António Costa e Silva

"Não é como abrir uma Coca-Cola". Quando a guerra acabar estabilização vai demorar semanas

12 mar, 2026 - 19:50 • Pedro Mesquita

A Agência Internacional de Energia avisa que o mundo assiste à "maior interrupção de fornecimento de petróleo da história", devido ao bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irão. António Costa e Silva não esconde o pessimismo, em entrevista à Renascença. Já quanto ao preço dos combustíveis, o antigo ministro da Economia diz ao atual Governo que "o Estado não pode ser guloso".

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Quando a guerra acabar, estabilização vai demorar semanas, diz António Costa e Silva

Pelos cálculos da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgados no relatório mensal sobre o mercado de petróleo, o encerramento do estreito de Ormuz está a provocar uma queda de 7,5% na oferta global.

Entrevistado pela Renascença, António Costa e Silva, ex-ministro da Economia no Governo de António Costa e antigo presidente da Partex, não tem dúvidas de que esta é a maior disrupção na história da indústria petrolifera mundial.

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Costa e Silva avisa: mesmo se a guerra acabasse amanhã, "demoraria várias semanas a normalizar a produção", porque, "com a paralisação do Estreito do Ormuz não há escoamento e vários países do Golfo Pérsico".

"Grandes produtores mundiais de petróleo e de gás, já anunciaram a paralisação de toda a produção porque a sua capacidade de armazenagem se esgotou", sublinha.

António Costa e Silva explica que a situação é complexa, "não é como abrir uma garrafa de Coca-Cola... abrir e fechar".

No plano interno, Costa e Silva diz que "o Estado a não deve ser guloso" e aconselha o Governo a devolver aos contribuintes, e às empresas, as receitas extraordinárias que resultam do aumento preço dos combustíveis, porque "não é com 3 cêntimos de ajuda que vamos lá".


Como interpreta o relatório mensal da Agência Internacional de Energia, que assinala a maior interrupção de fornecimento de petróleo da história?

Eu acho que o alerta deixado neste relatório é importante, estamos de facto a enfrentar a maior disrupção que a indústria petrolífera e os mercados mundiais experimentaram em toda a sua história. [Digo isto] pelas seguintes razões: Há uma paralisação total do coração do sistema petrolífero internacional, com os ataques do Irão eles conseguiram paralisar o porto de Ras Tanura, na Arábia Saudita. Toda essa zona, que é crucial para a produção de petróleo, está paralisada. Mas a poucas centenas de quilómetros dali, os iranianos bombardearam o porto de Ras Laffan, que está localizado no Qatar e serve o grande campo de Northfield, que é o maior campo de gás do mundo. E portanto paralisaram também o sistema de produção de gás, inclusive o LNG.

E a terceira grande questão é que, com a paralisação do Estreito do Ormuz não passa navio nenhum. No estreito, em dias normais, passam cerca de 91 navios. Desde que a guerra começou, praticamente nenhum navio consegue cruzar o estreito.

Portanto, quando eles falam da maior disrupção tem a ver com o seguinte: Quando foi da guerra da Ucrânia, como deve estar lembrado, cerca de sete milhões de barris de petróleo, que a Rússia produzia, deixaram de chegar ao mercado europeu. Aquilo que nós temos hoje de paralisação no Estreito do Ormuz são 21 milhões de barris de petróleo por dia, que não passam por ali simplesmente. E a economia mundial não vai aguentar muito mais se a guerra não for decidida nos próximos dias.

Entretanto, houve a notícia nos últimos dias da libertação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, é uma medida provisória ou resolve alguma coisa?

Sim, a medida é provisória, muito limitada. E os preços voltaram a subir. Já cruzaram os 100 dólares, esta manhã. O preço chegou a 101 dólares, depois desceu ligeiramente e estabilizou. Mas nós não nos podemos esquecer é dos fatos e dos números: o consumo mundial de petróleo em cada dia é 100 milhões de barris, portanto 400 milhões são quatro dias de consumo.

É uma coisa complexa, não é como abrir uma garrafa de Coca-Cola... abrir e fechar. Portanto, para se retomar a produção são necessárias várias semanas

E se a guerra acabasse amanhã, quanto tempo demoraria a estabilizar a circulação de petróleo?

Demoraria várias semanas, pela seguinte razão: com a paralisação do Estreito do Ormuz não há escoamento e vários países do Golfo Pérsico, grandes produtores mundiais de petróleo e de gás, já anunciaram a paralisação de toda a produção e porquê? Porque a sua capacidade de armazenagem esgotou-se. Eles não podem produzir mais porque não podem colocar o petróleo ou o gás que produzem em mais nenhum sitio.

É uma coisa complexa, não é como abrir uma garrafa de Coca-Cola... abrir e fechar. Portanto, para se retomar a produção são necessárias várias semanas.

É por isso que nós só temos aqui dois cenários: um deles é a escalada limitada de preços, da inflação e dos impactos na economia mundial, se a guerra terminar nos próximos dias. O outro é a escalada descontrolada, se a guerra se propagar muito mais. E neste cenário, que é aquilo que temos hoje em cima da mesa, de escalada limitada, o preço do petróleo vai continuar a subir.

O Banco Central Europeu diz, com muita clareza, que a subida de 10 dólares tem logo impacto, não só na inflação, mas no próprio crescimento da economia mundial. Ora, relativamente ao petróleo, desde o início da guerra ele já cresceu quase 30% e os preços do gás cresceram 70%. Isto vai ter um impacto muito grande na economia e vai afetar muito o crescimento deste ano. E no caso de Portugal é duplamente preocupante porque nós já tivemos a crise das tempestades e das inundações, a que, agora, se pode sobrepor uma crise energética internacional.

Só para concluir a proposta de Portugal, isto vai lá com descontos temporários no ISP?

Não, não vai lá. Eu penso que o Governo evidentemente está a fazer um esforço, mas deve fazer muito mais. Eu recomendo fortemente ao Governo para que olhe para a experiência do 23.º Governo Constitucional a que eu pertenci.

Quando foi da crise da Ucrânia, e da crise energética, e desde logo nos combustíveis, houve uma redução da carga fiscal sobre o ISP. Repare, quando os preços aumentam o Governo recorre uma carga fiscal extraordinária em termos do ISP... extra. Acima de tudo aquilo que estava previsto no orçamento. E a minha visão é a de que essa carga extra, essas receitas extraordinárias, devem ser devolvidas aos contribuintes e às empresas.

Não é com 3 cêntimos de ajuda que vamos lá, porque o Estado não pode ser guloso em alturas como esta, em que a economia é flagelada, os cidadãos e as empresas. E, depois, tem que se reduzir também o IVA da eletricidade, penso que é nestas alturas exatamente que os Governos devem ser muito mais interventivos.

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