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​Gyökeres (ainda) não é a máquina perfeita: um mapa para as fissuras no jogo do avançado

20 nov, 2024 - 12:45 • Hugo Tavares da Silva

Um central de I Liga, um treinador de uma das principais ligas europeias e três comentadores Renascença ajudam a decifrar o que falta no leque de virtudes do demolidor "9" que já leva 58 golos em 54 jogos em 2024.

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Tem piada, quando pedimos a um defesa central com largos anos de I Liga para revelar os problemas e as fissuras no jogo de Viktor Gyökeres, a conversa vai por outro lado. “É um jogador especial, não é?”, começa a dizer. “É o pacote completo, não precisa de muito espaço para fazer um golo, é uma força da natureza. O que podemos fazer é estar dois segundos à frente, antecipar, seja no choque, seja a retirar a profundidade. É necessário ter as coberturas por perto. Se esperamos para começar a correr na mesma altura que ele…”

Mas é justo, certo? O sueco, que acabou de fazer um poker ao Azerbaijão de Fernando Santos, marcou 58 golos em 54 jogos em 2024. Leva 32 esta temporada e estamos apenas em novembro. É o melhor marcador do nosso campeonato, da Liga dos Campeões e até da Liga das Nações. Também é verdade que sai beneficiado no modelo de Ruben Amorim (mas pela seleção já vai estraçalhando quem se mete no caminho). É quase inverossímil o que tem feito, para não falar da internacionalização da sua celebração. Elpídio Silva disparava, Batistuta descarregava a sua metralhadora, mas ninguém chegou perto do assombro da sua máscara. Sugere alguém implacável, insaciável e poderoso. É um killer popular.

Andar a perguntar o que falta ao jogo de Gyökeres por esta altura é quase como mergulhar para uma piscina vazia. Mas aqui estamos. Há um treinador com passagem pelo futebol português e que habita agora numa das cinco principais ligas europeias que morde o isco.

"Tem de melhorar a jogar ao primeiro toque. Se der o salto para a Premier League, todos os jogos são muito mais competitivos, terá de usar mais essa ferramenta”

Depois de uma introdução com um rol de valências e virtudes do nórdico, partilhou um relatório mental. “Tem de melhorar a jogar ao primeiro toque. Se der o salto para a Premier League, todos os jogos são muito mais competitivos, terá de usar mais essa ferramenta”, começa por dizer. “Tem de ter um primeiro toque mais limpo. Mesmo a receção não é perfeita. Quando for pressionado muito mais, tem de solicitar mais rápido. Também tem de melhorar no apoio frontal.”

OK. E que mais? “O jogo aéreo nas bolas paradas. O Sporting muitas vezes até o coloca em zonas em que normalmente os jogadores mais fortes do adversário não estão”, explica este treinador que prefere manter-se no anonimato. “É muito desligado e pouco comprometido nesse momento. Nas bolas paradas ofensivas também. Se fores ver a quantidade de golos que fez de bola parada, para um avançado, é um muito pouco. Normalmente são muito fortes.”

A análise prosseguiu. Obviamente estamos perante um dos fenómenos do futebol europeu, alguém que faz salivar qualquer treinador que procura um 9 mais tradicional, e a abordagem deste artigo visa apenas limpar a baba da frente dos olhos. O que falta para ser elite das elites? É por aí. Seria uma irresponsabilidade (a palavra idiotice ficaria melhor) desvalorizar este futebolista. É tremendo. E a mentalidade parece ser o fogo que cose as linhas da máscara.

Num grupo de WhatsApp com alguns amigos que jogaram à bola e que acompanham o campeonato com o compromisso da juventude, questionamos o mesmo. O que falta à fera das feras da esfera? “Jogo aéreo”, “jogo de costas para a baliza (mas está melhor)”, “decisão, muitas vezes decide mal”. Curioso, a análise do treinador entrevistado por Bola Branca desaguou precisamente na decisão. “Não abre bem as opções. Ou seja, é muito cabeça em baixo, vai sempre no 1x1, 1x2, trapalhão, muitas vezes tem soluções à volta.”

“A finalização a encostar de primeira para a baliza não é perfeita. É a grande diferença entre ele e o Haaland, dentro da área"

Nuno Presume, treinador e comentador da Renascença, vê alguém com uma importância “estratosférica” para o Sporting, que “condiciona toda uma linha defensiva”. Certo. E o outro lado? “O jogo de cabeça dele terá muito de evoluir, é o ponto mais fraco do Gyökeres”, começa a sinalizar. “A finalização a encostar de primeira para a baliza não é perfeita. É a grande diferença entre ele e o Haaland, dentro da área. Essa comparação vai ser inevitável”, arrisca, o que é um enorme elogio ao sueco, que não tem “a definição tão limpa, clara e cristalina”.

Este homem com tantos anos de futebol salienta que a evolução é notória, seja dentro da área, seja no apoio frontal. O corpanzil e a potência permitem-lhe pecar na fineza técnica, parece unanime. A abordagem ideal, explica Presume, é não deixar Viktor rodar para fora. Aí é a matança. “O impacto e o contacto do primeiro homem é determinante, mais determinante é haver uma linha de prevenção, a cobertura. Deixar o Gyökeres no 1x1 é entregar o ouro ao bandido.”

De acordo com Nuno Presume, a visão periférica “não é a melhor”. Isto é, “com uma visão pouco cónica, fica muito limitado na condução da bola e não tem referências dos colegas. Fixa muito na bola e nos pés do adversário, não em quem tem à volta”.

O comentador Bola Branca Francisco Guimarães não tem dúvidas: “Gyökeres tem qualidades mais do que suficientes para entrar numa equipa de topo”. Curioso como se começa sempre com o que ele tem de bom para o contributo não soar a desfaçatez. O escriba que assina este artigo fez o mesmo no início do mesmo.

“Quando o adversário tem o bloco baixo e se houver uma marcação individual, se o central for muito bom, Gyökeres tem dificuldades em sair, fugir e aparecer"

“Tem algumas carências que podem limitar a sua estada numa equipa de topo a jogar constantemente contra equipas de grande dimensão”, aponta. Resumindo, Guimarães entende que o jogo aéreo e a decisão, que tem vindo a melhorar, estão por afinar. Bate certo com as partilhas anteriores. “Quando o adversário tem o bloco baixo e se houver uma marcação individual, se o central for muito bom, Gyökeres tem dificuldades em sair, fugir e aparecer.”

E acrescenta: “Vejo-o claramente numa Premier League porque há mais espaço, há mais velocidade no jogo e ele retira muito partido disso”, reflete. “Quanto mais rápido o jogo, mais ele retira situações daí que não aparentam serem situações de golo.”

Para Francisco Sousa, outro comentador Bola Branca, falta a Gyökeres “ser mais produtivo nos passes de ruptura”. A evolução é evidente, admite, até na conexão com os futebolistas que usam uma camisola igual.

“Tecnicamente tem valências assinaláveis no remate e, ao mesmo tempo, vê-se que trabalhou já algumas limitações anteriores em termos de receção, que melhorou claramente, e no toque para fugir ao adversário”, diz Sousa. Sem bola, este comentador, tal como Nuno Presume, considera que ele está alheado desse processo defensivo. “Pode ser mais ativo e agressivo na pressão a condicionar os adversários”, defende Francisco Sousa.

“O modelo do Ruben Amorim acabou por ser importante para disfarçar a tal questão defensiva. E em termos ofensivos por potenciar as rupturas no espaço"

Há uma coisa incontornável. “O modelo do Ruben Amorim acabou por ser importante para disfarçar a tal questão defensiva”, continua. “E em termos ofensivos por potenciar as rupturas no espaço, dar-lhe peso finalizador e não pedir para baixar tanto em determinados momentos para ligar jogo.”

Conclusão, “acho que pode encaixar bem na Premier League, num Arsenal, desde logo se o Arteta se virar para um perfil de avançado-referência, embora não fixo, mas também no Chelsea, que tem um modelo flexível a atacar e que podia pedir as melhores características do Gyökeres. E seria apelativo para o United de Amorim, mais difícil porque há Hojlund, ou no Aston Villa de Unai Emery, que também pede atacantes com esta capacidade de ruptura no espaço.”

Decretamos então o fim da chuva, pois andar aqui a pedinchar defeitos e pecados do maior futebolista da nossa Liga é ousadia. Mas é necessário, até porque pode explicar os avanços ou recuos ou hesitações dos clubes maiores. Afinal, são 100 milhões de euros.

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