Mundial 2026
📝 As notas do Sousa: o dia 3 de Mundial foi de chapada de luva branca às políticas anti-imigração
14 jun, 2026 - 15:47 • Francisco Sousa *
Um olhar para os protagonistas de uma maratona de 11 horas de Campeonato do Mundo.
Donald Trump não quer saber assim tanto de futebol e até faltou à cerimónia de inauguração norte-americana (substituído pelo secretário de Estado Marco Rubio), preferindo continuar os preparativos da sumptuosa festa do 80º aniversário – juntando à comemoração dos 250 anos da nação. No entanto, o 3º dia de Campeonato do Mundo, com jogos disputados maioritariamente em solo dos EUA, serviu para ilustrar como políticas migratórias mais inclusivas, integrativas e solidárias podem ter impacto positivo nas seleções de futebol de cada país.
Começando pelo jogo grande do dia e uma das principais partidas desta fase de grupos, podemos dizer que uma das equipas não desiludiu em nada e a outra cumpriu poucochinho. Marrocos entregou-se ao jogo com a irreverência e até brilhantismo (a espaços) que caracteriza a ideia de jogo de Mohamed Ouahbi, selecionador em claro contraste com o antecessor Walid Regragui – mais dado a bloco defensivo ordenado e a saídas rápidas do que a um jogo dominador. Os norte-africanos foram muito incisivos logo na primeira pressão (essenciais Ounahi e Saibari), condicionaram lindamente os médios brasileiros, que perderam bolas em catadupa e sofreram perante uma equipa que tanto de forma organizada como em contra-ofensiva consegue gerar problemas aos rivais.
E aqui entram os protagonistas, filhos da imigração, muitos deles a abdicarem do sonho das grandes seleções europeias para representarem os países de origem das famílias. O MVP não oficial do jogo era aspirante a titularíssimo por muitos anos da seleção francesa, mas optou já em cima do Mundial por jogar por Marrocos, quando até já era titular dos sub-21 gauleses. Ayyoub Bouaddi é agora um nome conhecido a nível mundial, depois de duas épocas de muitíssimo nível num Lille no qual foi estreado por um português – Paulo Fonseca. O seu registo imaculado a sair da pressão, a levar a equipa pelos melhores caminhos no passe e a leitura de jogo para recuperar defensivamente tornam esta numa das grandes exibições de um jogador sub-19 na história recente dos Mundiais. A jogada do golo marroquino começou na mestria dos movimentos interiores de Noussair Mazraoui (nascido nos Países Baixos, filho de pais marroquinos), prosseguiu com a técnica de passe ímpar de Brahim Díaz (criado em Málaga, filho de pai de Marrocos e mãe espanhola) e acabou numa rutura notável de um médio reciclado em atacante de muito bom nível (Ismael Saibari, natural de Terrassa, Catalunha, com pais magrebinos e que foi viver para a Bélgica aos seis anos).
Do Brasil de Carlo Ancelotti, ficou a capacidade de resposta de Vinícius Júnior (golo após jogada individual brilhante, aproveitando ausência de Achraf Hakimi no um-contra-um), mas apenas na primeira parte. Os jogadores andaram em casas muito diferentes ao longo do jogo (Raphinha passou por três espaços diferentes, Paquetá também viveu o sacríficio) e apesar de boa resposta ao golo sofrido na metade inicial, a dificuldade para gerar oportunidades foi evidente. Igor Thiago mostrou-se «preso» de movimentos, mas o problema estava mesmo na base (entre o que já destacámos dos médios, não ajudou ter Douglas Santos tão baixo e o central adaptado a lateral Ibañez a avançar pelo flanco direito). Apesar de tudo, o selecionador italiano da Canarinha não mexeu mal, trouxe alguma ordem e hierarquia com as presenças de Fabinho e Danilo, numa fase menos acutilante do jogo (de ambas as partes). Matheus Cunha e Luiz Henrique ainda prometeram ameaça, mas o resultado acabou por ser satisfatório para as duas partes envolvidas.
O fim de madrugada trouxe-nos outra vitória da imigração, nada de surpreendente atendendo ao confronto de países com grandes diásporas, Austrália e Turquia. O 5-4-1 de Tony Popovic resultou na plenitude, perante uma seleção turca recheada de artistas, mas que acabaram a não produzir o suficiente. Arda Güler ainda agitou as águas, veio até combinar mais à esquerda (sobretudo quando Kenan Yıldız entrou), mas faltou mais eficácia no remate – o guardião Patrick Beach também foi chave.
A Austrália teve figuras bem definidas por setores. Começando pela linha defensiva, o central Harry Souttar (nascido e criado na Escócia, mas filho de mãe australiana) foi imponente, com 13 alívios e quase todos os duelos conquistados, mostrando que é uma espécie de Harry Maguire dos menos abonados – já se tinha imposto noutro Mundial, no Qatar, joga no Leicester e tem tido muito azar com lesões nos últimos anos. Ao meio, Paul Okon-Engstler (filho de um antigo jogador australiano, nascido na Bélgica, filho de mãe cubana e irmão de um atual campeão europeu de sub-17… por Itália) mostrou crescimento claro face aos tempos em que passou pelas equipas jovens do Benfica e serviu um grande passe longo para a rutura e lance a dois toques, receção e remate, do potente Nestory Irankunda – nascido numa campo de refugiados na Tanzânia, com pais naturais do Burundi e a viver na Austrália desde os três meses de idade.
Antes, vimos também uma boa surpresa coletiva, sem prémio, e uma surpresa no resultado, com mais felicidade do que propriamente mérito. O Haiti mostrou uma competitividade acima da média, a partir de um 4-4-2 bem coordenado, com médios complementares (Jean-Jacques e Bellegarde, efetivos em vários momentos na pressão e dinâmicos com bola), extremos agitadores, velozes, a jogar com pé trocado (Deedson e Providence), mas com uma definição técnica irregular e dois atacantes que deram algum suporte, mas sem argumentos para superar uma exibição majestosa do central escocês Grant Hanley. A turma de Steve Clarke teve em McGinn o elemento decisivo, mas o jogador verdadeiramente diferenciado numa exibição ofensiva pobre foi o extremo Ben Gannon-Doak, fortíssimo na ligação e desmarcação a partir do corredor direito.
A surpresa no resultado foi mesmo o empate final do Catar face à Suíça, num jogo em que até criou mais ocasiões (duas) no período de maior sofrimento no encontro – primeiro tempo. Murat Yakin mostrou perspicácia, ao lateralizar Denis Zakaria e ao avançar para jogo num 4-3-3 clássico, quando Lopetegui esperava os três centrais. Houve muita dificuldade em ajustar por parte do conjunto do Médio Oriente, mas a turma helvética não conseguiu rentabilizar as múltiplas oportunidades de que dispôs. E mesmo num cenário de controlo absoluto na segunda parte, a Suíça não soube fechar o resultado e o Catar, empurrado pela criatividade de Akram Afif e por um cruzamento excecional de Homam Ahmed, acabou a empatar o jogo, para visível gáudio de Pedro Miguel Correia, defesa natural de Algueirão-Mem Martins, com passagem na formação do Benfica e que já é uma das lendas do futebol catari.
A surpresa no resultado foi mesmo o empate final do Catar face à Suíça, num jogo em que até criou mais ocasiões (duas) no período de maior sofrimento no encontro – primeiro tempo. Murat Yakin mostrou perspicácia, ao lateralizar Denis Zakaria e ao avançar para jogo num 4-3-3 clássico, quando Lopetegui esperava os três centrais. Houve muita dificuldade em ajustar por parte do conjunto do Médio Oriente, mas a turma helvética não conseguiu rentabilizar as múltiplas oportunidades de que dispôs. E mesmo num cenário de controlo absoluto na segunda parte, a Suíça não soube fechar o resultado e o Catar, empurrado pela criatividade de Akram Afif e por um cruzamento excecional de Homam Ahmed, acabou a empatar o jogo, para visível gáudio de Pedro Miguel Correia, defesa natural de Algueirão-Mem Martins, com passagem na formação do Benfica e que já é uma das lendas do futebol catari.
* comentador de futebol da Renascença
- Bola Branca 18h14
- 21 jul, 2026










