Casa Comum

"Quando somos nós a querer avançar para a liderança, há coragem. Quando são os outros, é taticismo?"

23 abr, 2026 - 01:00 • José Pedro Frazão

Mariana Vieira da Silva não se sente visada pelas referências de Pedro Nuno Santos ao "tacticismo" de figuras do PS, mas "não se revê" nessa crítica "seja ela dirigida a quem for". Já Duarte Pacheco acredita que o ex-líder vai embaraçar José Luís Carneiro, talvez já na votação do Orçamento do Estado para 2026.

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Mariana Vieira da Silva "não se revê" nas acusações de taticismo dirigidas por Pedro Nuno Santos a camaradas de partido no regresso ao Parlamento após auto-suspensão do seu mandato de deputado nos últimos seis meses.

Durante o Casa Comum, programa semanal da Renascença, o ex-colega de Pedro Nuno Santos nos governos de António Costa considera que "talvez não tivesse sido boa ideia" que o regresso de o antigo líder – "logo no seu primeiro dia" – passasse por "encontrar uma maneira de se distinguir de todos e mais alguns dentro do partido".

Pedro Nuno Santos não identificou a quem se referia quando falou em "taticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS para avançar para a liderança". Mariana Vieira da Silva não enfia a carapuça: "Se fosse para mim, acho que ele me teria dito", responde.

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A deputada defende-se, alegando que "não há nenhum dia dos últimos muitos anos da minha vida, que eu não tenha passado a dedicar-me ao Partido Socialista, qualquer que seja o seu líder, na procura do melhor resultado possível para o PS".

Entre os nomes geralmente apontados à oposição interna, apenas Duarte Cordeiro optou por afastar-se deliberadamente da Comissão Política do partido. Se a crítica de Pedro Nuno era dirigida ao ex-ministro do Ambiente, Mariana Vieira da Silva não a considera justa. "Não me revejo nessa crítica, seja ela dirigida a quem for", esclarece.

Coragem e taticismo

Pedro Nuno Santos reentrou na atmosfera parlamentar, afirmando que o PS "não precisa de taticistas, mas de gente com coragem". Mariana Vieira da Silva anota dois pesos e duas medidas do ex-líder nas qualificações usadas sem nomear o alvo.

"Não podemos sistematicamente achar que, quando nos disponibilizamos para os lugares e as lideranças dos partidos, somos corajosos. E quando os outros mostram a mesma disponibilidade, são taticistas", replica a ex-ministra socialista.

Mariana Vieira da Silva recomenda implicitamente a Pedro Nuno Santos que se certifique se há vidros no telhado do projeto que construiu para chegar à liderança.

"Certamente muitas pessoas também acharam que, quando em 2018 Pedro Nuno Santos se apresentou no Congresso da Batalha – ainda o governo do PS ia no início –, muita gente tenha considerado isso taticismo. Eu não considerei. Acho que isso faz parte da vida política", clarifica a deputada socialista.

Sobre o que é ou não coragem, Mariana Vieira da Silva entrega esses louros a todos, incluindo Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro, sem os nomear. " A disponibilidade que as pessoas têm para trabalhar politicamente, para fazer trabalho em nome do seu partido e, eventualmente um dia, caso o entendam, liderá-lo, é sempre um ato de coragem".

Para a ex-ministra, "os partidos precisam de todos, deve sempre haver alternativa, deve sempre haver diálogo e debate interno nos partidos que, como grandes partidos que são, têm as suas divergências".

Questionada mais uma vez sobre a ausência de candidatos alternativos a José Luís Carneiro, Mariana Vieira da Silva lembra que defendeu outro calendário interno mas " as coisas são como são".

Todos, todos, todos

No seu regresso ao Parlamento, Pedro Nuno Santos não deixou de vincar o "muito que o distancia" de José Luís Carneiro, apesar de serem do mesmo partido, reafirmando a sua oposição a uma "estratégia centrista".

Ao longe, no estrangeiro, Mariana Vieira da Silva torce o nariz a este discurso do ex-líder. "Num primeiro dia de um regresso, fazer divisões quer face ao secretário-geral quer face a outros, não parece a coisa mais importante agora", contrapõe a ex-ministra do PS.

A deputada só concorda com o início dos três minutos de intervenção de Pedro Nuno Santos nos Passos Perdidos. "Todos somos poucos para combater um governo muito incompetente e que defende coisas das quais nós discordamos para o país. Então, se todos somos poucos, então, concentremo-nos no essencial", aconselha Mariana Vieira da Silva que lembra o direito do ex-líder ao seu mandato.

"Ele tem o dever de ajudar o Partido Socialista e é isso que deve fazer. A sua presença não me prejudica nada e julgo que ao Partido também não", afirma a propósito do regresso de Pedro Nuno Santos à Assembleia da República. "Todos somos poucos e é preciso trabalhar e não estar nestes comentários de Passos Perdidos", remata.

Visto da bancada

Para o social-democrata Duarte Pacheco, o regresso do ex-líder do PS é um direito totalmente legítimo. "Mas Pedro Nuno Santos nunca é capaz de estar só por estar, e portanto vai querer marcar uma posição política", assegura o ex-deputado do PSD.

O social-democrata não tem dúvida que Pedro Nuno Santos será um embaraço para José Luís Carneiro no Parlamento. "Poderemos ver isso brevemente, quando chegar o próximo Orçamento de Estado, em que certamente ele vai suspender outra vez o mandato ou, porventura, vai ter que votar de uma forma diferente face ao Partido Socialista", sugere Duarte Pacheco.

O ex-deputado do PSD diz que "fica mal" a Pedro Nuno Santos "entrar para vir destabilizar o Partido Socialista", sustentando que não faz sentido "começar desde já aos tiros, desviando a atenção para uma eventual crise interna no Partido Socialista, depois da Comissão Política ter sido eleita e de haver sondagens simpáticas para o Partido".


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