24 jan, 2026 - 10:00 • Sandra Afonso , Arsénio Reis
Com o mundo cada vez mais fragmentado e uma guerra comercial que impõe novos acordos e está a redistribuir a relação de forças entre os grandes blocos económicos, o encontro anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, concentrou este ano todas as atenções.
A Gronelândia foi um dos temas em destaque e estará a unir os Estados-membros, que deram um “murro na mesa” contra a nova ameaça de Donald Trump de agravar as tarifas. No entanto, apesar da resposta representar todos, a ameaça dirigia-se apenas a alguns.
Em entrevista à Renascença, o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), Ricardo Cabral, sublinha que esta última ameaça do presidente norte-americano não abrangia os países do sul da Europa.
Por outro lado, esta é uma questão que “a nós, Portugal, não nos diz respeito”, defende Ricardo Cabral. Por isso o país não se deve envolver.
Ainda assim, se, em vez da Gronelândia, Trump reivindicasse a Base das Lajes, não queríamos ter todo o apoio da família europeia? O professor de economia do ISEG acredita que o resultado seria o mesmo: “No fim do mandato [de Donald Trump] vai estar uma bandeira norte-americana na Gronelândia”, se a pretensão dos Estados Unidos passar pela Base das Lajes, “não temos qualquer hipótese, compete-nos assegurar que os interesses daquela população são assegurados, não é realista pensar que vamos impedir os Estados Unidos”, conclui.
O professor defende que a União Europeia não tem, praticamente, armas de negociação para enfrentar a Casa Branca. Dá como exemplo a energia. Depois da invasão da Ucrânia os Estados-membros trocaram a Rússia pelos EUA, como fornecedor, e estão hoje muito mais dependentes e vulneráveis.
Avisa ainda que o mais importante a ter em conta, nas conversações sobre a Gronelândia, é evitar um confronto bélico entre grandes blocos económicos, que no limite poderia conduzir a uma guerra nuclear.
Estudo
Mais disciplina orçamental, mais investimento públ(...)
Ricardo Cabral analisa ainda o impacto da política económica de Donald Trump, dentro e fora do país, o crescimento da China e o novo reposicionamento dos blocos comerciais, o ataque à Venezuela e a gestão do petróleo do país directamente por Donald Trump e à margem das contas oficiais.
No plano interno, Ricardo Cabral acusa os últimos governos de “se demitirem das suas funções estratégicas” na Galp.
Em causa está a anunciada fusão entre a petrolífera portuguesa e a espanhola Moeve, que passará a controlar a única refinaria nacional. Mas esta não é a única decisão polémica da Galp, Ricardo Cabral deixa vários exemplos de decisões fortemente contestadas e lembra que este é um setor estratégico.
O governo é acionista da Galp, deve promover uma avaliação profunda antes de tomar uma decisão sobre este negócio, de acordo com o professor.
Na política económica dos governos de Luís Montenegro, destaca as descidas de impostos para as empresas, para o capital e para os rendimentos mais altos. Sublinha ainda a abertura da segurança social aos privados: “parece-me que há uma tentativa de mudar algumas peças importantes do enquadramento político, por exemplo, a criação de contas poupança, se não forem tributadas, é uma forma de privatização da segurança social”.
Nesta entrevista ao programa Dúvidas Públicas o professor do ISEG defendeu ainda que é possível pôr a economia a crescer mais 2,6% ao ano através da redução da dívida externa. São conclusões de um estudo apresentado esta sexta-feira, que recomenda ao governo que faça mais investimento público estratégico e com dimensão, que negoceie transferências diretas da União Europeia para compensar os custos da moeda única e mais disciplina orçamental.
O professor de economia do ISEG, Ricardo Cabral, foi o convidado deste sábado do programa Dúvidas Públicas, disponível em podcast, no Youtube e aqui no site da Renascença.