Energia

"Preços vão disparar": Petróleo sobe 10% após ataques ao Irão e pode chegar aos 100 dólares

01 mar, 2026 - 23:54 • Diogo Camilo , Marisa Gonçalves e Reuters

Economista João Duque alerta que preços da energia "podem contaminar a inflação". Todos os dias são transportados cerca de 20 milhões de barris de petróleo pelo Estreito de Ormuz, o equivalente a 20% do consumo global de petróleo.

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Um dia depois do início dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão e da retaliação iraniana a países no Médio Oriente, o preço do petróleo já subiu 10% e o preço do barril pode chegar aos 100 dólares.

Em causa está o fecho do Estreito de Ormuz, passagem que o Irão controla e por onde passam cerca de 20 milhões de barris por dia — o equivalente a 20% do consumo global de petróleo.

O barril de crude estava nos 66 dólares (56 euros) na sexta-feira, mas cresceu para os 72 dólares (61 euros). Já o barril de brent (petróleo cru) estava nos 68 dólares (57,8 euros) e cresceu para os 78 dólares (66 euros) este domingo.

Analistas acreditam que os preços possam chegar aos 100 dólares por barril, naquilo que seria um aumento de mais de 50% em poucos dias — e que pode ter grandes implicações nos preços dos combustíveis.

"Esperamos que os preços abram (após o fim de semana) muito mais próximos de $100 por barril e talvez ultrapassem esse nível caso vejamos uma interrupção prolongada do Estreito [de Ormuz]", indicou à Reuters Ajay Parmar, diretor de energia do ICIS (Serviço Independente de Inteligência e Mercadorias).

Após os ataques no Médio Oriente, a maioria dos proprietários de petroleiros, grandes petroleiros e empresas comerciais suspendeu os envios de petróleo bruto, combustível e gás natural via Estreito de Ormuz, com outros analistas a indicarem que o preço do barril pode ultrapassar os 100 dólares.

"Preços da energia vão disparar e podem contaminar a inflação"

À Renascença, o economista João Duque diz que a subida dos preços do petróleo é a consequência direta do ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão e aponta uma incerteza em quantificar durante quanto tempo haverá uma instabilidade nos mercados internacionais.

O presidente do ISEG diz que um dos fatores importantes em jogo tem a ver com o rumo político no Irão.

"Antevê-se uma subida e isso aconteceu no ano passado. É provável que os preços reajam imediatamente, agora vamos ver quanto tempo vai levar este ataque. No passado o que vimos foi que os preços subiram muito e depois baixaram rapidamente", afirma.

João Duque lembra também à Renascença que os preços do petróleo influenciam os valores dos combustíveis, mas também os preços de muitos produtos que têm o petróleo como matéria prima. Para já, o economista não vê razões para se pensar numa recessão da economia global, mas admite subidas por exemplo nos preços da energia e uma consequente subida das taxas de juro.

"Os preços da energia vão disparar e o preço de petróleo a disparar pode contaminar a inflação e os preços no geral e isso levar à subida das taxas de juro para controlar a inflação. Com a subida das taxas de juro, mais dificuldade no acesso ao crédito e nas decisões de investimento, por isso normalmente levaria a um abrandamento da economia", diz.

No entanto, avisa, "não se percebendo a reação dos grandes decisores políticos", diz ser impossível prever se haverá uma crise económica.

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Há alternativas? Quais as consequências do fecho de Ormuz?

Podem ser usadas infraestruturas alternativas — como os oleodutos da Arábia Saudita e Abu Dhabi — para contornar o Estreito de Ormuz, mas o impacto líquido do fecho resultaria numa perda de 8 milhões a 10 milhões de barris por dia de petróleo bruto.

As rotas comerciais no Estreito de Ormuz têm cerca de três quilómetros de largura, mas um bloqueio da via seria difícil de executar, especialmente devido à presença naval dos EUA na região. Ainda assim, há outras formas de bloqueio para interromper o fluxo: quando o risco na região aumenta, como é o caso, as embarcações simplesmente evitam a zona.

Além da energia, cerca de um terço do comércio global de fertilizantes também passa por Ormuz, afetando a economia de países como China, Índia, Japão e Coreia do Sul. A Índia, que importa aproximadamente metade do seu petróleo bruto pelo estreito, já ativou planos de contingência.

Há ainda a questão ambiental: o afundamento de um grande petroleiro poderia ter consequências ambientais graves e paralisar a navegação por um período prolongado. Embora seja um cenário improvável, a intensificação do conflito e a retórica de mudança de regime elevam a incerteza sobre os próximos passos tomados pelo Irão.

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