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Tertúlia Bola Branca

Quando Blopa e Flávio Gonçalves se estrearam, João Gião pegou neles e levou-os a ler nomes nas paredes de Alcochete

16 dez, 2025 - 15:55 • Hugo Tavares da Silva

Na ressaca do jogo com o Alverca, o treinador do Sporting B quis mostrar aos jovens jogadores a distância entre estrelato e anonimato: "A mensagem é muito clara, pés bem assentes no chão, não conquistaram nada ainda".

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Um dia depois daquele Sporting 5-1 Alverca para a Taça da Liga, Salvador Blopa e Flávio Gonçalves voltaram à equipa B. Talvez não tenha sido fácil adormecer, responder a todas as mensagens dos amigos orgulhosos e dos conhecidos que querem ser mais do que isso. Talvez não tenham sabido colocar no seu lugar o sentimento do menino a viver sonhos grandes.

O interruptor que os injetou com adrenalina felina descansava agora, os músculos das carapaças dos miúdos compreendiam agora que talvez não pudessem jogar três jogos seguidos e beber apenas água da chuva, quais robôs inocentes e apaixonados e incansáveis que desejam mais e mais. O sol voltou a nascer da mesma maneira, mesmo que Blopa tenha feito dois golos ao Alverca e Gonçalves tenha deixado uma assistência em Alvalade.

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João Gião, o treinador que devolveu o Sporting B à Liga 2 e que agora coloca a equipa secundária na liderança do campeonato com rapazes ambiciosos, esteve na “Tertúlia Bola Branca” e revelou como foi essa ressaca.

“Fundamentalmente, é dizer-lhes sempre a verdade”, responde sobre como é que se gere a cabeça de gente como Blopa, um todo-o-terreno de 18 anos, natural de Cascais. Afinal, um dia estão no relvado cheio de fissuras do Felgueiras e noutro estão no campo sagrado do Bayern Munique. Olhando apenas desde outubro, Blopa jogou Liga 2, Youth League, sub-19 com Portugal, Taça de Portugal e Liga dos Campeões.

“No dia seguinte, à estreia com o Alverca para a Taça da Liga, eles regressaram, o mister Rui Borges mandou-os para a equipa B de novo”, relatou Gião nos estúdios da Renascença, em Lisboa. “A primeira coisa que eu fiz foi agarrar nos dois e levá-los a uma série de placas que estão na academia, uma espécie de ‘hall of fame’, onde estão todos os jogadores formados na academia que se estrearam na equipa A do Sporting. Fi-los ler todos os nomes, um a um, onde constam Cristiano Ronaldo e outros, mas também constam muitos que nem eu sei onde acabaram a carreira e por onde andaram. Foi a primeira que eu os fiz ver.”

Os nomes importantes estão todos na ponta da língua, pois claro, e os dos que caíram no anonimato? Há pouco tempo, Dário Essugo, agora no Chelsea, roubou o título de mais jovem a jogar pelo Sporting a Santamaria, que acabou a carreira na quarta divisão, no Alta de Lisboa, e que durante o dia passava multas como funcionário da Emel. Gião organizou um tour pelo céu e o inferno do futebol profissional, implacável e sem grandes benevolências.

“A mensagem é muito clara: pés bem assentes no chão, não conquistaram nada ainda, estão lá por mérito deles porque fizeram as coisas bem até aqui, ninguém se estreia na equipa principal do Sporting sem mérito”, defendeu João Gião, de 39 anos.

E reforçou: “Mas os pés bem assentes no chão e tentar dizer-lhes a verdade a toda a hora, antecipar algumas coisas em termos mediáticos que vão acontecer e não aconteciam até aí, tentar antecipar alguns problemas”.

João Gião centrou-se então em Salvador Blopa, o desejo principal do jornalista. “Tem sido relativamente fácil porque tem uma cabeça muito boa. A malta normalmente diz que ele fisicamente é incrível, tecnicamente, é um miúdo que percebe muito bem o jogo, mas a maior arma dele é a mentalidade. É um puto com uma mentalidade espectacular.”

Segundo este treinador com uma bagagem relevante já no futebol de formação e profissional, Blop tem muita ambição e mantém a muita humildade. E até olha para os companheiros mais velhos da equipa B como se tivessem sido eles a estrearem-se na equipa principal e não ele. Uns, quem sabe muitos, nunca saberão o que já sentiu Blopa.

“É um miúdo que até agora tem muito mérito como tem lidado com isto, lógico que às vezes não é fácil jogar com o Brugge a meio da semana e de repente vir para baixo, treinar uma vez, autocarro, Felgueiras, campo, onde estou? Não tem a ver com o facto de ele ser humilde ou não, é humano, é normal. Mas ele tem lidado muito bem com isso, muito mérito dele. É um miúdo com uma cabeça muito boa. Sabe muito bem o que quer, consegue perceber o que correu mal com outros casos semelhantes, portanto tem tido relativamente fácil gerir.”

O treinador foi também questionado sobre a arte e a responsabilidade de devolver orgulho aos futebolistas e não os deixar cair quando não tiveram o trajeto esperado. Rodrigo Ribeiro foi um desses casos, que mais de três anos depois da estreia com Ruben Amorim estreou-se finalmente a titular. Rui Borges colocou-o de início com o Marinhense para a Taça.

“Faz parte do nosso processo. Fala-se muito e especula-se muito com esta questão do termos de gerir bem o processo, o percurso dos miúdos, para onde vão… Sim, é verdade, mas muitas vezes também não conseguimos controlar tudo. Um miúdo é emprestado a um clube, o treinador gostava das características dele, perdem o jogo seguinte e o treinador cai, vem outro treinador que já não gosta daquelas características. Às vezes não se consegue controlar o processo todo”, explica.

E continua: “O Rodrigo foi um miúdo que passou uns anos com menos tempo de jogo. Mas regressou agora. Não considero um passo atrás, ele está integrado na equipa A, treina regularmente com eles, é um passo à frente, mas tem competido mais com a equipa B. Acho que lhe tem feito muito bem, devolveu-lhe confiança, tem sido importante na equipa B. Tem tido uma postura muito humilde quando baixa à equipa B, tem um compromisso muito grande com a equipa. Está muito implicado no que sabia que tem de melhorar, em tarefas defensivas, etc, às vezes é o nosso papel. Isto não é sempre linear. Ele tem muito potencial”.

Veja aqui a “Tertúlia Bola Branca”, o programa de desporto da Renascença que vai para o ar às segundas-feiras, em rr.pt, nas plataformas de streaming e no YouTube a partir das 19h00 e na edição da noite, na sua rádio, a partir das 23h.

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