Direito à Justiça
PJ apela à “maturidade” e “proatividade” das operadoras para denunciar picos de comunicações suspeitas
15 abr, 2026 - 07:00 • Liliana Monteiro , Diogo Camilo (gráficos)
Neste episódio do podcast Direito à Justiça, o coordenador da Unidade Nacional do Cibercrime da PJ diz ser possível maior colaboração das operadoras com as polícias para identificar atos suspeitos. Bastonário da Ordem dos Advogados defende responsabilização das plataformas digitais quando não fiscalizam o seu próprio uso para cibercrime. GNR diz que sofisticação do crime está maior.
“É possível, ou não, às operadoras dizerem que houve um pico suspeito de comunicações e alertarem as polícias? É esta proatividade que espero que consigamos atingir com maturidade.”
A questão é levantada por José Ribeiro, coordenador de investigação criminal da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica, no podcast Direito à Justiça, da Renascença e da Ordem dos Advogados, que conta ainda com o tenente-coronel Carlos Canatário, porta-voz da GNR, num episódio onde se fala sobre burlas e cibercrime.
Ao falar da cooperação com as operadoras de telecomunicações, fundamental num puzzle onde a troca de informações permite maior rapidez para prosseguir e travar ações criminosas, José Ribeiro considera que é possível às operadoras fazerem mais.
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“Para executar campanhas, os atacantes precisam de modems e cartões SIM pré-pagos que conseguem adquirir fora da União Europeia. Estão anonimizados, não se sabe a quem pertencem e, num determinado momento, ligam centenas de cartões em simultâneo para o ataque. E isso não gera um pico nas comunicações?”, questiona, acrescentando que é nessa altura que considera ser possível alertar as autoridades.
“É esta proatividade que espero que consigamos atingir com maturidade”, reforça.
A Guarda Nacional Republicana e a Polícia Judiciária estão a braços com um número cada vez maior de esquemas e burlas que ganham asas conforme a imaginação dos burlões e hackers. São unânimes ao afirmar que estes atos criminosos “exploram emoções: urgência, medo, ganância, solidão e afeto”.
O tenente-coronel Carlos Canatário revela que agora “não é só o phishing, é também o spear phishing: estuda-se o alvo. Em vez de se lançarem ações para um conjunto alargado de pessoas, recolhem-se dados sobre a vítima para tornar a história mais real. A sofisticação é maior e torna tudo mais difícil de investigar e detetar”.
"Nós somos os principais culpados porque nos expomos cada vez mais”
A burla “Olá pai, Olá mãe”, já muito divulgada, continua a afetar muitas pessoas e apresenta agora uma nova forma de atuação.
“Eles (os atacantes) podem fazer aparecer na chamada o número que entenderem, podendo ser o número de alguém que nem sabe que está a ser usado para esse fim, tudo para credibilizar a chamada. Consegue-se clonar a voz de um familiar (pai, mãe, avó, filho) e criar um texto de emergência a pedir uma transferência. Já não é só smishing e por SMS: já há deepfake usando a voz, e nós somos os principais culpados porque nos expomos cada vez mais”, explica o coordenador da PJ, José Ribeiro, referindo-se aos conteúdos de imagem e áudio que muitos partilham nas redes sociais e que servem de base para estes crimes.
Mas por que motivo continuam as pessoas a cair neste falso pedido de ajuda financeira? “A urgência das tarefas do dia a dia e as preocupações com o que têm de fazer após o trabalho são terreno fértil para os cibercriminosos. As pessoas agem muitas vezes sem pensar.” Acrescenta ainda que esta técnica é desenvolvida a baixos custos, sem grandes investimentos.
O inspetor José Ribeiro dá o exemplo: “Quando precisamos de aceder a uma plataforma e nos é perguntado se aceitamos cookies ou o uso de dados para publicidade, a urgência e a necessidade de aceder ao conteúdo do site fazem-nos clicar sem pensar duas vezes no destino que vai ter a nossa informação.”
“Consegue-se clonar a voz de um familiar (pai, mãe, avó, filho) e criar um texto de emergência a pedir uma transferência. Já não é só smishing e por SMS: já há deepfake usando a voz, e nós somos os principais culpados porque nos expomos cada vez mais”, explica o coordenador da PJ
"Linhas vermelhas já foram ultrapassadas há muito tempo"
Os convidados deste episódio são unânimes ao afirmar que o espaço virtual e as plataformas são hoje usados para um sem-número de finalidades ilegais, muitas vezes com controlo nulo ou quase inexistente por parte dos proprietários desses espaços e ferramentas.
O bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, considera que está na altura de responsabilizar.
“As plataformas têm de ser responsabilizadas. São um meio de divulgação e estão a lucrar sem as inerentes desvantagens. Estamos a dar um filão a alguém que ganha cada vez mais dinheiro com isto e, quando chega a hora de serem responsabilizados, dizem que não têm nada a ver com isso.”
Questionado sobre porque considera que ainda não se avançou nesse sentido, responde: “Porque há receio de avançar com certas medidas”, lembrando que “nos EUA já existe responsabilização por suicídios e, lentamente, as plataformas estão a ser responsabilizadas. A minha esperança é que se tome consciência de que há um limite e que as linhas vermelhas já foram ultrapassadas há muito tempo.”
Há vergonha em apresentar queixa por cibercrime, e muitas denúncias de burlas são feitas tardiamente. Por isso mesmo, a Polícia Judiciária e a GNR apelam à rápida denúncia por parte das vítimas destes crimes.
“É nossa perceção que há muitas cifras negras. Penso que ainda existe muita relutância em apresentar queixa. Muitas pessoas dizem sentir vergonha e não conseguem falar com a família, e dizem-no expressamente”, relata o coordenador da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica, José Ribeiro, que reforça a importância de denunciar.
“Não significa que consigamos recuperar o prejuízo, mas permite conhecer o modus operandi do esquema, contactar outros países, e o sucesso das investigações parte daí. A mais-valia está na facilidade da cooperação, que na sua maioria funciona bem.”
Do lado da GNR, o tenente-coronel Carlos Canatário refere que muitas vezes “quando a situação chega, já é difícil recolher elementos que permitam alcançar resultados”, alertando que “como em todos os outros crimes, deve-se denunciar o mais rapidamente possível, recolher números de telefone, gravações de voz, URLs (que identificam e localizam recursos na internet, como páginas web, ficheiros ou imagens) e outros dados que permitam à investigação avançar”.
Criminosos digitais entram nos aparelhos com facilidade
“Atuam nos nossos sistemas — computador e telemóvel — e não precisam da nossa intervenção para abrir portas ao acesso aos dados. Os infostealers entram nos aparelhos apenas através da utilização que fazemos da internet”, explica José Ribeiro.
Este responsável da Polícia Judiciária revela que, em muitos casos, os cibercriminosos não estão em Portugal, mas noutros países, como na Ásia ou em países de língua portuguesa, com acesso online a contas bancárias. Conseguem captar credenciais, aceder a contas e realizar transferências imediatas, convertendo depois o dinheiro em criptomoedas. As vítimas, essas, estão espalhadas por todo o mundo.
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"O mais importante não é prender pessoas"
José Ribeiro explica que “para quem trabalha no cibercrime, o mais importante não é prender pessoas, mas sim apreender sistemas e estruturas informáticas, porque é isso que fragiliza estes grupos”.
Aumentaram as burlas com casas para alugar
Burlas com casas de férias e vendas online entre as mais detetadas pela GNR
“Estamos a falar de casas de aluguer para férias. Os burlões aproveitam-se do sentimento de urgência das pessoas em marcar férias à última hora. Faz-se uma pesquisa na internet, surgem preços apelativos e a pessoa acaba por tomar decisões menos cautelosas. Esta é uma situação de burla muito frequente”, explica o porta-voz da GNR.
Em 2024 registaram-se 3.369 crimes de burla na aquisição ou aluguer de bens móveis. Em 2025, esse número subiu para 3.842.
No total, registaram-se 18.523 crimes de diferentes tipos de Burla, um aumento de 2,81% (+506) relativamente ao ano de 2024.
Nos locais com mais registo de crimes, destacam-se os distritos do Porto, Setúbal e Lisboa com mais de dois mil registos cada. As maiores subidas ocorreram em Leiria (+134) e Santarém (+97) e a maior diminuição no distrito de Faro (-140).
Mas há mais: as compras e vendas online têm sido um dos principais meios para enganar e lesar muitas pessoas.
“Temos inúmeras situações de compra e venda de bens online. As pessoas são contactadas com propostas e informadas de que o pagamento será feito através de plataformas digitais. Acabam por ser enganadas. Os alegados compradores pedem determinados códigos e, em vez de receberem um pagamento, estão a permitir um levantamento de dinheiro. É importante que as pessoas percebam que isto pode acontecer, especialmente quando não dominam estas ferramentas”, alerta Carlos Canatário.
“Estamos a falar de casas de aluguer para férias. Os burlões aproveitam-se do sentimento de urgência das pessoas em marcar férias à última hora. Faz-se uma pesquisa na internet, surgem preços apelativos e a pessoa acaba por tomar decisões menos cautelosas”, explica o porta-voz da GNR.
Durante o ano de 2025, foram identificados 11 113 suspeitos, dos quais 47 foram constituídos arguidos, 65 acabaram detidas (45 homens e 20 mulheres) menos 41 que em 2024. A maioria é distrito do Porto, Braga, Faro e Leiria. Em matéria de idades, os detidos têm na sua maioria entre os 30 e os 50 anos.
Durante o ano de 2025 foram identificadas 19 332 vítimas, a maioria nos distritos do Porto, Setúbal, Lisboa e Faro. A maioria das vitimas é so sexo masculino. Já quanto às idades dos alvos começam antes dos 12 anos, com maior percentagem entre os 40 e os 64 anos.
Relativamente ao Modus Operandi mais utilizado, verifica-se, à semelhança do ano anterior, através do ato de compra/venda (2 580), publicações nas redes sociais (2 019) e em terceiro lugar, através da aplicação MB WAY (1 518).
Desconfiar e “ter um pé atrás”
A GNR aconselha: “Devemos ter sempre um pé atrás quando nos oferecem alguma coisa. É importante manter o subconsciente alerta, sobretudo quando a oferta toca numa necessidade imediata — é aí que o alerta deve ser reforçado.”
Já a PJ deixa um apelo ao mundo empresarial: “Desconfiem sempre quando há pedidos de fornecedores para pagamentos para outro IBAN ou conta”, alertando que “quando um hacker acede aos sistemas — que estão frequentemente interligados — e se for usada a mesma palavra-passe para tudo, o trabalho fica facilitado. A mudança regular de palavra-passe é fundamental.”
O coordenador José Ribeiro recorda ainda que “quando há exfiltração de informação — o que temos de mais rico hoje —, são os dados da empresa que desaparecem, e sem eles a empresa pode deixar de funcionar.”










