19 nov, 2025 - 06:30 • Filipa Ribeiro , Diogo Camilo
O processo negocial à volta das propostas em mais de uma centena de artigos do Código do Trabalho resultou num muro - até ao momento intransponível - entre o Governo e as estruturas sindicais que representam os trabalhadores. Caso se mantenha, haverá greve geral convocada por UGT e CGTP-IN, a primeira paralisação conjunta em 12 anos, no dia 11 de dezembro.
À Renascença, a CGPT lamenta a postura "arrogante" do Governo nas negociações, enquanto a UGT - que tem esta quarta-feira nova ronda negocial com o Ministério do Trabalho - diz que tudo é "insuficiente" depois de, na semana passada ter recebido um documento com a revisão de algumas propostas.
Em entrevista à Renascença, o secretário-geral da UGT, Mário Mourão, confirma que a central sindical mantém a convocatória do dia de greve para 11 de dezembro.
Na nova proposta do Governo, avança, estavam alterações às propostas sobre a parentalidade e às regras para a amamentação, embora o Governo mantenha o prazo de dois anos para a licença para a amamentação, fazendo alterações sobre a obrigatoriedade da apresentação de atestado médico, que deve passar a ser feita apenas quando o bebé completar um ano de idade - e apresentado num período de seis em seis meses.
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Noutro ponto, a Renascença confirmou que no documento o Governo admite que a licença de aleitação pode continuar a ser permitida também ao pai - desde que partilhada pelos progenitores.
No novo texto, o Governo admite ainda retomar a majoração dos três dias de férias por boa assiduidade como vigorava até à troika. Apesar de considerar que "há algumas melhorias" no documento, o secretário-geral da UGT diz que o mesmo é "muito inócuo" e não apresenta "razão para alterar a decisão de se avançar para a greve".
À Renascença, o secretário-geral da UGT diz acreditar que o novo documento do Governo serviu apenas para simbolizar que "não quer que a UGT saia da mesa" e afirma que a estrutura sindical "não vai abandonar" as negociações.
Para esta quarta-feira está agendada uma reunião bilateral no Ministério do Trabalho, onde estará em discussão o pacote laboral e as mais recentes alterações do Governo ao mesmo.
Entre as linhas vermelhas, segundo a UGT, estão medidas como o banco de horas individual e as alterações às regras do outsourcing e as questões de reintegração do trabalhador quando é despedido, com a central sindical a "não aceitar" e a querer que fiquem completamente de fora do projeto do Governo.
Ao mesmo tempo, estas linhas vermelhas coincidem com pontos que o Governo considera como "traves mestras" do anteprojeto desde o início das negociações.
Mário Mourão sublinha que muitas das alterações sobre os contratos de trabalho são "gravosas", especialmente para os mais jovens, destacando a questão do alargamento dos prazos dos contratos a termo. "O trabalhador pode estar com um contrato a prazo uma vida. Que estabilidade se dá?", questiona, referindo não ter dúvidas de que o novo pacote laboral favorece "grandes empresas e os grandes grupos económicos".
Sobre as acusações do primeiro-ministro e a alegada motivação política por trás da greve geral, Mário Mourão lembra que a UGT convocou greves com governos socialistas e que Luís Montenegro "pode ficar descansado". O secretário-geral da UGT diz ainda assim que não quer valorizar as declarações do primeiro-ministro, considerando que "são injustas" e que às vezes "não ajudam".
Explicador
Montenegro promete uma legislação "mais amiga do t(...)
Do lado da CGTP, o secretário-geral Tiago Oliveira partilha as linhas vermelhas colocadas pela UGT, mas vai mais longe e afirma que só voltará atrás na decisão da greve geral para 11 de Dezembro caso o Governo opte por retirar todo o pacote de alterações em discussão.
Em entrevista à Renascença, Tiago Oliveira critica o que classifica de postura "arrogante" que o Governo tem seguido nas negociações e que a convocatória da greve geral permitiu colocar a discussão no espaço mediático para que "os trabalhadores percebessem" essa postura com que o executivo está a conduzir o processo.
Ao contrário da UGT, que em entrevista à Antena 1 e ao Jornal de Negócios admitiu convocar dois dias de greve, a CGTP diz na Renascença que mantém a convocatória apenas para 11 de dezembro até haver uma resposta, admitindo que "em cima da mesa estão todas as formas de luta".
Questionado sobre o silêncio que o Governo tem mantido com a CGTP, ao contrário do que tem acontecido com a UGT, Tiago Oliveira diz que a estrutura sindical mantém-se sempre disponível para se reunir com o executivo, indicando que, para já, a única reunião agendada é o encontro de concertação social marcado para 10 de Dezembro - véspera do dia de greve geral.
O secretário-geral da CGTP diz que "cabe ao Governo o desfecho de todo o processo".
Na entrevista à Renascença, Tiago Oliveira sublinha que - ao contrário da UGT - desde finais de julho recebeu apenas o anteprojeto inicial com as alterações à lei laboral. Apesar de não ter recebido novas alterações, sublinha que a postura da central sindical é a "exigência da retirada da totalidade do pacote laboral em cima da mesa".
Tiago Oliveira realça que o Governo no início do processo negocial se limitou a apresentar um pacote com mais de uma centena de propostas em que havia "traves mestras, das quais não abdicava".
O secretário-geral da CGTP critica que o Governo tenha colocado na lei que o trabalhador pode abdicar da indeminização - "direitos que são seus e que são consagrados. A quem é que interessa?".
Tiago Oliveira diz que a central sindical tem dificuldade em encontrar medidas positivas entre mais de uma centena de propostas de alteração. O secretário-geral da central sindical diz que a mesma questão foi colocada à ministra do Trabalho numa das reuniões e que Maria do Rosário Palma Ramalho também só conseguiu identificar duas medidas positivas entre elas "a compra dos dois dias de férias" - que foi retirada da proposta avançada à UGT na semana passada.
Ao longo do processo negocial, à semelhança da UGT, também a CGTP entregou propostas de alteração à lei laboral. "Nenhuma foi integrada pelo Governo. Nem um vírgula, nem um ponto final, nem parágrafo", reforça Tiago Oliveira, que destaca que uma das propostas entregues foi a redução do horário de trabalho para as 35 horas semanais.
Lei Laboral
Governo quer um modelo de banco de horas individua(...)
Do lado dos patrões, João Vieira Lopes da Confederação de Comércio e Serviços de Portugal (CCP) reconhece que há um conjunto de medidas no novo pacote laboral que "interessa para as empresas".
Em entrevista à Renascença, defende que é necessário valorizar a Concertação Social, já que o que é acordado aí "não só foi mais duradouro que outras opções legislativas, como foi mais fácil passar na Assembleia da República"
Para o responsável da CCP, "vale a pena fazer um esforço para haver uma conclusão" entre os parceiros sociais.
A confederação admite que defendia já algumas das medidas que o Governo avançou, mas realça que é necessário chegar a acordo "mesmo que no final o anteprojeto não seja maximalista em relação aos interesses" do seu lado.
João Vieira Lopes destaca como medidas a rever o banco de horas individual e a situação das restrições do outsourcing, lembrando que o banco de horas "já esteve em vigor" e salientando que a CCP "está de mente aberta e no conjunto do pacote pode eventualmente deixar que algumas medidas que são desejadas não sejam aplicadas neste momento".
A Confederação diz respeitar o direito à greve, mas defende que "é evidente que deve sempre causar alguma entropia ao processo negocial" e poderia ser "mais fácil" a negociação sem a convocatória da greve geral para dezembro.
João Vieira Lopes considera, contudo, que as afirmações do primeiro-ministro ao defender que o novo pacote "é mais amigo do trabalho" dão apenas declarações políticas e acredita que, numa leitura geral, o anteprojeto do Governo tem medidas nos dois sentidos: dos trabalhadores e das empresas.
Apesar das diversas tentativas da Renascença, não foi possível chegar à fala com a Confederação Empresarial de Portugal (CIP).