Atletismo
Bateu uma marca histórica de Mamede e avisa para o que vem aí: "Os recordes nacionais vão cair todos"
25 nov, 2024 - 11:55 • Carlos Calaveiras
Em entrevista à Renascença, Duarte Gomes, que diz ser certinho estar nos próximos Jogos, acredita que pode fazer melhor e que vem aí uma geração que pode devolver a Portugal o brilho das medalhas.
Duarte Gomes tem 23 anos e, recentemente, bateu um recorde nacional histórico que se mantinha há quase 40 anos. Numa prova de 10.000 metros em França, o agora atleta individual retirou três segundos à melhor marca que era do mítico Fernando Mamede.
Em declarações à Renascença, Duarte Gomes acredita que ainda pode fazer melhor, põe as mãos no lume pela geração que aí vem e tem a certeza que vai estar nos próximos Jogos Olímpicos para conseguir um bom resultado.
Este atleta, com passagem pelo Benfica, pede à nova geração que não desista e ao público que volte a olhar para a modalidade, como fazia há 40 anos.
Já vamos ao recorde, comecemos pelo princípio: de onde vem o gosto por correr?
Comecei na minha escola secundária em 2016. Participei num corta-mato escolar e fiquei logo em segundo lugar. Fazia futebol e futsal na altura, mas o meu antigo treinador – que era meu professor – disse-me "tu tens jeito para fazer atletismo, podes ir experimentar". E eu fui fazer os primeiros treinos numa escola, que é a Fundação CEBI, em Alverca do Ribatejo, de onde eu sou. Gostei muito e começou aí com treinos de brincadeira e só começou mais a sério quando fui para o Benfica.
Percebeu logo que tinha futuro nesta coisa das corridas?
Eu, em tudo que me meto, quer seja a faculdade, a minha vida pessoal ou no desporto, dedico tudo e sou muito persistente e é isso que me caracteriza, para além do talento, e desde muito novo que eu gostava de alcançar algo grande. E percebi que tinha jeito para a coisa. Dediquei-me e persisti durante alguns anos até que os resultados começaram a aparecer, o que fez com que eu gostasse ainda mais da modalidade.
E já chegou à seleção…
Sim, já representei algumas vezes a seleção nacional no corta-mato. A minha primeira vez foi num Campeonato da Europa de juniores, onde obtive a sétima classificação nos 5.000m. Depois em sub-23 tive algumas lesões, o que me assombrou um pouco e dificultou a evolução, mas desde o ano passado que represento a seleção sénior e estive a muito pouco de representar a seleção no Europeu porque obtive a marca de qualificação já fora do período.
Este ano de 2024 está a correr-lhe bem: em maio conseguiu a sua melhor marca nos 5.000m (13.17.98). Já é um dos melhores portugueses na distância e o melhor do século.
Sim, é verdade, fiz a quinta melhor marca portuguesa de sempre nos 5.000m. Há muito tempo que um português não fazia uma prova tão rápida. É bastante positivo isto estar a acontecer e termos sangue tão jovem a obter estes resultados para que percebam que o meio-fundo [português] não está morto, como muitos dizem, e que as coisas estão bem encaminhadas para, se calhar um dia, voltarmos a ter medalhas nos Jogos Olímpicos.
Porque estamos sem grandes resultados no meio-fundo e na maratona, como já tivemos?
Nós temos condições tecnológicas melhores, é verdade, mas aquilo que nos falta – o grande problema é esse - é jovens a quererem continuar na modalidade para que um dia consigam obter os resultados que se obtinham há 30 anos.
Há 30 anos a maior parte dos atletas da altura trabalhavam em condições precárias e quando saiam para o atletismo iam receber um salário muito bom para o que era na altura e hoje em dia isso já não existe. Qualquer outro tipo de trabalho já dá mais dinheiro que o atletismo e esse é um dos grandes problemas: muita gente abandona e não chega a sénior por falta de apoios em juvenil e júnior.
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É difícil reter talento?
É isso mesmo. É difícil reter talento porque também é um desporto difícil, em que é preciso treinar muito, duas vezes por dia, e é difícil que as pessoas – com aquilo que lhes oferecem – fiquem num desporto em que é preciso trabalhar muito e muito. Mas, lá está, o mais importante é manter os jovens porque o talento está cá, os outros países não têm mais talento que nós. É preciso manter os jovens, os treinadores e dar condições a essas pessoas porque se derem condições vamos continuar a ter um meio-fundo como já tivemos.
Vamos então à prova de que todos falam. Recorde nacional dos 10 quilómetros batendo o tempo do mítico Fernando Mamede que durava há quase 40 anos. Como correu a prova em Lille? Estava previsto tentar o recorde?
Estava previsto tentar o recorde. Esta foi a minha primeira prova da época. Eu estive de férias, voltei aos treinos e ataquei logo esta prova. O meu objetivo principal era fazer uma prova rápida e, com o decorrer dos treinos, passei a ter outro objetivo que era bater o recorde nacional porque as coisas estavam a correr mesmo muito bem e acreditei que seria possível. As condições da prova eram boas, com ritmos bons, o percurso também era propício a corrermos muito rápido e, quando os fatores se alinham, sai uma boa marca e sai um recorde nacional.
Aparentemente foi uma prova de grande nível porque o Duarte bateu o recorde nacional, mas teve 13 atletas à sua frente
A prova teve muito boa qualidade, costuma ter sempre um lote de atletas de grande qualidade – foi um dos motivos para eu a escolher. Muitas pessoas olham para o meu recorde e comparam com o Fernando Mamede há 39 anos. Na altura o Mamede ganhou a prova e fez 28.11 minutos e eu fui 14.º e faço 28.08 minutos. Tenho capacidade para correr mais rápido, mas só quero dar tempo ao tempo porque o nível europeu e mundial cresceu muito e está muito elevado.
Acho que é possível fazer isto ou melhor e as pessoas vão começar a perceber vamos atingir resultados como há 39 anos e mesmo chegar nos lugares dianteiros destas provas. Nós estamos cada vez mais à frente, é preciso tempo e daqui a dois ou três anos vamos ter mais recordes nacionais, os recordes nacionais vão cair todos, vamos ter melhores resultados e vamos ter medalhas a nível internacional.
Está a dizer-me que vem aí uma geração que vai voltar a dar bons resultados internacionais no atletismo de corrida, é isso?
Sim, é isso mesmo. Vêm aí muito boas coisas e neste momento é mesmo só dar tempo ao tempo, ter paciência para que seja possível alcançar os resultados, ter consistência no treino porque vão aparecer muitos bons resultados, vão ser batidos recordes.
Eu na primeira prova da época já consegui este resultado, o que dá quase uma garantia de que esta época vai correr muito bem e é continuar a acreditar no trabalho consistente, focar no processo e que bons resultados vão aparecer. Muita gente vai voltar a focar os olhos no atletismo como há 40 anos. E é isso que é importante: ter mais pessoas a ver e apoiar a modalidade, precisamos de mais visibilidade e é isso que nos traz mais capital para nos mantermos e termos melhores resultados.
Se eu lhe pedisse três ou quatro nomes de colegas ou adversários da nova geração de qualidade que aí vem, quem destacaria?
Isaac Nader, Miguel Moreira, José Carlos Pinto, Edson Barros, Rúben Amaral, Alexandre Figueiredo, Nuno Pereira e Samuel Barata, este um pouco mais velho, mas atletas importantes que já representam as seleções e que têm muito mérito.
Mas imagino que seja especial destronar o Fernando Mamede, um dos melhores atletas portugueses de sempre.
É um enorme orgulho conseguir bater um recorde do Fernando Mamede, que era um grande atleta, que fazia parte de uma geração incrível com o Carlos Lopes e os gémeos Castro. Gostava de ter conseguido ver o que eles faziam, ver os treinos e conseguir tirar o bom que eles tinham. De certeza que tinham coisas muito boas, quer seja a mentalidade, o método de treino, isso seria o ideal.
Para a sua geração, quem é o ídolo?
Rui Silva. Não fazia as minhas distâncias, mas vi muitas provas dele e acho que é um exemplo para todos os atletas e também para mim.
O Duarte tem 23 anos, foi atleta do Benfica, já chegou à seleção, tem agora um recorde nacional, o que se segue? Quais são os próximos objetivos?
Vou fazer um estágio de altitude, vou preparar a pista coberta porque é muito importante para a minha qualificação no Campeonato do Mundo de ar livre por causa do ranking.
Explique lá isso…
Nós podemo-nos qualificar através de duas formas: qualificação direta por marca (uma marca que temos de obter para qualificar) ou por ranking (temos de ter x pontos – alcançados com a marca - na média de três provas). A pista coberta dá muitos pontos e se eu conseguir uma boa marca na pista coberta dá-me mais pontos que no ar livre e é aí que me vou focar, na pista coberta.
Mas, então, as corridas…
Devo ir correr uma prova nos Estados Unidos, depois vou tentar, se tudo correr bem, o Europeu de pista coberta [de 6 a 9 de março de 2025] e só depois focar-me no ar livre para ir ao campeonato do Mundo [13 a 21 de setembro de 2025], o meu objetivo principal.
E que provas está previsto fazer nesses grandes eventos?
No Europeu de pista coberta os 3.000 metros e no Mundial de ar livre os 5.000 metros.
Então os 10.000 ainda podem esperar?
Sim, o meu objetivo é tentar correr o mais rápido possível nos 5.000 metros para depois ter uma base mais rápida para correr uns grandes 10.000 metros.
Vai-se melhorando com a idade? Perdem velocidade, mas ganham resistência. É isto?
Sim, é isso. O corpo quanto mais envelhece dificilmente se ganha mais velocidade e o objetivo é trabalhar as distâncias mais rápidas quando somos mais novos, tentar criar uma base rápida para depois, quando formos para distâncias maiores, trabalhar a resistência e ser mais fácil atingir bons resultados em provas com maior distância.
Daqui a quatro anos vamos ter o Duarte Gomes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles?
Vamos, vamos, com certeza. Às vezes é difícil prever uma coisa a quatro anos porque pode acontecer uma lesão, mas se tudo correr bem, vou estar presente. Vou estar presente e com objetivos na minha cabeça de um bom resultado.
Vou guardar este som…
Guarde, guarde [sorrisos].
E considera que tem todas as condições para lá chegar? Para se dedicar apenas ao treino sem se preocupar com questões laterais?
Neste momento sou individual e estou a trabalhar com um patrocinador, a Team Asics, e tenho todos os apoios necessários. Tenho pessoas que vou reunindo para me ajudarem no meu trabalho e juntamente com o meu treinador [Manuel Nicolau] e a minha família tenho as condições necessárias para me focar 100% no treino e continuar a evoluir.
- Bola Branca 18h14
- 13 jul, 2026









