito difícil. Se alguns indicadores de algumas jogadoras foram um bocadinho mais evidentes e as próprias jogadoras entenderam que entre o papel que pedíamos e o que elas conseguiram desempenhar não tinha sido perfeito, após as últimas escolhas ainda mais complicado foi. Até pela carga emocional da decisão em si. Nós tínhamos que decidir quem é que fazia a melhor equipa. Porque, muitas vezes, as pessoas acham que são os melhores jogadores, mas os melhores jogadores não fazem a melhor equipa.

Nós precisávamos saber as pessoas que tinham um papel e as capacidades de desempenhar esse papel de forma mais adequada às necessidades do grupo. Foi para esses detalhes que estávamos a ver e acabamos por fazer escolhas. Escolhas baseadas na experiência, escolhas baseadas na capacidade de jogar três ou quatro minutos, porque um jogador pode ser ótimo para jogar 25/30 minutos no basquetebol, mas jogar três ou quatro minutos é um mindset diferente. E ajudar a equipa rapidamente não é um mindset fácil principalmente para jogadoras que, muitas vezes, nos seus clubes vêm de 35 minutos e com muita possibilidade de lançar muitas bolas e fazer muitas coisas.

Quando chegamos à seleção, o nosso papel, muitas vezes, é redefinido, reajustado para as necessidades da seleção e nem todos as jogadoras conseguem desempenhar tão bem papéis diferentes. E dentro dessas ideias, fomos recortando e percebendo quem é que seriam as jogadoras do ponto de vista físico, técnico, mental, com mais capacidade para nos poder dar esses aportes em pequenos espaços de tempo.

A maioria das jogadoras atua no estrangeiro. Isso ajuda ou complica?
As jogadoras têm que ir à procura do seu melhor clube para poder melhorar, desenvolver, pensar em ser profissionais. Em Portugal, a liga feminina não é uma liga profissional e muitas delas têm que recorrer ao estrangeiro para poder fazer isso, ter um ordenado e uma possibilidade de se dedicar ao jogo sem ter que compaginar isso com outro trabalho. No momento, algumas conseguem fazer com a faculdade, mas, em Portugal, não há tantos lugares remunerados disponíveis, não há tantas portuguesas que possam fazer essa vida. E muitas destas jogadoras procuram fora essa possibilidade de serem profissionais.

Essas ligas têm vantagens e desvantagens. Independentemente do nível, o tipo de corpos normalmente aumenta porque a liga portuguesa não é uma liga de grandes centímetros, é uma liga de jogadoras mais móveis, de mais mobilidade, porque os centímetros custam caro no basquetebol e nem todos os clubes podem pagar por eles. Então, eu penso que elas têm essas vivências de ir para fora e essa plasticidade acaba por ajudar. Quem é capaz de jogar em casa, depois jogar fora, depois jogar em diferentes ligas vai tendo o know-how, vai tendo o conhecimento de rapidamente se adaptar, reajustar e reinventar e essa plasticidade mental, essa experiência, acaba por ser uma coisa positiva.

E, obviamente, o facto de serem profissionais do basquetebol é muito importante quando falamos da seleção porque precisamos de pessoas que, quando veem estes momentos, estão a pensar só nisto e em nada mais. E só é possível se uma atleta se dedica ao basquetebol a 100%. E se consegue realmente pensar em fazer carreira de basquetebol durante um período alargado de tempo essas experiências são todas positivas e a seleção também acaba por beneficiar delas.

E como se pode melhorar o campeonato interno?
Desde logo, a profissionalização a todos os níveis. Desde as estruturas dos clubes aos jogadores, porque não serve de nada termos jogadores profissionais se depois, do ponto de vista estrutural, o clube não tem qualquer aptidão a profissionalizar-se. Todos sabemos que não se profissionaliza do dia para a noite, mas se o próprio clube começar, pouco a pouco, a profissionalizar gente e a estruturar-se, seja o treinador, sejam os diretores, os diretores desportivos, toda a gente entender que o meu rendimento, a minha vida profissional, vem do melhoramento do meu projeto... Porque o amadorismo e a ideia de que eu estou aqui a ajudar é ótima, é nobre, mas ela não leva à superação constante.

Certo.
Quando é a minha profissão, isso faz com que o desempenho e as necessidades de ir melhorando sejam fundamentais. E, portanto, com essa profissionalização é, obviamente, necessário visibilidade, é necessário isto que estamos a fazer agora, este momento em que os média dão visibilidade ao basquetebol, ao desporto feminino, tudo isto é fundamental para que haja investimento por parte dos dinheiros privados, de poder ver retorno na ideia de patrocinar ligas, o basquetebol e, neste caso, o concretamente o feminino.

O melhoramento das estruturas faz também haver melhoramento das formações. Muito temos feito porque a quantidade de jogadores que saem para os Estados Unidos mostram que há bom trabalho em Portugal, mas sempre se melhora quando aumenta. Quanto maior é a base da pirâmide, maior é a possibilidade do topo da pirâmide. Nunca foi diferente. Portanto, que as estruturas dos próprios clubes tenham esta ideia de formar mais e melhores jogadores porque, quanto mais melhores jogadores houver, mais possibilidade há de haver jogadores de qualidade e aumentar o nível do jogo. O nível do jogo traz espectadores, todo esse profissionalismo e espectadores só é possível se houver dinheiro envolvido e, portanto, isto é sequencial, mas obriga ao trabalho e a ideias e a projetos de médio prazo.

Não há uma nova Ticha Penicheiro, mas o futuro está assegurado?
Sim, neste momento somos uma equipa que tem muitas jogadoras com muita experiência a nível internacional, temos gente que se dedicou ao basquetebol profissionalmente, quer nos seus clubes, quer com a própria seleção. E está assegurado nos escalões de formação também porque nós, nas camadas jovens, estamos na divisão A, no feminino, praticamente, em todas as categorias. Realmente, mudámos o mindset há alguns anos e somos equipas competitivas.

Temos muita exportação de jogadores jovens para os Estados Unidos, onde estudam e jogam a um alto nível. Portanto, o futuro, de médio prazo, está assegurado mas, se não fizermos nada a longo prazo, está condenado porque é mesmo assim, tem que se continuar a trabalhar e continuar a fazer e a pensar em melhorar. Esta etapa histórica da seleção sénior de se apurar para um Europeu é bonita, mas é vazia se nada vier depois disto.

Se a seguir não começarmos todos a acreditar que é possível, que podemos fazê-lo mais vezes e que temos que continuar a melhorar para que isto passe de ser histórico para ser uma realidade. Todos estes passos fazem-se com planeamento e com projetos a médio prazo para garantir o futuro, que neste momento é positivo.

A chegada inédita da seleção feminina à fase final de Euro no mesmo ano em que a equipa masculina regressa também é um bom sinal.
Sem dúvida. Desde logo, não será uma coincidência. Mas sim, é verdade que os rapazes também conseguiram e vão estar numa fase final. É verdade também que há uma melhoria significativa no basquetebol geral e temos uma liga muito competitiva. Este ano, três clubes ganharam taças das várias competições, não há só uma equipa a dominar e as outras todas a ver o que é que se passa. E no masculino igual. E há, da parte da federação, um investimento enorme na última década, com melhoria nas condições, nas visibilidade, no produto final, no produto basquetebol, que tem melhorado bastante nos últimos anos e isso acaba por trazer estes resultados.

Durante muitos anos, nem às competições europeias estávamos a ir, estávamos sozinhos no nosso canto e essas ideias fazem-nos estagnar, o não estar em competição constante com os outros faz-nos parar numa ideia que acabamos por nos cingir à nossa rua, entre muitas aspas, e o que se passa nessa rua é muito longe do que se passa no mundo inteiro. E, portanto, eu acredito que o voltar das competições europeias de muitas equipas, as seleções e os seus resultados internacionais vêm dar visibilidade e venha confirmar um momento muito positivo que o basquetebol está a viver, de muito investimento de clubes, associações e federações porque, obviamente, ninguém faz nada sozinho e é importante que o basquetebol continue a crescer.

A fechar, se lhe pedisse uma seleção favorita para o Euro feminino, quem me diria?
As seleções com mais possibilidades de ganhar seriam a Bélgica e a segunda seria a França, mas veremos como vão decorrer os jogos.

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