DÚVIDAS PÚBLICAS

“Não tenho dúvidas”. Confederação admite pequenos e médios empresários “disponíveis” para aderir à greve geral

06 dez, 2025 - 08:00 • Sandra Afonso , Susana Madureira Martins , Ricardo Fortunato (vídeo) João Campelo (sonorização)

Jorge Pisco pede a intervenção do Governo, na sequência do aumento do preço do bacalhau congelado, importado da Rússia através da Noruega. Apesar dos avisos, até agora o secretário de Estado das Pescas e do Mar não deu qualquer resposta aos pedidos da confederação para agir junto de Bruxelas de modo a aliviar as sanções à Federação Russa.

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"Sanções à Rússia levaram a que o preço do bacalhau aumentasse mais de 50%"
Veja o programa Dùvidas Públicas.

O presidente da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME) acredita que “muitos” empresários deste setor poderão aderir à greve geral marcada para quinta-feira. Jorge Pisco diz não ter “dúvidas” que existe essa disponibilidade, tendo em conta as dificuldades que atravessam.

Em entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, Jorge Pisco critica as alterações ao Código do Trabalho e a falta de diálogo do Governo com a CPPME sobre o anteprojeto. “Só ouvimos os grandes grupos económicos a defenderem o pacote laboral”, acusa o presidente da Confederação, que acrescenta a farpa: “Foram ao alfaiate fazer o fatinho à medida daquilo que pretendem”.

Questionado sobre os fundos do PRR que serão agora canalizados para o tecido empresarial, Jorge Pisco diz não ter “dúvida” que o financiamento do Banco de Fomento terá as grandes empresas como prioridade, falando mesmo de “discriminação” na atribuição dos apoios financeiros.

Para este Natal, não haverá falta de bacalhau à mesa da consoada, mas o presidente da CPPME alerta para o aumento do preço deste peixe, importado da Rússia através da Noruega e que, por isso, sofre com as sanções impostas à Federação Russa. Jorge Pisco já pediu a intervenção do Governo português que, até agora, segundo diz, não deu qualquer resposta.

Como é hábito, pedimos ao nosso convidado uma música para encerrar o programa. Jorge Pisco escolheu “Verdes Anos” do compositor Carlos Paredes, que o presidente da CPPME define como “um dos grandes vultos da cultura portuguesa do século XX”.


As alterações à lei laboral que estão em discussão respondem aos problemas das micro e pequenos empresários?

Não. Não nos parece que seja essa a principal preocupação das micro, pequenas e médias empresas. São 99,9% do tecido económico nacional e, no atual contexto, não é o código laboral que permite resolver os atuais contratos de trabalho e não é essa a situação que nos preocupa. Não é necessário apertarmos o garrote a quem dá o contributo decisivo para a criação da riqueza e da economia nacional, para estarmos, neste momento, a discutir aquilo que tem sido o prato forte do Governo nestes últimos tempos. Temos outras preocupações, muito mais latentes do que essas.

Esta greve geral justifica-se ou é inoportuna, como disse a ministra do Trabalho?

Houve quem me questionasse sobre se seria ou não correto da parte dos empresários. Mas não tenho dúvidas. Quando os trabalhadores avançaram e, neste caso, as duas centrais sindicais avançaram para a convocação da greve, nada me admira, porque não houve um diálogo consentâneo por parte do Governo com CGTP e UGT.

No caso concreto da CPPME, até hoje estamos a aguardar que da parte do Governo houvesse diálogo connosco, relativamente a esta situação. Portanto, fala-se tanto em diálogo, mas, na realidade, o diálogo fica sempre à porta.

Pediram uma audiência ao governo?

Nós tivemos uma audiência com o Secretário de Estado do Trabalho, tivemos ocasião também que nos enviasse a versão que existia na altura. Ao que parece já haveria uma segunda versão, mas é capaz de haver já outras versões. O que nos foi dito é que era público, “façam-nos chegar as vossas sugestões”. Se isto é diálogo, então meus amigos, ficamos por aqui.

Acha que estes pequenos empresários, muitos são patrões deles mesmos, também se vão juntar à greve?

A nós não nos surpreende. Não nos admira que muitos empresários estejam com essa disponibilidade. Uma microempresa vai até nove trabalhadores. Uma pequena empresa vai de 10 a 49 trabalhadores, ou seja, conhecem-se todos. O empresário abre a porta, fecha a porta, atende o telefone, ele faz tudo e mais alguma coisa. Mesmo numa pequena empresa, apesar de aí já poder ter mais alguns recursos humanos e logísticos, conhecem-se todos e também eles gostariam de ter aqui uma palavra. Muitos, provavelmente, poderão estar disponíveis para avançar [para a greve], não tenho dúvidas de que possa vir a acontecer. Porque as dificuldades que as micro e pequenas empresas atravessam são enormes, contrariamente ao que é propagandeado diariamente com as benfeitorias que o Governo anuncia. Contactamos com as empresas e essa situação não se verifica.

Diria que é um pacote laboral vantajoso, mas para as grandes empresas?

Nós só ouvimos os grandes grupos económicos a defenderem o pacote laboral. Essa é que é a realidade. Não ouvimos mais ninguém nessa defesa. Costuma-se dizer: foram ao alfaiate fazer o fatinho à medida daquilo que pretendem.

Chegaram a ser convidados a entregar propostas para este pacote laboral?

O que o Secretário de Estado disse é que o documento é público,” se quiserem, façam-nos chegar as sugestões que entenderem”.

A Confederação das Micro, Pequenas e Médias Empresas não tem assento na concertação social?

Não. Há dois planos: o conselho permanente, do qual fazem parte o Governo, as duas confederações sindicais e as quatro confederações empresariais e depois existe o plenário, constituído por confederações empresariais, sindicais e setores sociais e que é eleito cada vez que há legislativas.

Neste momento, ainda falta fazer essa eleição?

Está em vigor o plenário que foi eleito no ano passado, na anterior legislatura, ou seja, já devia ter sido anunciado a nova candidatura.

Pretendem concorrer novamente?

Ao longo dos 40 anos da Confederação, temos sempre concorrido. Há oito lugares para as confederações empresariais e nós concorremos sempre e somos sempre preteridos, porque as quatro confederações que fazem parte do Conselho Permanente (CIP, CCP, CAP e Turismo) recusam que existam no plenário outras confederações para além delas.

Como justificam essa decisão?

Dizem que não, porque são eles que representam a maioria e ficam com os oito lugares. Neste momento, temos dois processos no Tribunal Administrativo, relativamente a duas anteriores candidaturas. Já lá vão quase oito anos. Já recorremos à Assembleia da República, ao Presidente da República, que já tem tido intervenções públicas em que considera que não pode haver confederações de primeira e de segunda.

Pode haver aqui algum problema de inconstitucionalidade?

É muito provável que haja e consideramos que sim. Não se compreende aquilo que se tem verificado ao longo destes últimos anos.

O que é que gostava de ver alterado no Código do Trabalho em vigor? Há necessidade de mexer na lei?

Não me parece que haja. A alteração que acho que tem de haver é a necessidade de o Governo criar as melhores condições para as empresas trabalharem. Isso é que tem de existir. Ou seja, o atual Código do Trabalho já sofreu alterações, está adequado, as empresas podem laborar com aquilo que existe em cima da mesa. Temos é que criar condições no que diz respeito a taxas, a despesas de contexto, custos dos combustíveis, as rendas, os alugueres, tudo isso é que nos preocupa a nós empresas, porque esse é o dia a dia das empresas.

Não há aqui medidas que podem beneficiar ou prejudicar as micro, pequenas e médias empresas?

Um ou dois aspetos. Por exemplo, falou-se muito na questão das horas de amamentação. Podemos agarrar nessa situação e, em vez de ser a entidade patronal a suportar as horas de amamentação, deveria ser a Segurança Social para a qual a empresa já paga 35%. Se calhar essa era uma situação que deveria ser revertida. Mas não é necessário estarmos a alterar 100 medidas no Código do Trabalho. Se fizermos um inquérito porta a porta nas empresas, aos tais 99,9% dos empresários, o código laboral não lhes diz absolutamente nada, diz sim a estes grandes grupos económicos que pretendem esmagar e ter aqui um papel diferenciador.

Medidas como a flexibilidade dos despedimentos, o recurso imediato ao outsourcing?

Pois é, mas o nosso problema é a mão-de-obra, em diversos setores. Falamos muito na flexibilização da mão de obra, mas depois não encontramos trabalhadores e não sabemos como resolver a situação.

Vamos então às questões que reivindicam.

A Confederação fez este ano 40 anos. Temos sistematicamente apresentado ao Governo, todos os anos, aquando da discussão dos Orçamentos do Estado, um conjunto de documentos. Este ano, aquando do início desta legislatura, entregámos 47 medidas, que vão desde o investimento, fundos comunitários, finanças e tributação, formação, investimento.

Estas 47 medidas foram entregues antes da aprovação do Orçamento do Estado, viram refletida alguma delas na proposta?

Zero. Nós tivemos reuniões com o senhor Ministro de Estado e das Finanças que nos recebeu e que teve ocasião de acolher as propostas e de nos dizer que a maioria delas faziam parte do programa do Governo, excetuando aquelas que diziam respeito ao ponto de vista fiscal. Nós também tivemos ocasião de dizer que, na realidade, estas propostas vinham sendo discutidas em anteriores legislaturas, com os diversos partidos com assento parlamentar e que já em anteriores legislaturas o próprio partido que hoje está no Governo nos vinha dizendo que se estivesse no governo estaria de acordo com elas. E nós dissemos que agora estaria na altura, podiam aprová-las. A mesma coisa relativamente aos outros, ao PS e outros que estiveram na oposição, que tinham condições, só não colocavam porque o Partido Socialista tinha tido maioria absoluta. A maioria são propostas que não têm custos para o erário público.

Nem as medidas fiscais?

Eu disse que a maioria delas não tem custos para o erário, excetuando as questões da redução do IVA.

Ou a eliminação da tributação autónoma.

Por exemplo, a disponibilização da certidão permanente do registo comercial, não é um custo. A desburocratização não é uma medida que tenha de ter custos. Há todo um conjunto de medidas que nós temos solicitado, com as quais o Governo os diversos ministérios até vão estando de acordo, estamos de acordo nas reuniões, mas depois, não se concretizam. Costumo dizer que as reuniões correm sempre muito bem. O problema é que depois não há resultados. Precisamos de resultados práticos.

Disse que nas reuniões é tudo “sim, sim, sim”. As alterações fiscais também têm esse consentimento? Também têm luz verde nessas reuniões?

Não, o IVA não teve. Os ministros disseram-nos logo que não.

Nem para agora nem para depois?

Não. A política deste governo é o IRS e daí não saíam.

Cederam no IVA da construção.

Nós também tínhamos essa proposta, mas cederam. É preciso ver e até ao lavar dos cestos é vindima, como eu costumo dizer e diz o ditado. Aguardemos para ver depois como é que isso vai funcionar.

Desconfia que não vá tão longe?

Não sei. A minha desconfiança vem dos anos de experiência, porque assim é tudo muito bonito, quando se diz, mas depois é preciso ver no concreto como está. Digo isto porque temos a questão do IVA das bebidas, que já foi aprovado em sede da Assembleia da República e ainda não está aplicada e há muitos anos que está aprovado em Assembleia da República e não está aplicado. Há coisas que é preciso dar tempo ao tempo e ver como é que as coisas acontecem, porque na realidade uma coisa é aquilo que se diz, outra coisa é aquilo que se faz.

Sobre o acesso ao financiamento e à mão de obra, são bloqueios para as micro, pequenas e médias empresas?

Se formos a ver, uma micro, pequena, empresa tem sempre grandes dificuldades na questão dos financiamentos. Em todos estes projetos que seja do 2020, agora do 2030, do PRR. As microempresas quase nunca conseguem ter acesso a esses financiamentos.

Com a reestruturação do PRR, parte do financiamento passou para o Banco de Fomento e está, outra vez, disponível para as empresas. Acha que é uma nova oportunidade para as micro, pequenas e médias empresas?

Tivemos uma reunião com o senhor presidente do Banco de Fomento.

Hoje o Banco de Fomento tem uma outra atividade, diferente daquela que estava a ter até aqui. Tem um propósito que é um propósito da banca, que visa também uma atividade comercial e de lucro. Serve para dar aval e crédito à banca comercial. Se eu não tiver condições do ponto de vista financeiro, há condições para poder ir à banca? Não. E depois, o Banco de Fomento dá esse suporte financeiro não é a mim, é a garantia bancária ao banco para que me dê esse aval.

Em relação à mão de obra, as alterações à política de imigração respondem às necessidades de trabalhadores estrangeiros nas micro, pequenas e médias empresas?

Nós tínhamos reunido com a anterior ministra do Trabalho que nos tinha dado nota na altura de que tinham criado a possibilidade de haver uns adidos, depois houve alterações e houve a assinatura por parte das quatro confederações que teceram loas e maravilhas a tudo isto. E depois, quais são os resultados que temos da vinda desses imigrantes para Portugal? Os números que temos são números residuais. Há aqui, um folclore, se me permitem a expressão. Fizeram quando lhes deu jeito fazer a assinatura de um acordo que, depois, no concreto, não serve para nada, do ponto de vista daquilo que é o dia a dia da vinda dos imigrantes e da resposta a dar à situação do outro.

Outra medida muito contestada tem sido a retirada dos apoios aos combustíveis através do ISP. Acha que terá impacto nas contas destas pequenas empresas?

Claro que tem. Ou seja, tudo o que é custos de contexto de uma de uma empresa tem um impacto extraordinário. Os combustíveis, a eletricidade, os seguros, são. É isso que no dia a dia, ou seja, no mês da empresa, tem esse impacto fundamental. Na questão da energia elétrica, são 30 a 40% dos custos de produção de uma empresa. Não é por acaso que as outras confederações também tiveram recentemente uma reunião com os representantes da União Europeia relativamente à descida dos custos, porque algum restaurante pode chegar ao final do dia e fechar a porta e desligar o quadro elétrico? Não pode, claro. Isso custa imenso dinheiro às empresas. São estas as preocupações que o empresário tem, não é se tem ou não que alterar o código laboral. Se voltarmos novamente ao início da nossa conversa, acho que essa é a questão. A preocupação que o empresário do restaurante tem, é que hoje faltou-lhe a senhora da cozinha porque adoeceu.

A gestão de faltas faz parte do código laboral.

Mas como é que ele resolve a situação?

Código laboral?

Pois é, mas é que não há código laboral que resolva a situação, porque na realidade ele depois não tem condições para encontrar solução para a senhora que adoeceu ou a quem o filho adoeceu.

Uma das medidas que o Governo apresenta às empresas, e segundo os trabalhadores, é uma medida para as empresas e não para os trabalhadores é o banco de horas individual.

Vou dar um exemplo. Um dos dirigentes da confederação dizia-me há dias que tem 19 trabalhadores e que, se tem falta de uma ou duas pessoas, não há forma de resolver, porque depois não tem forma de encontrar a solução. Ou seja, não há aqui banco de horas, nem há outra forma de encontrar solução.

Nem há serviços mínimos.

Nem há serviços mínimos. E este caso eu conheço perfeitamente, porque ele passou a fechar. Passou a fazer férias. Quando fecha, fecha para toda a gente. É a única forma de poder resolver a situação, porque não há alteração possível.

O banco de horas individual só resulta para empresas grandes, com muitos trabalhadores?

Não há aqui passes de mágica, Numa empresa com nove trabalhadores, fazemos o quê? Com 30 ou mesmo com 40 em pequenas secções, como é que nós resolvemos essa situação?

As empresas mais pequenas têm sido obrigadas a fechar devido a estes problemas que já apontou dos custos contexto a fatura energética ou o acesso a financiamento? Há números disso.

Pois vai havendo e alguns não se conhecem. Não posso adiantar muito, porque também há muitos números que procuramos obter e não conhecemos. Mas, por exemplo, esta semana veio a público uma grande empresa no Norte do país que recebeu milhões no ramo do têxtil e que foi para a insolvência. Atrás disso leva outras empresas que é disso que vivem, mas, entretanto, receberam milhões de euros.

Isto acontece com muita frequência?

Se calhar, mais do que aquilo que nós conhecemos. O problema é que muitas coisas não vamos conhecendo, porque não vêm a público.

Um microempresário, se for lá pedir, não lhe dão esse apoio e estes grandes grupos económicos, é-lhes dado milhões para tentarem resolver. São essas situações que temos em cima da mesa. E há também uma questão cultural que é preciso termos em conta. Por vezes, não queremos dar a cara porque falhámos, sobretudo, em terras pequenas e empresas familiares.

A insolvência é o último recurso?

Tentam sempre. E, por vezes, andam a tentar até à última instância salvar a situação.

E acha que o nosso tecido empresarial, os tais 99%, está preparado para as novas tecnologias para a introdução da inteligência artificial para a digitalização?

Não está. Temos de fazer, temos de dar passos. Temos de criar condições para que isso seja um fator de desenvolvimento nas empresas. Tem-se feito muito pela digitalização, pelas novas tecnologias. Mas há grandes dificuldades em chegar às empresas.

Qual é o problema?

O dia a dia do próprio empresário absorve muito trabalho, não consegue. Todos nós temos telefones, todos nós temos e-mails. Hoje a maior parte dos empresários, por vezes, não consegue, não tem tempo para ler o e-mail que recebeu, não leu. E, por vezes, falamos para o interior e não temos rede, não temos internet.

O país já tem 100% de cobertura.

Como diz? Que disse? Pois olhem, eu vinha para aqui e estava a tentar falar com o vice-presidente da confederação que está em Serpa e foram três chamadas que foram abaixo e não conseguimos falar porque não tem rede. Estamos a falar de Serpa e, como eu costumo dizer, para falar com ele são sempre três ou quatro chamadas. Esta é a realidade que nós temos, não é os tais 100% de cobertura. Não funciona. Temos reuniões dos órgãos sociais por videochamada e, a maior parte das vezes, lá estão os membros dos órgãos sociais a desaparecer do ecrã, porque a internet falhou e não há cobertura. E esta é uma das questões que nós também defendemos, a necessidade de apostar nas novas tecnologias. Há que apostar na formação de trabalhadores, dos empresários.

Um dos objetivos do PRR era justamente a digitalização das empresas, a abertura às novas tecnologias. Acha que falhou no caso das MPME?

Não sei se falhou. Temos é que tentar.

Mas esses fundos não chegaram?

Temos de ir fazendo. Temos sempre uma grande dificuldade. Está tudo previsto, está tudo muito bem e a certa altura nós olhamos e cá por baixo as coisas ainda não subimos ao primeiro degrau e já estamos a dizer que está tudo bem no primeiro andar.

O que é que falta para o dinheiro chegar às empresas que estão no primeiro degrau?

Vamos a um exemplo concreto. Foi criado o Ministério da Reforma de Estado. Já tivemos reunião com o Governo porque temos a nossa proposta de criação de um gabinete de acompanhamento das micro e pequenas empresas que permita a informação célere sobre incentivos públicos, assim como a desburocratização e a simplificação dos serviços da Administração Pública. Existem mais de 300 municípios a nível nacional e achamos que isto deveria existir nas autarquias para permitir aos empresários chegar a essa autarquia e poder ter acesso junto do funcionário que lá estivesse e colocar a sua dúvida sobre as questões da Segurança Social, da Autoridade Tributária. O Governo tem o balcão do empresário, uma coisa muito no digital. E o que nós dizemos é que exista um formato físico, presencial.

E houve disponibilidade do Governo?

Estamos a fazer esse caminho. Aproveitamos o recurso humano que existe lá naquela autarquia que pode servir perfeitamente para resolver esta situação. Isto pode ser um avanço. Para quê? Para a desburocratização e para a simplificação da informação dos empresários.

Teme que o financiamento do Banco de Fomento seja canalizado, mais uma vez, apenas ou com prioridade para as grandes empresas?

Não tenho dúvida. Os dados vão sempre indicando para onde é que vai.

Há uma discriminação?

Há discriminação. Os dados sobre os apoios financeiros, sobre as candidaturas, vão sempre canalizados para os grandes grupos económicos. Não na totalidade, atenção. Mas, privilegiam o setor de um grande grupo, com uma estrutura bastante bem posicionada, de forma completamente diferente de uma micro ou uma pequena empresa.

Estávamos a falar de digitalização. As micro, pequenas e médias empresas estão preparadas para a chegada e utilização da inteligência artificial e o impacto que poderá ter até a nível de gestão que as próprias empresas podem ter?

Não tenho dúvidas nenhumas que jovens empresários mexem perfeitamente em tudo o que são novas tecnologias. Um empresário com alguma idade, não o faz.

Há expectativa sobre redução de postos de trabalho com a introdução das novas tecnologias e o impacto que isso terá?

Não sei. Nalguns casos, se calhar retraem-se um pouco. Estive a falar com o presidente de uma das nossas associadas, a Associação dos Feirantes de Mercados da Região Norte e estava a falar sobre esta questão do aparecimento de grandes superfícies no Norte e o impacto que isto tem depois nas feiras. O impacto que isto tem é o que leva, por exemplo, ao aparecimento de grandes superfícies em que depois vêm os espanhóis, que estão a hora e meia de Porto, de Espinho. E depois estávamos a falar acerca dos filhos dos feirantes. E ele dava-me o exemplo de uma filha de um associado que começou na altura do COVID-19 a vender malas online e que hoje já tem uma loja, tem um armazém, tem nove trabalhadores.

Ou seja, a feira passou para as redes sociais?

O pai continua, mas ela já, sim. Isto evoluiu. Agora, até onde é que isto vai? Não há inteligência artificial nos cabeleireiros. Não haverá. São situações que temos de ter em conta.

Vemos cada vez mais máquinas a substituir operários em chão de fábrica.

Mas é preciso ver que também continuamos a ter depois nos serviços.

Acha que estes pequenos empresários ainda não estão a pensar nisso?

Basta ver os dados que temos do INE de 2023 em termos da área dos serviços. Há um peso significativo das empresas de serviços que temos a nível nacional e não há essa alteração tão significativa.

Não estou a dizer que há, mas que vai haver.

É muito provável, mas não é num curto espaço de tempo.

Acha que ainda não há esse receio no tecido empresarial?

Temos de nos ir adaptando. Temos de salvaguardar tudo isto. A máquina não substituiu o homem em tudo e vai ter de haver, em cada um dos sectores, essa adaptabilidade.

Uma fase de transição, é isso?

Vai ter de haver.

Em relação à sustentabilidade ambiental e à transição energética, que tendem a implicar custos adicionais a estas empresas, como é que vê o desafio de como compatibilizar estas exigências ambientais com a realidade financeira destas empresas?

Nós temos isso em cima da mesa e, neste momento, temos um projeto europeu, que envolve associações empresariais e associações sindicais. Começou agora e vai durar cerca de 18 meses e tem esse princípio. É liderado por uma estrutura sindical portuguesa, mas tem uma confederação búlgara, do Chipre, Montenegro, Países Baixos, para ver a implicação que tem não só nas empresas, mas também a nível dos trabalhadores.

Qual é a estratégia da Confederação para os próximos anos? Tem um mandato até 2027. Quais são as prioridades?

Completamos 40 anos. Estamos, neste momento, na discussão do plano de atividades para o próximo ano, mas a prioridade deste mandato é para o reforço da atividade da Confederação, procurar atingir o maior número de associações e reforçar o trabalho junto das micro e pequenas empresas. É um trabalho difícil, estamos conscientes desta dificuldade, tendo em conta a situação económica e social que se vive.

Que conselho é que daria um jovem empresário ou empreendedor que queira lançar uma micro, pequena média empresa em Portugal?

Aquele que demos num projeto que tivemos, que se chamava Porta 20 e em que tivemos cerca de 600 participantes nos diversos webinars. Antes de avançarem para o que quer que seja na criação de uma empresa, esclareçam-se bem nos passos, porque é muito fácil criarmos a empresa. É preciso sabermos bem aquilo que vamos fazer, não termos receio de avançar, mas sabermos e estarmos muito convictos do que é que vamos fazer, como vamos fazer e qual é o objetivo que temos. Criar uma empresa é fácil, com 1 € nós criamos a empresa, mas a seguir os custos já são negativos.

Mesmo a fechar é porque estamos na altura do Natal. A Confederação colocou a questão do bacalhau que está a chegar ou que deverá chegar a Portugal muito mais caro, porque afinal não vem da Noruega, mas da Rússia. Como é que está essa situação? Tem desenvolvimentos?

A verdade é que o bacalhau está muito mais caro e isso deve-se às sanções económicas à Rússia, que levaram a que o custo do preço do bacalhau aumentasse mais de 50%. A União Europeia introduziu, a partir de 1 de janeiro de 2024, tarifas de 12% à importação do bacalhau congelado russo e excluiu, a partir de 21 de maio deste ano, a importação e comercialização de todo e qualquer produto dos 2 mil armadores daquele país, levando a que penalizasse desta forma a esmagadora maioria das empresas de transformação do fiel amigo. Em Portugal, isto levou a que nós tivéssemos solicitado ao secretário de Estado das Pescas e do Mar uma reunião em que lhe expusemos esta situação, alertando para o facto de que na realidade isto iria penalizar milhares e milhares de famílias e o próprio mercado da saudade que está por todo o mundo. Onde há um português, há um consumidor de bacalhau e, na realidade, esta situação está a preocupar-nos.

E tiveram resposta?

Até ao momento não temos resposta da parte do Governo. O secretário de Estado prontificou-se a que iria levar isto a Conselho de Ministros e, nomeadamente, à União Europeia, mas não temos resposta. É aquilo que nós temos assistido. É que na realidade o preço do bacalhau disparou enormemente e estamos bastante preocupados com esta situação. E esta é daquelas, como há pouco dizia, mais uma daquelas situações com que a confederação se preocupa e que levantou junto do Governo, porque na realidade não é só os consumidores, mas também os próprios empresários que estão em causa.

Não vai haver falta de bacalhau, vai estar é bastante mais caro?

Caro, vai estar muito mais caro. Essa é que é a realidade. Não é que vá existir falta de bacalhau. Os noruegueses é que estão a beneficiar com toda esta situação que se está a verificar.

A Noruega, pelos vistos, não tem falta de bacalhau?

Não tem não, não tem, de modo algum. Tem até muito, muito bacalhau. Mas todos nós julgávamos que o bacalhau viesse da Noruega. Quer dizer, não. Eles compram e vendem-nos. Quem fica penalizado é o consumidor e os empresários portugueses. Contrariamente àquilo que muitos empresários e também um grupo minoritário pensa. Esta é daquelas situações iguais a muitas outras que existem e o Governo português devia, junto das instituições europeias, bater o pé. Quem consome bacalhau não são os espanhóis, somos nós.

E dizer isto significaria aliviar as sanções à Rússia?

Mas é uma situação concreta relativamente àquilo que nos diz respeito, a nós, enquanto país soberano que somos, Portugal e não num produto. É no caso concreto do bacalhau que nós somos um dos grandes consumidores a nível mundial.

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