Nível de vida em Portugal já é inferior ao da Roménia, revela estudo da FEP
02 out, 2023 - 19:45 • Pedro Mesquita
O diretor da Faculdade de Economia do Porto, Óscar Afonso, defende, em entrevista à Renascença, "uma descida expressiva" da carga fiscal.
O economista Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia do Porto (FEP), diz que Portugal pode ser caracterizado como "um Estado rico com população pobre".
Um estudo da FEP conclui que a Roménia acaba de ultrapassar Portugal conseguindo índices de melhor nível de vida e Óscar Afonso sustenta, em entrevista à Renascença, que "o que explica o baixo crescimento económico em Portugal" são vários fatores com origenm tanto no trabalho como no capital.
"Em termos de qualidade, no trabalho é acumulação do capital humano e a taxa de natalidade, que é baixinha. Já em termos do fator capital, o problema é o investimento e a tecnologia."
Óscar Afonso aponta também a carga fiscal como um problema. Com uma carga fiscal menor teremos uma taxa de crescimento maior e, dessa forma, o rácio da dívida também cairá. Se assim não for, "as empresas fazem menos investimento" e, se forem estrangeiras, "não estão, também, tão propensas a vir para cá" e vai continuar a fuga de talentos.
De acordo com o vosso estudo em crescimento económico e no nosso nível de vida, temos perdido terreno em relação à União Europeia e até já fomos ultrapassados pela Roménia. É isso?
Efetivamente, neste milénio, Portugal tem crescido a uma taxa média anual de 0,9%. Isso significa, mais ou menos, que precisamos de 80 anos para dobrar o PIB [Produto Interno Bruto]. A média da União Europeia tem crescido a uma taxa média de 1,5%, o que significa que dobra o PIB ao fim de 45 anos, mais ou menos.
E o que decorre deste estudo é que a própria Roménia, que entrou muito depois de nós para a União Europeia, também já está muito mais confortável do que nós...
Sim. No caso dos países de leste a taxa de crescimento no milénio vai de 2,5 aos 4%. Significa isso que esses países dobram o PIB em 20 a 30 anos. Portanto, vão-nos apanhando.
Mas estão a apanhar-nos porquê? A fiscalidade ajuda a explicar o baixo crescimento económico e também do nível de vida. Mas de que forma?
O que explica o baixo crescimento económico em Portugal são muitas coisas. Estou a pensar no trabalho e no capital.
Em termos de qualidade, no trabalho é acumulação do capital humano e a taxa de natalidade, que é baixinha. Já em termos do fator capital, o problema é o investimento e a tecnologia.
E há também a fiscalidade, certo?
Sim, há também a fiscalidade...
E então? Nesse plano, de que se fala tanto agora a propósito do próximo orçamento do Estado...em que é que a fiscalidade nos está a penalizar, por comparação com países como a Roménia?
Imagine, a fiscalidade em Portugal, por exemplo, subiu entre 2019 e 2022 de 34,5% do PIB para 36,4. Se ponderarmos isto pelo nível de vida, significa que nós temos uma fiscalidade 17% acima daquilo que acontece na média da União Europeia. Significa isso que as empresas fazem menos investimento e não estão, também, tão propensas a vir para cá, se forem estrangeiras. E no caso do trabalho, há uma fuga de talentos.
E isto podia ser alterado ou é um fado?
Isto podia ser alterado, exatamente. Por isso é que há muitas propostas no sentido de diminuir a carga fiscal. No fundo, caminhamos um bocadinho, peço desculpa pela expressão, para aquilo que acontecia antes: Estado rico, população pobre.
O que será mais espantoso, ainda, vindo nos últimos anos de um governo socialista...
Pois. De facto, é espantoso. Eu percebo que Portugal tem uma dívida gigantesca, mas havia espaço para ter uma carga fiscal menor. Com uma carga fiscal menor, temos uma taxa de crescimento maior. Com uma taxa de crescimento maior, o rácio da dívida no PIB também caía. Não é esta a via que o atual governo tem vindo a levar a cabo, o que significa que está a esmagar as famílias e as empresas.
Ou seja, do seu ponto de vista é mesmo urgente baixar impostos...
É mesmo urgente baixar os impostos. Estou a falar do IRC e do IRS.
Mas tem de ser uma descida forte ou isto vai lá com um pano mais suave?
Tem que ser uma descida expressiva.
E já no próximo orçamento do Estado?
Eu acho que já vai tarde.








