Dúvidas Públicas

Estragos do mau tempo estão a ser indemnizados sem peritagem muito acima dos mil euros, dizem corretores de seguros

14 fev, 2026 - 08:00 • Sandra Afonso , Arsénio Reis

Em entrevista à Renascença o porta-voz da APROSE, que representa os mediadores de seguros, garante que os procedimentos estão a ser acelerados, apesar das dificuldades no terreno. Estão a ser indemnizados sinistros sem peritagem muito acima dos mil euros. Rui Silva avisa ainda que os prémios deverão aumentar depois deste "comboio de tempestades", que já representa a maior indemnização de sempre paga pelas seguradoras em Portugal.

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Seguradoras "estão a fazer grande esforço" para fazer peritagens mais cedo
Seguradoras "estão a fazer grande esforço" para fazer peritagens mais cedo

A sucessão de tempestades que atingiu, sobretudo, as zonas de Leiria e Coimbra, já é considerada a maior calamidade de sempre no país. As contas ainda estão a ser feitas, mas as seguradoras já apontam para uma fatura na ordem dos 500 milhões de euros, que representa 15% dos prejuízos totais. O valor ainda deverá subir, mas ficará sempre aquém do montante global, porque apenas um em cada quatro imóveis está segurado.

São explicações avançadas ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, por Rui Silva, porta-voz da Associação Nacional de Agentes e Corretores de Seguros (APROSE), que será ouvida em comissão parlamentar na próxima quarta-feira, juntamente com o regulador (ASF) e os representantes das seguradoras (APS).

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Estes 500 milhões que serão pagos em indemnizações já representam o valor mais alto de sempre garantido pelo setor em Portugal. Rui Silva explica nesta entrevista que será pago pelas resseguradoras internacionais, mas a fatura acabará por ser refletida nos prémios cobrados em Portugal. Ou seja, os seguros deverão ficar mais caros.

Rui Silva garante ainda no programa Dúvidas Públicas que as companhias "estão a fazer um grande esforço" para acelerar os pagamentos, depois do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ter criticado na última sexta-feira, em visita a Coimbra, a demora nas peritagens.

As seguradoras tinham garantido ao Governo que "cerca de 80% das peritagens seriam feitas no espaço de 15 dias". Rui Silva lembra que os prazos para o fazer são muito maiores, mas as seguradoras até estão a abdicar das peritagens em sinistros muito acima dos mil euros, para acelerar os pagamentos.

O porta-voz da APROSE explica também como e até quando devem ser feitas as participações às seguradoras, como podem os tomadores garantir que os bens estão protegidos contra tempestades e cheias e deixa alguns conselhos aos proprietários.

Em linha com o setor, também os mediadores aplaudem as declarações do ministro das Finanças, Miranda Sarmento, que em entrevista à Renascença e Público garantiu que o Fundo para Catástrofes e Sismos avança ainda este ano. No entanto, sublinha que será cada vez mais difícil fazer seguros em zonas habitualmente atingidas por cheias, por exemplo, à medida que se tornam mais frequentes estes fenómenos meteorológicos extremos.


As recentes tempestades afetaram milhares de pessoas no país, mas nem todas têm os bens segurados. Têm uma ideia de qual é a percentagem de vítimas com seguro?

Uma coisa que se sabe é que a percentagem é baixa, em relação àquilo que deveria ser. A percentagem anda na casa dos 25%, de todos os bens que são seguráveis, a nível de imobiliário. Estamos a falar de casas, de condomínios, de infraestruturas, apenas 25% têm seguro em Portugal, o que é um valor muito baixo, comparando, por exemplo, com os nossos parceiros da União Europeia.

Inclui particulares e empresas?

Inclui particulares, empresas e infraestruturas, nestes 25%. É claro que os particulares, aqueles que moram em condomínios, têm uma percentagem um bocadinho maior, pelo menos a cobertura de paredes.

Nestes casos o seguro é obrigatório.

Exatamente. As empresas também, muitas vezes, têm mais cuidados com tudo o que está relacionado com os seguros, e também têm uma percentagem provavelmente bastante superior. Mesmo assim, falta muita proteção em Portugal, a nível de multirriscos e não só.

Apenas 25% das casas, condomínios, infraestruturas têm seguro em Portugal, o que é um valor muito baixo

Como é que se explica esses 25%? Olhando de fora, é uma percentagem particularmente baixa.

Explica porque há aqui uma falta, às vezes, de cultura preventiva e de segurar aquilo que pode ser segurável, para prevenir algum azar que aconteça um dia. Falta também o Estado fazer seguros.

As chamadas obras de arte, pontes e outras infraestruturas, públicas ou privadas, têm seguros?

Pelo conhecimento que tenho, a maioria de tudo que seja estatal não tem seguro.

Esta ponte que ruiu e que impede a circulação na A1 no dia em que falamos, e estamos a gravar na sexta-feira, não tem um seguro?

É muito provável que não tenha. Uma das coisas que se tem falado muito nos últimos anos tem sido um fundo de catástrofes, que permitiria depois também segurar todos estes bens e passar desta proteção de 25% para uma proteção muito maior.

Em termos de valores, prevê-se que esta tempestade Kristin, a pior até hoje, tenha provocado danos na casa dos quatro mil milhões de euros.

Aquilo que as companhias estão a prever pagar, em termos de indemnizações, anda na casa dos 500 milhões de euros

O primeiro-ministro já fala em 4.600 milhões.

E os números estão a aumentar diariamente. Aquilo que as companhias estão a prever pagar, em termos de indemnizações, anda na casa dos 500 milhões de euros. Mesmo assim, é o pior sinistro que aconteceu em Portugal nos últimos 20 anos, para trás, penso eu, também será.

Será o maior valor suportado pelas seguradoras?

Sim, penso que sim.

Mas dos quase 5 mil milhões, as seguradoras preveem suportar 500 milhões?

Sim, 500 milhões, o que é muito curto. Estamos a falar, se calhar, de 15% do valor total de todos os danos diretos, porque depois também há danos indiretos. Uma empresa que esteja em Bragança e que dependa de uma empresa de Leiria, que deixa de conseguir produzir, imediatamente vai ter outros custos. Mas custos diretos, estamos a falar de 4.600 milhões de euros, que é muito dinheiro, e segurável estão 15%, aproximadamente.

Este é um valor que ainda pode subir?

Ainda pode subir e a parte que está segura e que as companhias vão indemnizar também, provavelmente, irá subir. Todos estes valores são momentâneos. Os sinistros abertos e os valores estão a subir.

As companhias, em média, estão a abrir por semana milhares de sinistros e já estamos neste momento com 85 mil. Prevê-se que se chegue aos 100 mil processos de sinistros. As empresas representam 15% do total de sinistros e as famílias os restantes 85%.

Há aí um enorme mercado potencial para as seguradoras. Não deve ser uma aposta?

Deve ser uma aposta até para o nosso bem. Para as famílias, para as empresas e para o próprio Estado, é importante haver seguros para permitir retomar a vida normal.

O Estado vai ajudar, mas não é a mesma coisa que ter um seguro. Porque o Estado, por exemplo, às famílias dá até 10 mil euros, quando o seguro à partida paga até ao capital seguro, tudo aquilo que eventualmente poderá estar seguro.

Às empresas, o Estado não está a fazer como as companhias de seguros, que estão a pagar um determinado valor. O Estado está a emprestar e não é a mesma coisa, a empresa vai ficar endividada e vai ter de devolver esse valor durante algum tempo.

Sobre isso, o capital seguro nem sempre dá lugar a uma indemnização a 100%. Pode-nos explicar?

Se existir uma franquia, a indemnização vai ser paga descontando essa franquia.

Mas, existe um caso um bocadinho mais complicado, que tem a ver com a regra da proporcionalidade, que se fala muito em seguros. Por exemplo, se o imóvel está avaliado em um milhão de euros e se o seguro está feito para 500 mil, está mal feito à partida. A companhia depois só vai pagar nessa proporção, neste caso, 50%. Isso torna depois a vida um bocadinho complicada, quando os seguros não são bem feitos à partida.

Por isso, um dos conselhos que é sempre dado nesta área é as pessoas fazerem bem o seguro, aconselharem-se, aqui os mediadores de seguros têm um papel muito importante: explicar como é que deve ser feito o seguro, ajudar com os cálculos e ajudar a segurar o recheio, de acordo com o valor de substituição de tudo aquilo que tem existe na casa.

Se as pessoas começarem a contar, desde os cortinados até às roupas, normalmente chegam a valores muito mais elevados do que aquilo que normalmente se lembram. Existem até simuladores que a maior parte das pessoas desconhece, disponíveis na internet, como por exemplo o SCRIM, que permite calcular o valor pelo qual devem segurar a vivenda ou a fração.

O que é que por norma não está coberto e fica danificado neste tipo de incidentes?

Tem-se falado muito de imóveis que não têm nenhum tipo de cobertura, que as pessoas não fizeram o seguro para segurar as suas paredes. E, normalmente, para as famílias o maior bem hoje em dia acaba por ser a casa.

O seguro multirrisco é um seguro barato, muito mais do que o de um carro. Para terem uma ideia, segurar 100 mil euros custa, se calhar, 10 euros por mês.

Depois vem o seguro de recheio, que é também muito importante. Para 30 mil euros, o valor normal que as pessoas têm em casa, é um seguro que custa 5 euros por mês.

No entanto, há coberturas específicas para este tipo de acontecimento, de intempéries. As pessoas podem ter um seguro multirrisco e este não cobrir, neste caso, a tempestade?

A cobertura base do seguro multirrisco é obrigatória por lei, nomeadamente, a propriedade horizontal, que é a cobertura de incêndio. Depois pode ter mais 10, 20, 40 coberturas. A cobertura de tempestades e inundações, que são as aplicadas aqui, são duas coberturas que normalmente existem em quase todos os multirriscos. Por isso, à partida, as pessoas terão essa cobertura nos seus multirriscos.

Aconselho a reverem a apólice, verem as coberturas, ver se incluem tempestades e inundações. Se tiverem dúvidas, falem com o mediador

Disse quase todos, pode não estar?

Pode, mas são seguros, à partida, muito antigos. Aconselho a reverem a apólice, verem as coberturas, ver se incluem tempestades e inundações. Se tiverem dúvidas, falem com o mediador, porque quando acontecer um sinistro é bom terem as coberturas que precisam.

Os veículos também estão cobertos?

Tudo o que seja veículos tem uma cobertura muito parecida. A cobertura obrigatória do automóvel é a responsabilidade civil, depois dá para incluir algumas coberturas, que normalmente as pessoas chamam de todos os riscos e nós chamamos de danos próprios. Esta cobertura de danos próprios inclui fenómenos da natureza, a pessoa tem de ter esta cobertura para prevenir quedas de árvores ou telhas que voam. É adicional.

Aqui existe uma dificuldade grande, que são os carros mais antigos, com oito, nove, 10 anos. A maior parte não tem essa cobertura.

As seguradoras garantiram ao Governo que “cerca de 80% das peritagens seriam feitas em 15 dias”. Estes prazos podem ser cumpridos?

As companhias estão a fazer um grande esforço para isso. Estão no terreno, nomearam peritos para estar lá. O terreno não está a ajudar muito, estão difíceis as deslocações, outra grande dificuldade tem a ver com as comunicações que ainda não estão restabelecidas em alguns sítios ou estão a cair constantemente, como em Leiria, o que dificulta a marcação das próprias peritagens. Existe também a questão da eletricidade, importante para verificar os sistemas informáticos e ver as coisas a funcionar.

Mas as companhias estão a fazer esse grande esforço para fazer as peritagens, as 80%, mais simples, mais cedo. O que está a acontecer com muitos sinistros, mais pequeninos, desde que se entregue toda a documentação, desde que façam chegar o orçamento, as listagens, as fotografias, as companhias normalmente pagam esses sinistros pequeninos até mil euros.

Uma coisa muito interessante, as companhias estão a aumentar muito esse valor. Fala-se em 4 mil euros, em 6 mil euros noutras companhias. Eu apanhei um caso esta semana de 9 mil euros, em que a companhia indemnizou diretamente ao segurado, não houve peritagem, não houve nada.

Peritagens rápidas? As companhias estão a fazer um grande esforço para isso. Estão no terreno, nomearam peritos para estar lá. O terreno não está a ajudar muito, estão difíceis as deslocações, outra grande dificuldade tem a ver com as comunicações

As pessoas depois acabam por receber o dinheiro que terão direito em quanto tempo?

Há companhias que já pagaram mais de um milhão de euros em sinistros.

As companhias têm um prazo definido nestas situações de multirrisco para fazer pagamentos. Quando o sinistro tem a ver com paredes, são 25 dias úteis, quando são paredes e recheio, estamos a falar em 40 dias.

Eu acompanhei de perto os sinistros da tempestade Cláudia e conseguiu-se cumprir esses prazos. Este é um bocadinho mais desafiante, estamos a falar de um valor muito superior e muitos mais sinistros, mas as companhias estão a fazer tudo aquilo que está ao alcance para indemnizar as pessoas.

Sei que estão a priorizar pagar tudo o que seja relacionado com telhados, para as pessoas poderem fazer a reconstrução o mais rápido possível, apesar de depois faltar mão da obra, faltarem telhas.

E em relação aos prazos para a participação, normalmente são oito dias, mas sabemos que há muita dificuldade e ainda há pessoas sem luz duas semanas depois. Estes prazos são cumpridos à risca?

Estes prazos estão indicados nas condições gerais dos contratos. Ontem a autoridade dos seguros deu a indicação que estes prazos são para respeitar, mas temos de ter em atenção que em caso de cataclismo, em caso em que as pessoas não podem entrar em contacto, não têm eletricidade, nestes casos não devem ser levados à risca e as companhias não estão a levar estes oito dias à risca.

As próprias companhias, o que fizeram durante estes dias foi abrir, em Leiria, aos sábados, para permitir que as pessoas fizessem as participações. É desafiante abrir tanto sinistro em pouco tempo e as companhias vão dar essa margem às pessoas para fazerem a participação mais tarde que os 8 dias. Mas, é importante quem ainda não fez que o faça.

O importante é as pessoas, quando fizerem a participação, dizerem que foi a tempestade Kristin, que isso depois vai facilitar que o processo seja mais rápido e que a companhia salte aqui alguns passos que são importantes.

Governo vai avançar com fundo para catástrofes e sismos: “O país precisa. Há cada vez mais severidade”
Governo vai avançar com fundo para catástrofes e sismos: “O país precisa. Há cada vez mais severidade”

Estão mais próximo da população, na sequência destas sucessivas tempestades, que dificuldades é que as pessoas estão a denunciar na relação com as seguradoras?

A principal dificuldade tem a ver com a falta de eletricidade, a falta de meios de transporte para depois as coisas funcionarem, torna difícil fazer as peritagens. Em termos de companhias, as coisas estão a funcionar, as companhias estão a dar resposta, estão a conseguir regularizar rápido e fazer os pagamentos rápido porque também têm as coisas informaticamente todas muito mais preparadas do que tinham há uns anos.

Recordo-me de alguns testes em que as companhias nos pediram ajuda, para testar o sistema se entrassem 200 sinistros num dia.

Que é no fundo o que está a acontecer?

E tem funcionado, as companhias têm isso preparado, eu tenho falado com alguns colegas, principalmente de Leiria, e eles também estão a conseguir dar resposta, estão a conseguir ajudar os clientes e mandar as coisas para as companhias. Penso que a resposta que está a ser dada está a ser muito positiva, apesar de todas as dificuldades que temos depois no local.

Se tivesse de dar conselhos específicos às pessoas que nos estão a ouvir e que foram alvo deste mau tempo, o que é que diria para fazerem?

O primeiro grande conselho é prevenir. A única certeza que nós temos neste momento é que vem outra tempestade, já sabemos que para a semana a coisa continua.

As pessoas que não têm a certeza como é que está o seu seguro, olhem para o seu seguro. Aqui o mais importante sempre é assegurar os bens e os rendimentos.

Portugal tem zonas identificadas onde ocorrem cheias com frequência, é fácil fazer seguros nestas zonas?

É muito difícil, porque as companhias hoje em dia já sabem onde é que são estas zonas, estamos a falar de Alcácer do Sal, por exemplo, zonas que aparecem constantemente nas notícias e já dificultam fazer-se um seguro.

E imagino que seja caro.

É caro e às vezes nem sequer se consegue. Assim como, por exemplo, edifícios com mais de 50 anos, para condomínios, também se torna muito difícil segurar esses bens porque as companhias, sem uma renovação, não querem esse tipo de risco.

Para as companhias, um risco segurável é um risco. Os seguros permitem garantir bens caso aconteça algum problema súbito e imprevisto. Quando o problema acontece vez após vez e deixa de ser súbito e imprevisto, passa a ser uma certeza, aí deixa de ser possível fazer o seguro.

Por isso é que nesta área dos seguros, desde há 15, 20 anos que se fala muito no fundo de catástrofes. O dossier está junto do Governo e seria a maneira de resolver este problema com facilidade.

O ministro das Finanças, aqui numa entrevista à Renascença e ao Público, confirmou que avança este ano com o fundo para catástrofes e sismos. Como é que acha que devia funcionar esse fundo?

Devia funcionar como funciona noutros países, como por exemplo em Espanha ou em Marrocos. Naquela tempestade grande que aconteceu em Espanha, há mais ou menos um ano e meio em Valência, o fundo pagou 4 mil milhões de euros. Foi mais ou menos isto que nós tivemos aqui. O fundo português é um bocadinho a mesma lógica, é todos contribuírem, é um pacto.

Haver um pacto entre as famílias, entre as empresas e entre o Estado, que permita a todos ajudarem este fundo para que quando aconteça alguma coisa, esse fundo possa ser acionado e possa pagar

Quando diz todos, são todos os proprietários de casas, por exemplo?

Exatamente. Todos os proprietários e haver um pacto entre as famílias, entre as empresas e entre o Estado, que permita a todos ajudarem este fundo para que quando aconteça alguma coisa, esse fundo possa ser acionado e possa pagar.

Seria uma contribuição anual?

Em relação ao fundo, como é que vai funcionar, ainda não consigo falar. Mas será muito útil e fiquei muito contente com a entrevista porque é uma luta de há muitos, muitos anos. Este fundo de catástrofes pode ajudar num caso destes, para não estarmos à espera de uma ajuda da União Europeia, as empresas não ficarem à espera de uma ajuda do Estado que depois vão ter de devolver e pagar a curto ou médio prazo e passamos a gerir todo este risco.

Quanto tempo mínimo seria necessário para que o fundo tivesse capital suficiente para financiar uma tragédia como a que está a acontecer este ano?

É uma excelente pergunta, não consigo dar a resposta apesar de ser de economia, não estou dentro do que está a ser planeado e definido. O importante é que haja vontade política para avançar.

Para ter uma ideia, um estudo que foi feito na União Europeia há pouco tempo permitiu perceber que desde 1980 até 2020 todas as catástrofes que existiram em Portugal tiveram uma cobertura aproximadamente de 96%, ou seja, 96% das coisas não foram pagas, não havia cobertura, não havia nenhuma proteção.

Na Europa, estamos a falar de uma proteção ao nível de 78%. Não é o ideal, mas estão muito à frente e o Fundo iria ajudar a aproximar isto.

A nível europeu, 22% foram pagas, em Portugal só foi pago 4%.

Ao nível das empresas, nesta catástrofe o que é que está a ser mais afetado, que tipo de negócios, em que áreas é que estão a ser apresentados prejuízos?

Tudo o que seja aquela zona de Leiria, eu penso que todos os negócios estão com muitas dificuldades. Desde as indústrias, porque sem eletricidade não conseguem elaborar, desde o pequeno comércio, sem eletricidade tudo é muito difícil, e todas elas precisam de ajuda, precisam da proteção do seguro, em especial as empresas maiores.

Se estiverem paradas um mês, dois meses, três meses, existe o lay-off, em que a Segurança Social vai pagar 80% e depois as empresas só têm 20% do custo dos seus funcionários, mesmo assim são situações muito complicadas.

Os seguros servem também para isso, com algumas coberturas que possam eventualmente ter que lhes permita sobreviver durante aqueles dois, três meses até à reconstrução dos pavilhões, etc.

Neste caso, o que é que os seguros pagam? A reconstrução das infraestruturas?

Pagam a construção das infraestruturas e depois podem também ter mais coberturas, como por exemplo, coberturas que permitam que durante este tempo de paragem as empresas recebam um determinado valor para fazer face a essa paragem.

Compensação pela não produção?

Exatamente. E isso vai ajudar as empresas que tenham essa proteção, essas coberturas, a sair desta crise e desta tempestade.

Existe a ideia de que, geralmente, os pequenos negócios são os menos segurados, fazem uma ginástica para cortar nas despesas e o seguro é uma delas. Confirma?

A sensação que temos, quem trabalha com os seguros, é um bocadinho essa. Tudo o que seja indústria, mais profissionalizado, coisas grandes que dependam de um financeiro, à partida já tem uma proteção maior, tudo o que seja pequenas empresas, como a restauração, à partida a proteção é menor.

A agricultura é uma área muito específica, onde raramente são feitos seguros. Que tipo de seguros é que existem para o setor?

Na agricultura o nível de proteção, quer a nível europeu, quer a nível nacional, é muito reduzido, por isso eu penso que para todos aqueles produtores que estão nesta zona de Leiria, a vida é muito complicada, porque a proteção é muito reduzida, comparando até com outros lugares.

É um setor pouco segurado e é um setor pouco segurável, porque na maior parte dos seguros de colheitas é difícil às próprias empresas chegarem aí e os próprios agricultores depois também não têm, não existe uma cultura de segurar e de se protegerem.

Mas existem seguros para as colheitas?

Existem. Um bocadinho limitados, mas existem.

E são acessíveis?

A grande dificuldade passa por aí, passa pelo conhecimento que existe, passa pela vontade também das companhias de fazerem o seguro.

O setor dos seguros, nomeadamente os mediadores, são ouvidos quando há alterações na lei, quando são lançados novos seguros ou quando há alterações estruturais no mercado? São ouvidos pelo Governo, pelas entidades oficiais, pelo regulador?

Sim. Existe alguma proximidade. Durante a próxima semana vai haver uma audiência na Assembleia da República, foi chamada a ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), foi chamada a APROSE e as companhias de seguros da APS (Associação Portuguesa de Seguradores).

Somos ouvidos e todos os players, neste caso as seguradoras, a Autoridade e os mediadores, acabamos por ter um papel ativo nesta área que é tão importante para Portugal.

Como é que avalia a resposta que está a ser dada pelo Governo?

Do ponto de vista de alguém que trabalha em seguros, aquilo que eu acho que deveria ser uma grande prioridade neste momento seria restabelecer tudo o que seja comunicações, tudo o que seja eletricidade em todas as casas, em todas as famílias que ainda não têm.

Fiquei muito contente com aquilo que disse o Ministro das Finanças na semana passada acerca do Fundo para Catástrofes, acho que vai ser um passo em frente.

Vamos ter, cada vez mais frequentemente, fenómenos extremos. Portugal e o setor dos seguros em particular estão preparados?

Neste momento penso que o setor está a dar uma boa resposta e que está a fazer tudo para que as pessoas que confiaram nos seguros vão ser ressarcidas. Como é que isto vai funcionar daqui para a frente? Existe sempre a questão de, se isto for muito mais cíclico, se acontecer com muito mais regularidade, pode acontecer aquilo que já acontece nos Estados Unidos, em que há zonas grandes onde é muito difícil fazer um seguro para a casa.

Em Portugal, acho que ainda estamos longe disso, mas corremos o risco de, se a coisa acontecer com muita regularidade, de caminharmos nesse sentido.

Em Portugal quem vai pagar grande parte desta fatia dos 500 milhões de euros são as resseguradoras internacionais e essas resseguradoras internacionais, provavelmente, vão aumentar o preço em relação aos seguros em Portugal

Passarmos a ter zonas onde não possa haver seguros?

Já existem algumas zonas difíceis de segurar, as zonas Ribeirinho, as zonas de cheia, etc. Mas pode-se alargar depois esta dificuldade da proteção.

Em Portugal quem vai pagar grande parte desta fatia dos 500 milhões de euros são as resseguradoras internacionais e essas resseguradoras internacionais, provavelmente, vão aumentar o preço em relação aos seguros em Portugal.

O custo médio dos seguros, na sua opinião, vai subir?

É provável que aconteça isso, que depois os seguros também acabem por aumentar em virtude desse aumento das resseguradoras e as pessoas depois poderão ter mais dificuldade em segurar, apesar de ser ainda mais importante, se as coisas acontecerem com mais regularidade.

Aqui existe o livre mercado e o fundo de proteção já será uma coisa um bocadinho diferente. Se bem que é importante que ele seja bem construído para depois não ser uma coisa que acaba por não conseguir proteger.

Tudo o que seja seguros baseia-se na estatística, baseia-se na matemática. Se as coisas não são bem feitas acabamos por ter aqui buracos e não é isso que se pretende.

Diria que a luta neste momento é o aumento do número de pessoas seguras?

Sim. A próxima tempestade virá, não sabemos muito bem quando, o próximo terremoto também virá, não se sabe muito bem quando, sabe-se que Lisboa, por exemplo, é a segunda maior zona sísmica a nível europeu a seguir a Istambul, e aqui há que prevenir, há que proteger-se.

A nível de proteção sísmica estamos a 19% a nível nacional nos multirriscos, o que é baixo. Este fundo pode também ajudar em relação a isso.

As próprias seguradoras podem fazer alguma pressão para que se aumente no país a exigência com a qualidade de construção, a topografia, a gestão do território? Têm essa preocupação?

É uma preocupação das companhias. Há companhias que já estão a mapear, a nível nacional, todas as ruas que existem, os riscos que existem, para depois conseguirem definir melhor os prémios, aquilo que querem segurar, e é um caminho que tem sido feito.

As companhias conseguem, por exemplo, valorizar e beneficiar a determinados níveis alguns riscos e conseguem, normalmente, fazer isso através dos descontos, beneficiando aqueles que apresentam um risco melhor e tentando prejudicar aqueles que têm um risco um bocadinho pior.

Acha que o próprio país devia ser mais exigente, por exemplo, com a qualidade de construção?

Aquilo que eu ouvi dizer das pessoas que estiveram agora em Leiria e que viram os sinistros, é que a maior parte dos problemas aconteceu nos prédios mais antigos, nos prédios recentes a coisa até funcionou mais ou menos bem.

Mas sim, aquilo que se possa fazer para regulamentar mais e para ter melhor qualidade a nível da habitação, acho que sim. E acima de tudo, deixar construir onde não se devia construir, os grandes problemas vêm daí.

O que está a acontecer, por exemplo, em Coimbra, que tem a ver com as cheias, desde há séculos que aquela zona à volta do rio inunda. É o que acontece em todas as zonas de leito de cheia onde foi construído. A prevenção pode funcionar, não permitir de maneira nenhuma que se construa e até retirar alguma construção que já existe nessas zonas, isto vai piorar e aqueles imóveis, aquelas vivendas, vão sempre ter problemas.

Na sua experiência profissional, as pessoas têm informação suficiente sobre o mercado dos seguros?

É uma coisa que eu acho que deve melhorar e cabe a vários e a nós, medidores de seguros, fazer um melhor trabalho, explicar melhor às pessoas que tipo de riscos é que podem segurar. E não falamos só dos seguros obrigatórios, como o carro.

Há um caminho que também pode ser feito ao nível das escolas e do ensino, ensinar um bocadinho sobre seguros, porque é algo que é tão importante hoje em dia nas vidas das pessoas. Pelo menos, as pessoas deviam saber o que é isto de seguros, o que é que deve ser assegurado, o que é que não deve, para que servem as coberturas, o que é que são as franquias.

Quem deve garantir esta informação e formação?

Por um lado, devia fazer parte de muitos currículos, eu estudei economia e de seguros não falamos absolutamente nada. A APROSE quer fazer um investimento nesta área, aquilo que nós fazemos é formar os mediadores para que depois estejam aptos para falar com os clientes e explicar tudo aquilo que eles precisam saber.

Agora com a inteligência artificial fala-se muito do risco de muitas profissões desaparecerem. A mediação nos seguros é também uma profissão de risco neste momento?

Eu acredito que não, porque aquele papel de explicar, de proteger é muito importante e acho que fazemos um bom trabalho a esse nível.

Hoje é muito mais fácil fazer um seguro através das aplicações, no computador, no telemóvel, mas aquele papel de ajudar a pessoa a escolher um bom seguro, explicar o que precisa de saber para escolher um bom seguro e depois quando acontece alguma coisa estarmos aqui para ajudar a tratar das coisas. É um papel que não vai desaparecer.

Neste mundo da prevenção e dos seguros, qual é que diria que é o grande desafio do país? O que gostava de resolver no curto, médio prazo?

Aumentar o nível de proteção das pessoas, das famílias e das empresas, fazer com que as pessoas tivessem uma cultura um bocadinho mais preventiva e podermos ter maior proteção, podermos ter num país que se quer do século XXI.

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