Ferrovia

Que comboios pode a CP comprar para a alta velocidade? Veja as imagens

24 jan, 2026 - 07:30 • João Pedro Quesado

Há pelo menos seis alternativas para a CP comprar comboios de alta velocidade. Opções da empresa, como chegar a Madrid e se pretende ultrapassar os 500 lugares por comboio, vão ditar o modelo escolhido, desde o novo TGV ao mais recente comboio espanhol.

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A CP está agora autorizada a comprar até 20 comboios de alta velocidade para operar nas futuras linhas portuguesas, cuja construção ainda está por começar. O anúncio do Governo deu início a um processo longo, com quatro anos apenas entre a assinatura do contrato e a entrega do primeiro comboio.

O anúncio do Governo estabeleceu algumas metas na compra de 12 automotoras (com opção de comprar oito mais). Estas automotoras — comboios como os do serviço Alfa Pendular, sem necessidade de uma locomotiva separada das carruagens — devem ter capacidade para circular a 300 km/h, e ter pelo menos 500 lugares por unidade.

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Questões por responder

Faltam saber outros detalhes importantes para decidir os comboios a comprar. Se a CP quiser chegar até Madrid, vai ter de comprar comboios com eixos telescópicos (conhecidos como bi-bitola, por permitir circular em linhas com diferentes distâncias entre carris) — a linha de alta velocidade que parte de Badajoz vai ligar-se à rede existente na zona de Toledo, onde a linha de alta velocidade está em bitola europeia.

Há mais. Os comboios a comprar pela CP vão depender, por exemplo, da opção de ter um ou dois pisos para os 500 lugares requeridos: é raro o comboio de um piso com capacidade de atingir os 500 passageiros. Os comboios de alta velocidade têm, habitualmente, 200 metros — podem superar caso o número de carruagens for acima de oito.

Contudo, as plataformas das estações com serviço de alta velocidade em Portugal vão ter 420 metros de extensão, tornando impraticável a circulação em dupla de comboios com mais de 210 metros. Essa circulação em dupla permite ultrapassar os 500 lugares, mas o anúncio do Governo fala em 500 lugares por unidade — ou seja, por automotora.

Outras questões já se tornaram mais corriqueiras em serviços de alta velocidade e de longo curso: carruagens silenciosas, zonas para famílias e até para bicicletas.

Na lista que se segue não estão incluídos comboios que não atingem os 300 km/h. Com uma despesa autorizada de 548 milhões de euros para 20 comboios, cada automotora para a CP custará 27,4 milhões de euros.

Cada fabricante pode adaptar os seus modelos aos requisitos incluídos pela CP no futuro caderno de encargos deste concurso — como especificidades no interior dos comboios, ou na diferenciação dos serviços por carruagem.

Alstom Avelia

A Alstom, construtora dos comboios do famoso TGV, pode concorrer com duas versões do Avelia: o Horizon e o Liberty.

O Horizon é o novo TGV — TGV-M, para a francesa SNCF. É o único comboio de alta velocidade do mundo atualmente em comercialização com dois pisos, e tem velocidade máxima de 320 km/h. O “M” vem de modular — os comboios podem ter entre sete e nove carruagens, ficando a versão maior nos 202 metros de comprimento. Nessa versão, pode transportar 740 passageiros.

Exterior do Alstom Horizon como TGV-M, da SNCF. Foto: SNCF
Exterior do Alstom Horizon como TGV-M, da SNCF. Foto: SNCF
Zona de bar do TGV-M. Foto: SNCF
Zona de bar do TGV-M. Foto: SNCF
Carruagem de primeira classe do TGV-M. Foto: SNCF
Carruagem de primeira classe do TGV-M. Foto: SNCF
Lugar para pessoas com deficiência no TGV-M. Foto: SNCF
Lugar para pessoas com deficiência no TGV-M. Foto: SNCF

O Liberty pode ter entre nove e 12 carruagens de um piso. Com pendulação (como o Alfa Pendular), atinge o máximo de 300 km/h; sem, chega aos 355 km/h. Este modelo é uma adaptação ao mercado dos EUA, como o nome pode indicar.

A versão Liberty do Avelia já entrou ao serviço nos Estados Unidos, mas não em linhas de alta velocidade. Já a versão Horizon só começará a fazer serviços do TGV em abril de 2026.

A primeira 'encomenda' deste comboio pela SNCF, em 2018, teve um valor de 2,7 mil milhões de euros por 100 unidades. Com a ativação de duas opções, em 2022 e 2026, para mais 30 unidades (com a especificidade de poder circular em quatro tensões elétricas diferentes), o preço médio por comboio subiu de 27 milhões para perto de 30 milhões.

Talgo Avril

A Talgo é espanhola, e responsável pelo mais recente comboio de alta velocidade da Renfe: o Avril.

O modelo tem uma velocidade comercial máxima de 330 km/h. As 12 carruagens de um piso ficam-se pelos 202 metros: com 3,2 metros de largura, a versão padrão do comboio tem 507 lugares, enquanto a versão para serviços low cost tem 581 lugares. Para atingir essa capacidade, o interior das carruagens pode ter três assentos de um lado e dois assentos do outro.

A Talgo é a uma de duas empresas desta lista com tecnologia de eixos telescópicos homologada para circular em comboios de passageiros — outras empresas terão de passar pelo moroso processo se a quiserem integrar na proposta à CP.

Exterior do Talgo Avril. Foto: Talgo
Exterior do Talgo Avril. Foto: Talgo
Interior do Talgo Avril. Foto: Talgo
Interior do Talgo Avril. Foto: Talgo

Mas a entrada em serviço deste comboio foi marcada por muitos problemas. Além dos atrasos na data de início do serviço, nos primeiros meses houve relatos de vibrações em demasia, assim como ruído excessivo dentro das carruagens. Algumas avarias no modelo novo pararam comboios — em janeiro de 2025, um problema de software fez com que o sistema de baterias não reconhecesse a mudança de ano.

Mais grave foi a descoberta de fissuras, em julho de 2025, nos rodados motrizes de um comboio. Cinco unidades foram retiradas de serviço temporariamente.

No contrato assinado sem serviços de manutenção, a Renfe comprou 15 unidades deste comboio por 495 milhões de euros. São 33 milhões por unidade.

Hitachi Rail-Bombardier ETR1000

O ETR1000 é uma parceria da Hitachi Rail e da Bombardier (hoje Alstom). É o comboio italiano da lista, operado pela Trenitalia (empresa pública) em Itália e pela Iryo (detida pela Trenitalia) em Espanha.

É capaz de atingir os 400 km/h, mas a velocidade máxima comercial está limitada aos 360 km/h. Com oito carruagens, é capaz de transportar 457 passageiros na configuração em serviço (dez lugares executivos, 69 em “business”, 76 em “premium” e 300 em classe “standard”, além de dois lugares para cadeira de rodas).

ETR1000 na versão da Iryo, em Espanha. Foto: Ana Escobar/EPA
ETR1000 na versão da Iryo, em Espanha. Foto: Ana Escobar/EPA
Classe executiva do Frecciarossa 1000 (Itália). Foto: IMAGO/Gruppo LiveMedia via Reuters Connect
Classe executiva do Frecciarossa 1000 (Itália). Foto: IMAGO/Gruppo LiveMedia via Reuters Connect
Carruagem convencional do Frecciarossa 1000. Foto: IMAGO/Gruppo LiveMedia via Reuters Connect
Carruagem convencional do Frecciarossa 1000. Foto: IMAGO/Gruppo LiveMedia via Reuters Connect

O contrato da Trenitalia para comprar estes comboios (em 2010) foi de 1,5 mil milhões de euros por 50 comboios — quase 31 milhões por unidade.

São estes comboios, da plataforma Zefiro, que vão circular na nova linha de alta velocidade do Reino Unido. Uma candidatura ao concurso da CP envolveria um consórcio entre Hitachi Rail e Alstom, dado que as duas empresas têm propriedade deste modelo.

Siemens Velaro

Este comboio alemão tem muitas versões diferentes. A mais recente, chamada Velaro MS, foi escolhida para os mais recentes comboios de alta velocidade da Deutsche Bahn. Tem oito carruagens com 439 lugares, e velocidade máxima de 320 km/h.

Uma versão criada para a Turquia acomoda 519 passageiros nas oito carruagens. Outra versão, criada para o serviço da Eurostar, consegue transportar mais de 900 pessoas em 16 carruagens (a composição tem 390 metros de extensão).

ICE 4, versão do modelo Siemens Velaro. Foto: Siemens
ICE 4, versão do modelo Siemens Velaro. Foto: Siemens
Compartimento para famílias com crianças no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens
Compartimento para famílias com crianças no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens
Assento com ecrã de destino no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens
Assento com ecrã de destino no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens
Zona de restaurante no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens
Zona de restaurante no ICE 4 da Deutsche Bahn. Foto: Siemens

A empresa está a desenvolver também o Velaro Novo, capaz de atingir os 360 km/h. Não é conhecida a capacidade de passageiros deste futuro modelo.

A compra, pela Deustche Bahn, de 30 comboios Velaro MS, custou mil milhões de euros (em 2020). São cerca de 33 milhões de euros por unidade.

CAF Oaris

A CAF é a outra construtora espanhola, detida pelo Estado. O modelo Oaris começou a ser desenvolvido em 2010, com velocidade máxima de 320 km/h em serviço e oito carruagens. Mas nunca entrou ao serviço da Renfe.

Caso a CP queira comboios bi-bitola, a CAF pode ser uma alternativa à Talgo, visto também possuir a tecnologia de eixos telescópicos, que permite mudar de bitola em andamento.

CAF Oaris em testes pela Renfe. Foto: CAF
CAF Oaris em testes pela Renfe. Foto: CAF
CAF Oaris na versão para a Flytoget, na Noruega. Foto: CAF
CAF Oaris na versão para a Flytoget, na Noruega. Foto: CAF
Interior do CAF Oaris na versão para a Flytoget, na Noruega. Foto: CAF
Interior do CAF Oaris na versão para a Flytoget, na Noruega. Foto: CAF

O comboio está ao serviço na Noruega, pela Flytoget, a ligar Oslo ao aeroporto, mas numa versão mais lenta e com apenas quatro carruagens.

Em 2019, a CAF concorreu com o modelo Oaris ao concurso de material circulante para a nova linha de alta velocidade do Reino Unido. O contrato para 54 comboios incluía manutenção, e tinha um valor de cerca de três mil milhões de euros.

CRRC Fuxing

A CRRC, companhia estatal chinesa, tem concorrido a vários concursos pela Europa, numa tentativa de entrar no mercado do Velho Continente.

A mais recente família de comboios de alta velocidade desta empresa chama-se Fuxing. Há várias versões: a mais convencional, de oito carruagens, tem um mínimo de 556 lugares.

CRRC Fuxing, comboio de alta velocidade da China. Foto: Reuters
CRRC Fuxing, comboio de alta velocidade da China. Foto: Reuters
Interior da classe "business" do CRRC Fuxing. Foto: Reuters
Interior da classe "business" do CRRC Fuxing. Foto: Reuters
Interior da primeira classe do CRRC Fuxing. Foto: Reuters
Interior da primeira classe do CRRC Fuxing. Foto: Reuters

A velocidade máxima em serviço é de 350 km/h (foi desenhado para 400 km/h, tal como o ETR1000). Não são conhecidos valores de contratos de compra destes comboios — são produzidos por uma empresa do Estado da China para outra, também estatal.

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