Dúvidas Públicas
Banco de Fomento vai dar garantias públicas para habitação à classe média e desfavorecidos
20 jun, 2026 - 08:00 • Sandra Afonso , Arsénio Reis
Em entrevista à Renascença, o presidente do Banco Português de Fomento promete mais instrumentos para combater a crise da habitação e diz que, em setembro, estarão disponíveis duas novas linhas, para a agricultura e o turismo. Gonçalo Regalado admite ainda que há 16 milhões em incumprimento, mas desvaloriza o valor.
Gonçalo Regalado é a cara da nova gestão do Banco Português de Fomento (BPF), que em 18 meses já virou a instituição do avesso. Tem batido sucessivos recordes de financiamento e promete não ficar por aqui, mesmo depois da torneira do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) se fechar.
Em entrevista ao programa semanal de economia Dúvidas Públicas, da Renascença, o presidente do BPF fala dos novos instrumentos que serão lançados pela instituição. Entre eles está a garantia pública para acesso à habitação, pela classe média e os mais desfavorecidos, que ainda não tem data prevista. Já em preparação e com abertura marcada para setembro estão as duas novas linhas de crédito, até dois mil milhões de euros, para a agricultura e o turismo. O Fomento Next avança até ao final do ano.
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Gonçalo Regalado diz, ainda, que o Banco de Fomento vai participar no financiamento do novo Hospital do Algarve e já está em contacto com consórcios para o segundo troço do TGV.
Nesta entrevista ao Dúvidas Públicas, explica o segredo do sucesso da atual administração, garante que não recebe ordens do Governo e elogia os empresários portugueses.
O Banco está a chumbar menos de 5% do crédito analisado e quase 10% dos projetos têm risco elevado. Tem uma taxa de incumprimento de 0,15%, são 16 milhões que estão por recuperar. Gonçalo Regalado lembra que em 18 meses esta administração fez chegar à economia 11 mil milhões de euros, por isso considera este incumprimento residual e fala de uma taxa de zero.
É a cara de uma nova fase do Banco de Fomento, que bate sistematicamente recordes de financiamento. Vai conseguir manter este resultado depois de esgotado o PRR?
O meu desafio é muito claro: fazer de Portugal um país cada vez mais próspero, mais produtivo, mais inovador e com uma capacidade de riqueza e de melhor qualidade de vida para todos os cidadãos. Isso não se compadece com fazer resultados inferiores ao do ano anterior.
Nós, em 2025, mobilizámos 6.500 milhões de euros e apoiámos mais de 16 mil empresas. Em 2026, acredito que estaremos entre os 7.500 milhões e os 8.000 milhões de euros mobilizados, nos diferentes instrumentos, e estaremos próximos das 20 mil empresas.
O que estamos a fazer não é só uma transformação nacional e a mobilização do investimento das empresas, é a simplificação do banco para estar ao serviço da economia. O nosso trabalho é colocar Portugal no topo da Europa. Encontramos o banco na 16.ª posição europeia, foi possível, no primeiro ano, trazer o banco para disputar o topo 5 em quase todos os indicadores. Passámos de um impacto de 0,2% no PIB para 2,2% no PIB.
Mas esse ritmo vai ser fácil de aguentar, após o fecho do ciclo atual com um elevado fluxo de fundos europeus?
Quando a alma, a vontade, a motivação, a determinação e a capacidade das equipas têm um plano estratégico para entregar 30 mil milhões nos próximos três anos, não é com PRR ou sem PRR, não é com PTRR ou sem, isso não conta nada. O que conta são os empresários, as empresas, o investimento que o país precisa. Até porque os números do PRR para nós são pouco relevantes, nesta expressão dos 30 mil milhões de euros.
Aquilo que estamos a fazer é uma dimensão pública de apoio ao investimento, público e privado, a maioria com garantias, concedidas pelo Banco Português de Fomento e colocadas pelos bancos comerciais junto da economia. Depois temos o capital, que teve uma dimensão de mil milhões de euros no PRR, que vai ser agora reforçada com o fundo de fundos. Temos uma nova dimensão de seguros de crédito à exportação, nós passamos a ser, a partir de julho, a Agência de Crédito à Exportação de Portugal, com as seguradoras, não tem nenhum envolvimento do Estado. Temos o imobiliário com os fundos de investimento para a habitação e, sobretudo, para as empresas, para o turismo, para a indústria, que permite depender quase 100% da dimensão privada.
É um banco com uma missão pública, mas com uma gestão privada que depende do privado. Nós somos o motor da economia portuguesa.
Agora que estamos praticamente a dissipar duas guerras, precisamos dar confiança, esperança, tranquilidade, segurança aos empresários. Quando os empresários têm esses elementos, os empresários investem e investem como uma comunidade. Portugal tem todas as condições para ser a economia do ano, todos os anos. E isso não depende do Estado, depende dos empresários, das empresas, dos trabalhadores, dos colaboradores.
Portugal tem todas as condições para ser a economia do ano, todos os anos. E isso não depende do Estado, empresários, empresas e trabalhadores
Contam com uma injeção de capital progressiva por parte do Estado para chegarem dos atuais 500 milhões a 2 mil milhões de euros em 2030. Este plano está protegido de eventuais mudanças políticas? Haverá eleições legislativas entretanto.
Os bancos soberanos têm que estar acima da política e têm que estar acima dos mandatos.
O meu desafio é muito claro. Eu sou um gestor, não tenho nada a ver com a política. O meu trabalho foi garantir junto do Governo, junto do Ministério das Finanças e do Ministério da Economia e da Coesão, que o banco tinha capital necessário para mobilizarmos o investimento que o país precisa.
Os nossos vizinhos na Espanha têm um Banco Soberano feito no tempo do Franco, que tem nesta altura quase 20 mil milhões. A economia espanhola não é 10 vezes a economia portuguesa, é 4 a 5 vezes a economia portuguesa!
Nós estamos a multiplicar o nosso capital, a subscrição é agora e é integral em 2026 e a realização será feita ao longo dos próximos 4 anos. Com boa probabilidade, terá que ser reforçada e aumentada.
A ambição é ultrapassar este valor?
Nós temos um banco soberano com uma performance de impacto no PIB, no top 5 da Europa, mas somos um dos bancos menos capitalizados e com menor dimensão europeia. Em volume, somos um banco pequeno ao nível europeu. Disputamos o impacto com o KFW, que tem 550 mil milhões de euros de ativos ou com o Bpifrance (Banque Publique d'Investissement), que tem mais de 330 mil milhões de ativos.
Confia que os resultados vão impor que o capital acompanhe na mesma medida?
O banco terá a densidade e a dimensão de capital regulatoriamente exigida e necessária. Para agora são 2 mil milhões de euros, foi aquilo que se estabilizou com o Ministério das Finanças e com o Ministério da Economia para se fazer a subscrição em 2026 e a realização durante os próximos 4 anos. E nós vamos continuar a entregar resultados.
Desde 2025 até maio deste ano financiaram 32 mil empresas com 11 mil milhões de euros. Qual é a origem deste capital? É sobretudo dinheiro europeu?
Mais de 90% deste dinheiro vem dos bancos comerciais, todos eles, que concedem crédito às empresas com uma garantia pública de Estado, do Banco Português de Fomento e da Sociedade de Garantia Mútua de suporte.
Com a nossa garantia, as empresas podem ter o dobro do financiamento, com uma maturidade mais alongada e, felizmente, um preço muito mais reduzido.
Até o Banco de Portugal, agora em maio, concluiu que o financiamento com garantia pública do Banco Português de Fomento é 22,5% mais barato do que o financiamento sem garantia pública. E que as maturidades do financiamento com garantia pública do BPF são para médio e longo prazo, ao contrário do que vemos na banca comercial, que é para curto e médio prazo.
O que é que nós damos às empresas? Tempo, segurança, tranquilidade, capacidade e, sobretudo, dimensão de financiamento.
A maioria deste financiamento, destes 11 mil milhões de euros, praticamente 10 mil milhões de euros foram feitos pela banca comercial. Pegam nas nossas garantias e concedem aos empresários.
Porque é que mudaram o acesso às garantias?
Mudámos porque no passado os empresários, para ter acesso a uma garantia do Banco de Fomento, tinham que ir a um banco comercial. Na teoria económica sabemos que o “risco moral” existe quando existe um agente no meio e nós eliminámos esse agente. Passámos a ter garantias pré-aprovadas. Os empresários passaram a receber diretamente da minha equipa a garantia pré-aprovada. Sem a pedir. Nós já avaliámos as contas das empresas. Já com a garantia pré-aprovada na mão.
Deixaram de lidar com os bancos e passaram a lidar com os empresários?
Nós, Banco Português de Fomento, passámos a lidar com aquilo que é o “Santo Graal” da economia portuguesa: os empresários e as empresas. Os bancos, que são nossos parceiros e que connosco trabalham todos os dias de uma forma muitíssima abnegada, passaram a descontar as nossas garantias.
E o Banco de Fomento avalia os projetos?
Avaliamos as empresas e os projetos, quando são acima de 2 milhões e meio de euros com avaliação casuística, e avaliámos os projetos quando nos são endereçados pela Banca Comercial, porque não estão pré-aprovados.
Na avaliação das empresas, avaliamos toda a informação fiscal, financeira, de compliance, risco, toda a dimensão dos empresários que nós temos hoje na máquina do Estado: através da informação na Autoridade Tributária, na Segurança Social, no IRN, no Ministério da Justiça, em todas as dimensões, temos acesso a toda a informação que tem a Banca Comercial e a mais, porque somos o Estado.
Temos a responsabilidade de dizer que atribuímos um limite de garantia pré-aprovado, que depois é confirmado, e o senhor empresário que recebeu a nossa garantia por e-mail, por telefone, por WhatsApp, por SMS, por chamada telefónica, pega nessa garantia digital, que é um voucher digital, chega ao Banco Comercial, que é o seu banco, e desconta-o.
Eu confio nos empresários, confio nos cidadãos. Se os empresários nos enganarem, seremos implacáveis
Qual é a percentagem de recusas, entre as empresas que o Banco de Fomento avalia?
De todo o espólio que avaliamos, nós estamos a chumbar menos de 5% do crédito. Ou seja, entre o que a banca comercial, todos eles, nos enviam, e entre o que nós enviamos aos empresários, há um duplo fluxo. Nós temos 95% de aprovação.
Porquê? Porque as empresas estão cada vez melhores. E os bancos comerciais também cada vez mais rigorosos.
Os bancos comerciais não enviam propostas que não queiram fazer crédito. Nós não atribuímos garantias pré-aprovadas a empresas que não queiramos financiar.
Mas enviam propostas com mais risco, ou não? Uma grande empresa, negociará diretamente com o seu banco sem necessidade de garantias?
Depende. Se uma grande empresa precisar de ter um preço mais baixo, uma maturidade mais longa, ou precisar de não atribuir garantias reais para a operação, usa uma garantia do banco de fomento. Tenho várias.
Mas o normal é que vos chegue aquelas que a banca comercial considera serem projetos com alguma viabilidade, mas que tenham um nível de risco mais elevado?
Superior, sim. O que a banca comercial nos envia tem normalmente um risco médio.
Nós temos uma grelha de risco que está entre o 1, que é o melhor, e o 12, que é o pior. Entre o 10, o 11 e o 12, o banco concentra menos de 10% do financiamento, que são os riscos mais alargados. Depois, o banco atribui garantias pré-aprovadas do grau de risco 1 ao grau de risco 5 e, em alguns casos, ao 6 e ao 7, que é aquilo que nós chamamos de média positiva.
Os riscos que nos chegam por iniciativa da banca comercial normalmente são entre o 5 e o 9. São projetos claramente financiáveis, claramente solventes, claramente de boas empresas, mas que, ou por alavancagem, ou por maturidade, ou por preço, precisam de um apoio de garantia pública que nós concedemos.
Nós acelerámos os processos porque simplificámos os processos. E fizemos uma revolução digital dentro da casa
A atual gestão do Banco de Fomento acelerou muito os processos de financiamento. Isso significa que o risco também aumentou por esta via?
Exatamente ao contrário. Nós acelerámos os processos porque simplificámos os processos. E fizemos uma revolução digital dentro da casa.
O que é que nós encontramos em 2024? Um banco que demorava à data 49 dias para aprovar uma operação de crédito, de qualquer valor, e que pedia aos empresários 27 documentos, sendo que 22 já estavam no Estado.
Pedimos ao empresário uma autorização para ter acesso a todos os documentos do Estado, que já são nossos.
Não reduziram o crivo, agilizaram o processo?
Melhorámos o crivo e já explico como.
Simplificámos o processo porque deixámos de pedir uma resma de papelada ao empresário que o Estado já tinha. Passámos a pedir 5 documentos, hoje são 3: o plano de negócios, o plano de investimentos, as últimas contas atualizadas. E pusemos a inteligência artificial a tratar o resto.
Passámos a ter um crivo muito mais cuidadoso. Em vez de estarmos emaranhados em 27 documentos e embrulhados em 49 dias de processos, passámos a ter inteligência artificial a fazer a validação técnica da documentação do Estado, que está informatizada, e passámos a dedicar tempo de qualidade a escolher bons projetos. E por isso o rating médio, que vai de 1 até 12, estava na casa dos 8 e agora está na casa dos 5.
Isso também acelerou os processos de contratação junto da banca comercial?
Correto. Hoje temos uma jornada digital. Em cima disso, estamos em 2026 a fazer uma jornada digital direta, que será aquilo a que nós chamamos o Fomento Next: os próprios empresários, como fazem na banca comercial, terem um username e um login com uma password, entrarem no site do Banco Português de Fomento e terem acesso às garantias, aos instrumentos de capital, aos modelos seguros de crédito, às exportações, aos fundos de investimento e às soluções pré-aprovadas.
E numa solução plug and play e click to go, fazerem o processo todo e nós informarmos a banca comercial que o processo está aprovado do nosso lado, que o empresário já escolheu o banco e que eles podem continuar o processo.
Já está em funcionamento?
Está agora em teste e em avaliação. Estamos há 18 meses em funções.
Quando é que vai arrancar?
Queríamos em setembro já ter os pilotos de uma forma mais robusta e no final do ano termos praticamente todas as empresas em Portugal a ter acesso a esta dimensão.
O país tem vindo a debater a eliminação do visto prévio para os contratos públicos, pelo menos até 5 milhões, obviamente que é também para flexibilizar e dar eficácia a todos estes processos. Concorda com o princípio e já agora com o limite definido?
No caso do Banco Português de Fomento, temos uma isenção nesta nova proposta do Código dos Contratos Públicos para esta dimensão, porque somos um banco, temos o mesmo perfil de soberania que têm outras instituições.
Para que o investimento público avance nós precisamos de processos muito mais ágeis e precisamos confiar uns nos outros. É fundamental.
Ouvimos da parte dos empresários sempre duas queixas: a baixa produtividade e o excesso de burocracia. Como é que essa receita do Banco de Fomento chega ao resto da economia? Parece fácil dito por si.
É fácil explicar, é fácil mobilizar, é difícil de implementar e ainda é mais difícil de executar. O exercício é muito simples. Eu não gosto de ideias muito sofisticadas e de terceiras e quartas derivadas. Sou bastante prático, sou filho e neto de empresários. Nos empresários há pouco prévio e há muito trabalho, muito negócio. E tudo o que é prévio, tudo o que é exante, que é o termo técnico, é o Estado a ter o pequeno poder. O pequeno poder do técnico, do especialista, do diretor, do presidente, pequeno poder.
Eu confio nos empresários, confio nos cidadãos. Se os empresários nos enganarem, seremos implacáveis. Como é que se confia? Tudo o que está na lei, que é “ex ante”, passa a “ex post”. Tudo. O Estado tem que verificar, tem que apoiar, tem que fiscalizar, tem que estar lá. Depois.
Temos que confiar uns nos outros, somos um país de gente séria, honrada, trabalhadora, dedicada, temos 900 anos de história. Quando um português tiver algum problema de autoestima, fale com um estrangeiro e pergunte-lhe o que acha dos portugueses e de Portugal.
Porque às vezes, por melhor que seja a intenção, as circunstâncias acabam por minar os planos, qual é a taxa de incumprimento?
Na nossa gestão, nos últimos 18 meses, colocámos 11 mil milhões de euros e temos nesta altura 16 milhões. Que não é perdido, é com ou atrasos ou alongamentos. Está explicado. É zero. 16 milhões em 18 meses. Quanto é que mobilizámos? 11 mil milhões. É zero.
Porquê? Confiámos uns nos outros. Estamos próximos. Temos as equipas comerciais a visitar. Confiámos nos bancos comerciais. Estão a fazer boas escolhas. Nós até fizemos agora garantias de carteira.
Pode explicar?
No Banco Português de Fomento dizemos ao Banco A, B, C e D, têm aqui 400 milhões de euros para escolher os clientes que têm acesso a estas garantias, com estas regras. Isto é que é confiança, que é o que é utilizado no Banco Europeu de Investimento e no Fundo Europeu de Investimento. Se não, como é que eles mobilizavam centenas de milhares de milhões de euros para a Europa inteira? Nós, pela primeira vez, mobilizámos garantias de carteira e confiámos nos 12 bancos em Portugal que trabalham connosco.
E essa relação é cordial?
É ótima! Jogamos no mesmo clube, sempre a defender por Portugal, porque os presidentes dos bancos comerciais querem tanto o bem de Portugal como eu. Eu sou selecionador nacional, eles são os treinadores do campeonato nacional. Como selecionador tenho a responsabilidade de escolher os melhores portugueses para mobilizar a nossa economia.
Esta ideia, que é um bocadinho bafienta, de que atrás de cada português tem que ter um Salazar ou uma PIDE, tem que acabar. Nós somos de uma geração de liberdade. Eu nasci em 1983, eu nasci com liberdade. E a primeira geração de liberdade tem para dizer a todos que nós somos um país fantástico e somos muito melhores do que dizemos e pensamos de nós próprios.
Quando um português tiver algum problema de autoestima, fale com um estrangeiro e pergunte-lhe o que acha dos portugueses e de Portugal
Em relação ainda ao PRR, exatamente qual é, neste momento, o montante oriundo da bazuca que tem para distribuir o Banco Soberano?
Nós executamos a 100%. Quanto? Quanto eles quiserem. Até agora 94%, falta um mês. Vamos executar 100%.
E em montante?
O montante vai sempre aumentando. O Banco Português de Fomento é responsável por mais de 10% da execução do PRR, do país inteiro.
No início foi dedicado ao Banco Português de Fomento o Fundo de Capitalização e Resiliência para capitalizar as empresas, colocar nos 22 parceiros das sociedades capital de investimento, também grandes parceiros do Banco Português de Fomento, capital que permitiu mobilizar investimento nas empresas, fusões de aquisições, recapitalizações estratégicas. Colocámos 1.050 milhões de euros de capital nos últimos 3 anos, no nosso mandato (18 meses) passámos de 300 milhões de execução para 1.050 milhões. Isto na capitalização.
Depois foi preciso em 2025 gerir as sobras do PRR, e se sobras são 1.200 milhões, vejam o país rico que nós somos, e as sobras do PRR vieram todas para o Banco Português de Fomento. Tudo bem feito. Nunca tivemos dúvidas que as sobras não iam ser só os 315 milhões iniciais.
Para onde foi este dinheiro?
Começámos com 315 milhões, três concursos: para a Inteligência Artificial, (para as PME), um concurso para a defesa e um concurso para a reindustrialização. A seguir, as sobras passaram de 315 milhões para 932 milhões. Abrimos mais concursos. Um para a madeira, outro para os Açores, outro para a agricultura e outro para a dimensão toda da inovação e de hipoteca.
Em cima disso, cai-nos esta enormíssima tempestade, era preciso intervenção e esta é a máquina que já estava montada. Lançámos um oitavo concurso, para recuperar as regiões das calamidades.
Estamos a gerir, nesta altura, 2.250 milhões. O PRR são 22,2. Portanto, nós temos mais de 10%. Como é que executámos? A 100%.
O banco financia empresas de várias formas. Quais são as mais utilizadas e que tipo de empresas é que recorrem mais a estes apoios?
No Banco Português de Fomento, 96% do financiamento e 99% das empresas são PME e isto até é uma fragilidade. Porque nós temos uma grande concentração nas microempresas, têm quase 50%. As pequenas empresas têm quase 30% e as médias empresas têm pouco mais de 10%.
É uma fragilidade porquê? Porque nós temos que ter mais grandes empresas. O país precisa de uma escala maior.
Eu adoro o slogan da BRP, Business Roundtable Portugal: as micro têm que ser pequenas, as pequenas têm que ser médias, as médias têm que ser grandes e as grandes têm que ser globais. E as grandes empresas, que é um trabalho que o Banco Português de Fomento tem que fazer, também têm que estar no nosso cardápio de soluções.
Mas não estão porque não se candidatam, não são elegíveis?
Normalmente as grandes empresas têm restrições de natureza europeia, de acesso aos fundos europeus, de acesso às garantias.
Nós cumprimos o que nos mandam as diretivas. Essas grandes empresas, se estivessem na França ou na Alemanha, tinham acesso ao seu Banco Soberano. E isso tem que mudar radicalmente, porque esses bancos têm dimensão de Estado, orçamento e músculo que lhes permite ter uma atividade privada muito forte.
O que é que é preciso para incluir as grandes empresas?
Precisamos de ter, ao nível do enquadramento europeu, uma avaliação bastante mais ampla e bastante mais alargada das regras. Isto é, precisamos que a Europa deixe de ser de pequenos, para pobres, para todos, para ser uma Europa musculada, em que queiramos ter campeões europeus, para que as empresas não acabem todas nos Estados Unidos e com a concorrência da China.
Precisamos também de mudar no espaço europeu algumas regras, que permitam que as empresas grandes em Portugal, que são médias europeias, tenham acesso às garantias, aos instrumentos de capital, aos seguros.
Nós já estamos a fazer o nosso papel. Há uma série de instrumentos, sobretudo de capital e de obrigações, que nos dão acesso ao mercado de capitais e já podemos apoiar estas grandes empresas dentro da legislação das regras europeias.
Isso também não revela dificuldade de acesso a financiamento das mais pequenas, quando recorrem mais ao Banco de Fomento?
Nós estamos a financiar o que a economia portuguesa tem. Eu não vejo hoje grandes dificuldades de acesso ao financiamento empresarial em Portugal.
Hoje, em Portugal, pela primeira vez pós 25 de Abril, há mais depósitos das empresas nos bancos comerciais do que crédito às empresas. O valor dos depósitos às empresas já supera os 77,5 biliões de euros. O valor do crédito está em 75,3 biliões de euros. Ou seja, se os empresários todos se conhecessem e se fizessem um mercado interempresarial, nem era preciso mercado bancário.
Os empresários estão carregados de dinheiro, depositam-no nos bancos comerciais e não conseguem fazer investimento porque não aparecem projetos ou não querem mobilizar novos projetos.
Também há uma ideia de que o empresário português não arrisca muito?
O que sei é que a máquina do Estado portuguesa é conservadora e não arrisca nada. Isso eu sei. Eu só conheço empresários que correram risco.
Os empresários estão carregados de dinheiro, depositam-no nos bancos comerciais e não conseguem fazer investimento porque não aparecem projetos ou não querem mobilizar novos projetos
Mas para a saúde da economia esse cenário de dinheiro parado não é saudável?
O meu trabalho, enquanto presidente do Banco Português de Fomento, é mobilizar investimento empresarial. É convencer os empresários a investirem, porque certamente é mais lucrativo do que receberem taxas nos depósitos de 1%.
Há uma estratégia nesses apoios? Estão a ser concentrados em áreas prioritárias, definidas pelo Governo ou com indicações do Governo?
O Governo nomeou um Conselho Estratégico e escolheu o Presidente da Comissão Executiva do Banco. O Conselho Estratégico define connosco e com o Conselho de Administração quais são as prioridades daquilo que é a estratégia do Banco: áreas de investimento, montantes de garantias, apoios que têm que ser concedidos, soluções.
O Estado não dá orientações ao Banco! O Banco tem uma estratégia, tem um Conselho Estratégico, tem uma dimensão de independência de gestão, de soberania e de autonomia. E articula com o Estado o que está a fazer.
Eu não recebo uma chamada do Ministro A, B ou C a dizer que quer uma linha agora para a Energia, outra para a Agricultura, outra para isto ou para aquilo.
E outra para barcos, da Marinha Portuguesa?
Certo, não há disso. Nós não temos isso. Nós temos uma estratégia, até é pública. Nós dissemos quais são as garantias que vamos mobilizar. Muitas delas nem têm nada a ver com o Governo, porque são europeias.
Claro que todas as linhas que temos que fazer têm que ter a autorização do Governo para mobilizar a garantia pública. Mas não é o Governo que pega num e-mail ou numa chamada e liga para o Presidente do Banco. Não é assim que funciona.
Por exemplo, um dos planos é abrir agora duas linhas, uma para o turismo e outra para a agricultura. Porquê estes dois setores?
Porque são dois setores onde nós vemos maior dificuldade no financiamento bancário.
Em particular na agricultura, muitos dos projetos, hoje de média dimensão, são projetos com arrendamentos de terra. A hipoteca de suporte ao financiamento é muito difícil para a banca comercial, porque o proprietário não vai dar uma hipoteca de uma propriedade sua para um investimento de um terceiro. É preciso uma garantia pública. Além disso, os agricultores estão sempre sujeitos a muito mais riscos que os restantes setores.
No turismo, a dimensão é bastante clara. Portugal tem hoje 33 milhões de turistas, um peso direto no PIB de 12%, com atividades conexas de serviços passa a 18%. E nós temos uma responsabilidade, que é conseguir encontrar capacidade para que a máquina bancária consiga acompanhar a velocidade com que o turismo está a crescer em Portugal.
Aqui também há desafios, porque os terrenos para a construção de novos edifícios e novos hotéis são bastante caros, e a banca comercial tradicionalmente não financia terrenos e financia até 70% ou até 80% a construção.
E quando é que os empresários podem contar com estas linhas?
Temos as linhas fechadas, ou seja, montadas, organizadas, tratadas. Estamos nesta altura no processo de formalização, ativação e contratação. Queríamos que já no final do mês de julho as linhas estivessem disponíveis para piloto, mas sabemos que só depois do verão, de setembro a dezembro, é que elas serão ampliadas para todos os empresários poderem fazer a sua subscrição normal.
E qual será o montante disponível?
No global, em todas as linhas, para todos os sectores, só este ano temos 15 mil milhões de euros. Estas duas linhas que estamos a mobilizar andarão entre os 1500 e os 2000 milhões de euros dedicados. Mas estes empresários também podem ir às linhas de inovação, às linhas de impulsar e de impacto, às linhas de contratação e de investimento. As linhas são feitas por finalidade, não é por empresa.
Outro investimento apoiado é o Hospital de Lisboa Oriental, o futuro Hospital de Todos os Santos, com um orçamento que já sofreu derrapagens. Consegue dizer-nos quanto é que vai custar esta obra?
O número que nós temos oficial, na candidatura, são 455 milhões de euros e o valor que mobilizámos foram 15 milhões de euros, com a possibilidade de ir até 45 milhões de euros.
Temos um princípio que gostamos de manter: só participamos em sindicatos bancários e só participamos para dar a chancela nacional e a chancela de soberania a estes projetos. Estes projetos são, normalmente, financiados pela banca comercial, o nosso trabalho é mobilizar ou garantias ou crédito, neste caso é crédito.
Tenho a certeza que é preciso mais e melhores hospitais em Portugal. Isto é verdade na Área Metropolitana de Lisboa, mas também é verdade no Algarve, onde também já estamos a avaliar a operação, também é verdade no centro do país, onde também temos duas operações de avaliação.
O Banco de Fomento pode entrar também no novo hospital do Algarve, já anunciado?
Pode e vamos entrar. Nós e o Banco Europeu de Investimento. Será uma garantia para o sindicato bancário ou um crédito direto com o Banco Europeu de Investimento, um dos dois.
Ainda não está definido o montante?
Não. Estamos a trabalhar ainda no assunto.
Já estão a receber candidaturas ou interesse para o segundo troço do TGV?
Já, o banco desenhou o financiamento do primeiro troço, cerca de 2.700 milhões de euros, nós mobilizámos uma garantia de performance de 110 milhões de euros e com essa garantia chegámos a 900 milhões de euros, números redondos de mobilização do Banco Europeu de Investimento. Primeiro troço, entre o Porto e Oiã, 70 km.
Agora estamos no segundo troço, entre Oiã e Soure. Vamos utilizar, com o Banco Europeu de Investimento, uma solução financeira bastante similar.
Já sabem o montante?
Não temos ainda visibilidade do montante, até porque o concurso está em curso. Mas temos visibilidade da estrutura, que queremos replicar: o Banco Português de Fomento concede uma garantia de performance e mobiliza o Banco Europeu de Investimento, os dois mobilizamos o financiamento com a Banca Comercial em Portugal, que também entrou no primeiro troço do TGV.
Já estão em contacto com consórcios?
Já tivemos contactos com consórcios interessados, sim.
O Banco tem verbas destinadas à construção de habitação. É um apoio a 100%, financiam parte dos projetos, como é que funciona?
Para nós, habitação é oferta, oferta é construção. O nosso trabalho na habitação é mobilizar financiamento e investimento para que as empresas possam construir casas, ou reabilitar.
O Banco começa agora com dois instrumentos, que são mais ágeis e mais simples.
O primeiro são parcerias público-privadas, ou seja, um terreno público com uma construção privada de 80, 90, 100 apartamentos. Nós financiamos, porque o terreno é público e não é hipotecável, damos uma garantia de suporte à banca comercial para financiar a operação da construção. Isso são os PPPs, parcerias público-privadas, constrói e depois arrenda.
Depois vamos retomar um instrumento que teve muito sucesso em Portugal nos anos 90: as cooperativas de habitação públicas e privadas. Um conjunto de cidadãos, com os municípios ou por seu intermédio, têm um terreno, fazem 20 casas. Essas 20 casas já estão loteadas, programadas e estruturadas mas ainda não há casa, não há hipoteca, o Banco não pode fazer o suporte. Damos uma garantia pública para o construtor e para o Banco, avança a construção e depois a seguir a hipoteca, quando a casa estiver construída.
O Estado não dá orientações ao Banco! Eu não recebo uma chamada do Ministro A, B ou C a dizer que quer uma linha agora para a Energia, outra para a Agricultura
Já tem muitas cooperativas?
Já temos meia dúzia de cooperativas de piloto no país inteiro e muita procura.
Estes são os dois primeiros produtos, mas depois teremos dois produtos que para nós também são muito importantes. O Banco dará a garantia pública e mobilizará financiamento às autarquias locais e aos municípios, que são duas das grandes instituições que podem na máquina pública mobilizar a construção da habitação.
Para casas a preços controlados?
Para habitação pública. A denominação é muito ampla, há preços controlados, há habitação acessível, para habitação pública.
Para habitação pública e para portugueses, é esse o nosso objetivo, e para novos portugueses que precisem de casa. Nós precisamos ter casa para a classe média.
Depois teremos uma última dimensão, que também estamos a estudar e a ultimar com o Banco Europeu de Investimento, linhas de financiamento de crédito direto, quando for preciso, mas que será em casos muito pontuais, porque a banca comercial tem dado uma resposta muito forte e muito positiva.
Não invalidamos, e estamos a estudar, precisamos de ter garantias de dimensão estrutural para que as famílias possam ter a primeira habitação. E a maioria dos bancos soberanos na Europa têm instrumentos de garantia e de crédito para famílias, para a primeira habitação. Nós não vamos deixar esse território também por explorar.
Assim como existe a garantia para os jovens, que é mobilizada pelo Ministério das Finanças, estamos a estudar e a ver noutros países da Europa, com outros bancos soberanos, quais são os instrumentos que o resto da Europa está a utilizar.
Vai ser uma estreia para o Banco de Fomento, que normalmente lida só com empresas?
Já fizemos no passado financiamento a pessoas e a indivíduos, em particular de classes menos favorecidas, para educação.
Estamos a estudar todos os cenários. O nosso objetivo é a habitação do lado da oferta, oferta, oferta; 95% do nosso trabalho é oferta, oferta, oferta. Empresas que produzam, construam e concebam habitação.
Esse é o primeiro objectivo, construção e reabilitação. Mas, se precisarmos e se for necessário, para classes desfavorecidas e, em particular, para a classe média, podermos ter uma palavra a dizer nas garantias públicas e na dimensão de crédito público na habitação para famílias de primeiro direito.
Para já é uma intenção?
Vai ser mais do que uma intenção.
Ainda este ano? Acha que é possível?
Não sei quando é que vamos fazer, mas vamos fazer. Vamos fazer porque a dimensão do mercado é enorme. E é claríssimo, há cada vez mais portugueses a precisar de casa. Temos que ter decisões excecionais para momentos excecionais.
Eu não quero saber se o A, o B, o C pensa que a habitação está aquecida, sobreaquecida, acelerada, desacelerada. Falem com os cidadãos. Perguntem qual é que é a primeira preocupação dos empresários. E vão receber esta resposta: mão de obra, postos de trabalho, equipas, emprego. E perguntem qual é que é a primeira preocupação das pessoas? Habitação, habitação, habitação. Nós vamos dar uma resposta ao que o país precisa. E vamos fazer o mesmo na educação.
Claro que o nosso foco tem que ser a classe média e sobretudo as classes mais desfavorecidas. Mas não vamos na conversa de que há uma bolha e uma espiral. Conversa de estudos e de papelada não faz casas, não entrega habitação, não cria formação, não cria emprego, não cria empresas, não cria competitividade, não cria economia. Nós jogamos com quem joga. Quem apita, vai ter que se adaptar às regras.
Passando ainda pelo mau tempo, quanto é que o Banco de Fomento já concedeu na sequência das tempestades do início do ano? E qual é a verba que ainda tem para distribuir?
Superámos nesta altura 1.650 milhões de euros de crédito aprovado, concedido e financiado a mais de 8 mil empresas. E isso mostra bem a velocidade com que tivemos uma resposta bastante material em todos estes distritos, em todos estes municípios. Financiámos empresas de mais de 90 municípios, praticamente um terço do país. Ao final de pouco mais de uma semana já estávamos a fazer enquadramentos das operações e também houve uma enorme velocidade.
Temos 2 mil milhões que foram do Orçamento de Estado e de Garantias do Banco Português de Fomento colocados na reconstrução e tesouraria, e agora vamos ter o pós-reconstrução para as empresas ganharem uma nova vitalidade com mais mil milhões do Banco Europeu de Investimento. Estão ultimados e contratados e vamos começar a desembolsar a partir do verão.
No Parlamento disse que o Banco de Fomento não exigia garantias pessoais, nem hipotecas, e que ia verificar se a banca comercial estava a pedi-las aos empresários. Identificaram irregularidades?
Verificámos aqui uma enorme confusão. É que todas as garantias que foram concedidas pelo Banco Português de Fomento têm uma livrança de suporte. Só que a livrança é do Estado, é nossa, não é do Banco Comercial. Penso que foi essa a dúvida que ficou no sistema e que ficou nos empresários e também nos senhores deputados.
Nós temos de assinar uma livrança que o Banco A, B ou C trouxe, mas a livrança é nossa. Não apanhámos nenhum processo em que o Banco estava a exigir livranças para o próprio banco.Gonçalo Regalado é a cara da nova gestão do Banco Português de Fomento (BPF), que em 18 meses já virou a instituição do avesso. Tem batido sucessivos recordes de financiamento e promete não ficar por aqui, mesmo depois da torneira do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) se fechar.








