Dúvidas Públicas

Sistema Volta recolheu 400 mil garrafas e latas intactas no primeiro mês

23 mai, 2026 - 08:00 • Sandra Afonso , Arsénio Reis

O diretor-geral da APED rejeita críticas e garante à Renascença que a devolução de latas e garrafas está a ter uma forte adesão dos consumidores. O mesmo acontece com o projeto-piloto para a recolha de têxteis usados, que em pouco mais de um mês já recebeu cinco toneladas.

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Os consumidores estão a correr atrás dos 10 cêntimos cobrados nas garrafas de plástico e nas latas ou ganharam “consciência ambiental”? Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), prefere pensar que é um gesto pelo ambiente e pela sustentabilidade.

Independentemente do motivo, o balanço da nova campanha de reciclagem, o “V de Volta”, é positivo e já superou o teste piloto realizado em 2023.

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Em entrevista ao programa de economia Dúvidas Públicas, da Renascença, Gonçalo Lobo Xavier diz que, apesar das críticas, a iniciativa que obriga os consumidores a devolverem garrafas e latas intactas, para recuperarem 10 cêntimos em cada embalagem, está a ter uma forte adesão. “Nas primeiras quatro semanas foram recolhidas 400 mil unidades”, avança.

Entretanto, uma marca lançou no mercado garrafas ligeiramente acima de três litros, para evitar a cobrança dos 10 cêntimos. Uma “operação comercial” que não deverá tornar-se tendência, de acordo com o diretor-geral da APED.

Gonçalo Lobo Xavier antecipa ainda nesta entrevista à Renascença que o projeto-piloto para recolha de têxteis usados também está a ter uma grande adesão. Está disponível apenas em Lisboa e no Porto, em 10 lojas, e em pouco mais de um mês já recolheu cinco toneladas.


A iniciativa “V de Volta” obriga os consumidores a devolverem a garrafa ou lata intactas para recuperarem os 10 cêntimos que pagaram pela embalagem. Já consegue avaliar como é que estão os consumidores a reagir a esta medida?

Uma coisa é a opinião publicada e as redes sociais e muito ruído por parte de alguns políticos incautos, que querem fazer aproveitamento político de coisas inovadoras para aparecerem, e outra coisa é a realidade. Em quatro semanas foram recolhidas 400 mil unidades.

Isto compara, por exemplo, com sistemas que foram criados na Áustria ou na Irlanda. Na Áustria recuperaram 100 mil num ano.

As pessoas ganharam uma consciência ambiental que não tinham. Dizem que obriga a ter um saco em casa e a acumular, que dá imenso trabalho e obrigam-nos a trabalhar. Temos que ser sérios! Se nós queremos mudar a consciência ambiental e os hábitos das pessoas, isto obriga ao empenho pessoal.

Do ponto de vista do retalho, para além desta operação representar zero em termos de fluxo financeiro, demonstra que a população está a reagir bem, ao contrário do que se vê nas redes sociais.

Também não será pelos 10 cêntimos?

Mas qual é o mal dos 10 cêntimos? É um incentivo a um comportamento responsável. É algo que, aliás, existia nos anos 80. Eu sou do tempo havia a tara retornável, íamos à mercearia devolver as garrafas. Isso prejudicava a nossa vida? Não, havia responsabilidade.

Nós estamos a responder a um desafio europeu, isto já está a ser trabalhado há vários anos, temos que cumprir metas de reciclagem.

Isto significa um investimento enorme, quer para os embaladores, quer para os retalhistas. As máquinas têm um custo. Houve aqui um investimento enorme.

E vão ter retorno desse investimento?

O retorno é o próprio ciclo de investimento. Por isso é que eu dizia há pouco, para o retalho o resultado é zero. Mesmo as embalagens que não são retornáveis, e mesmo estes 10 cêntimos, são usados para reinvestir no sistema. Não há aqui aquilo que se vê em algumas redes sociais maldosas, de que isto é um negócio. Isto não é um negócio.

Foi uma medida que nos foi imposta, e do nosso ponto de vista bem.

Tivemos a oportunidade de testar esta medida e o comportamento do consumidor em 2023, num projeto-piloto em 23 máquinas em todo o país, em que o retorno das embalagens era compensado com os 10 cêntimos.

A implementação da medida está a ultrapassar o projeto-piloto?

Claramente. O projeto-piloto foi muito útil, para nós demonstrarmos que se fôssemos por este caminho havia um estímulo para um comportamento muito responsável do consumidor.

Em Portugal, nós nunca tivemos a mesma cultura ambiental dos nossos parceiros da Europa do Norte. Começaram mais cedo, havia outro tipo de preocupações. Agora há uma nova geração que de facto mudou.

Entretanto, chegaram ao mercado garrafas ligeiramente acima de 3 litros, que é o limite que abrange a medida do V de Volta, para não cobrarem os 10 cêntimos. Esta solução pode vir a ser uma tendência?

A APED não comenta operações comerciais dos seus fornecedores e mesmo dos seus retalhistas. Reconheço, essa realidade, deu notoriedade à marca, mas não me parece que vá ser essa a tendência.

Está ainda a decorrer um projeto-piloto para recolher têxteis usados. Os clientes estão a aderir?

Estão a aderir, nós estamos já a recolher mais de cinco toneladas, em pouco mais de um mês.

Os pontos de recolha são muito limitados.

Aqui nos têxteis nós tivemos que ser, até por razões orçamentais, bastante mais cautelosos. É um fluxo completamente diferente.

Repare, uma camisa ou umas calças não têm apenas têxteis, têm ferro, tem plástico, tem botões e tudo isso obriga a um processo de separação bastante mais complexo.

Nós estamos a fazer esta recolha em cinco lojas no Grande Porto e em cinco lojas na Grande Lisboa e estamos com várias parcerias, parcerias tecnológicas, parcerias com recicladores, parcerias com a indústria.

Qual é o destino destas roupas que são recolhidas?

Em primeiro lugar, é preciso fazer a separação das fibras. As peças de vestuário entram também num equipamento que separa as fibras e isto tem desde logo uma complexidade tecnológica muito grande. No fim, os diferentes materiais são reencaminhados para recicladores, que vão poder devolvê-los ao mercado.

E tudo é aproveitado?

É esse estudo que nós estamos a fazer. O têxtil é um fenómeno muito interessante, até pela nova vida que as peças têm, há muita economia circular, há um mercado agora de segunda mão muito interessante e são todas essas áreas que nós estamos a explorar.

Por um lado, a parte industrial, separação de fibras e a incorporação de fibras no processo industrial para incorporação de fibras recicladas em peças finais, que também é uma obrigatoriedade da legislação europeia. Depois, dar novas vidas às peças por via do design e de incorporação com outras entidades.

Já há grandes superfícies a vender roupa em segunda mão?

Já e já há muitos associados da APED especializados também nessa área.

Já podem garantir que este projeto de reciclagem dos têxteis vai continuar, vai passar da fase piloto?

Nós não estamos nessa fase. O projeto começou em outubro de 2025 e terminará em outubro de 2026. A nossa intenção é que, como estamos a descobrir tanta coisa, aqui o segredo está em pôr todas as entidades a colaborarem e a falarem.

A indústria tem soluções mas se calhar não fala com a academia, o retalho precisa de soluções mas se calhar não sabe que a academia e a indústria as têm e é este o grande mérito, é que nós estamos a conseguir envolver todas as entidades, que já perceberam que não há aqui nenhum negócio, não há aqui procura de um ganho económico ou financeiro.

Há a necessidade de responder a um desafio e criar sinergias para termos uma solução, por ventura inovadora, ao nível europeu. A criação de uma entidade gestora que vá reunir este fluxo e o vá gerir de forma cada vez mais eficiente, colaborando e pondo todos a colaborar nesta lógica.

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