Escala Global
"Disparate infantil". Vice do PPE critica comissário europeu que pediu para usar menos carro e poupar combustível
24 abr, 2026 - 08:00 • Alexandre Abrantes Neves , João Campelo (sonorização)
A eurodeputada do PSD Lídia Pereira lamenta as sugestões da Comissão Europeia num "momento conturbado", especialmente para a classe média. "É um pacote insuficiente", considera. Quanto a Israel, rejeita que Bruxelas ganhe em romper o acordo comercial com Telaviv.
Um “disparate” e declarações “infantis”. A eurodeputada do PSD Lídia Pereira diz não se rever “minimamente” nas declarações do comissário europeu para a energia, que pediu esta semana aos europeus para utilizarem menos o carro e poupar combustível, como forma de responder à crise energética.
No programa Escala Global da Renascença, a portuguesa – que é vice-presidente da bancada parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE), a que também pertence Ursula von der Leyen – lamenta que a Comissão faça pedidos descabidos, perante tempos “tão difíceis”.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
“Parece que o comissário não conhece a vida das pessoas. As pessoas têm de se deslocar para os seus trabalhos e há sítios onde não há transportes públicos e, portanto, fazer este tipo de apelos parece-me até um bocadinho infantil. Acho, até se me permite, um disparate, alegar estas questões”.
No pacote apresentado esta semana, a Comissão avança várias medidas além da redução do uso do automóvel, como bilhetes sazonais e passes acessíveis para os transportes públicos, criação de dias em que os carros sejam impedidos de entrar nas cidades, redução de impostos sobre a eletricidade e vales de energia para famílias mais vulneráveis. Do plano inicial, fazia ainda parte a sugestão de, pelo menos, um dia de teletrabalho por semana, que acabou por cair por falta de consenso entre os 27.
Crise energética
Teletrabalho, menos automóvel, apoios às famílias. O que diz o manual da UE para responder à crise energética?
Comissão Europeia apresenta recomendações para dim(...)
Lídia Pereira fala num pacote “insuficiente”, mas aponta medidas positivas – como o esforço de coordenação para libertar reservas de petróleo.
“Está também prevista a coordenação entre libertações de reservas petrolíferas, incluindo o ‘jet fuel’ e o diesel”, afirma, recusando que as reduções das reservas petrolíferas europeias possam deixar os 27 em apuros, se o estreito de Ormuz não for desbloqueado no médio prazo.
“Aquilo que a Comissão está a dizer é que, se houver uma rutura séria de abastecimento, essas reservas [petrolíferas] podem ter de ser usadas de forma coordenada. Isto é relevante porque nós não temos necessidades de combustíveis nem energéticas todos ao mesmo tempo”.
Sobre os combustíveis, Bruxelas vai criar um observatório, para analisar de perto as subidas e descidas dos preços da gasolina e gasóleo e adotar medidas mais atempadamente. O aprofundamento dos descontos sobre os combustíveis está, no entanto, desde já afastado, com o comissário da energia, Dan Jorgensen, a dizer que isso seria “queimar” dinheiro dos contribuintes.
Lídia Pereira não vai tão longe nas palavras, mas defende que Portugal não precisa de aprofundar a redução na ISP.
“Em 2022, a crise inflacionista decorreu também de outros fatores económicos e que tinham que ver com a pandemia e com o facto das pessoas estarem em casa praticamente dois anos e que levou a poupanças, a uma circulação monetária muito significativa na economia e que, à boleia depois da crise com a guerra da Rússia na Ucrânia, alimentou ainda mais a crise inflacionista. Mas não estamos nessa situação e, por isso, o Governo português tem agido adequadamente”.
O comentador residente Manuel Poêjo Torres também elogia os esforços da União Europeia, mas lamenta que a estratégia continue a ignorar a energia nuclear. No programa Escala Global, este analista fala num debate “que não é para hoje, mas para amanhã”, mas que é cada vez mais urgente.
“Existe um benefício estratégico a médio e longo prazo na construção de reatores modulares nucleares. E reconheço que Portugal teria muito a ganhar se tivesse a capacidade conjuntural socioeconómica da criação e construção de centrais nucleares. Não é apenas uma forma para baixar custos, mas garantir que existe uma capacidade de sustentação das necessidades de cada Estado”, aponta.
UE não deve "fechar a porta" a Israel
A escada foi lançada pelo Presidente do governo espanhol, Pedro Sanchéz, que no último fim-de-semana anunciou que ia sugerir restantes 26 Estados-membros da União Europeia suspender o acordo comercial com Israel. O tema foi levado a uma reunião entre os ministros europeus dos Negócios Estrangeiros, mas acabou travado por países como Itália, Alemanha, Hungria ou República Checa.
Médio Oriente
Trump anuncia que EUA vai prolongar cessar-fogo com Irão
Presidente norte-americano admite prolongamento at(...)
Na leitura da eurodeputada do PSD, a União Europeia não deve romper o acordo nem “fechar a porta” a Israel, sob pena de isso deixar Telaviv ainda mais perto da influência dos Estados Unidos e isso trazer perigos humanitários e geopolíticos.
“Se fechamos completamente o canal diplomático… Creio que também é desejável que continue a haver aqui um canal aberto para que o parceiro de diálogo não seja exclusivamente, pelo menos, ao ocidente, com os Estados Unidos. Portanto, estrategicamente faz sentido”, defende, apesar de ver com bons olhos a posição portuguesa de querer restringir o comércio vindo de colonatos israelitas na Cisjordânia.
Quanto ao estreito de Ormuz, mais de 30 países (incluindo Portugal) continuam a reunir-se para tentar desbloquear a circulação de navios. Lídia Pereira assume que “será difícil” que estes esforços políticos sejam eficazes sem um envolvimento militar no conflito – e relembra os acontecimentos dos últimos dias para avisar que podem trazer ainda mais problemas aos europeus.
“A apreensão de dois porta-contentores, um francês e um grego, pelo Irão é precisamente para enviar aqui uma mensagem, de intimidação aos países que estão a reunir-se em Londres, a tentar discutir soluções para a crise do distrito Ormuz”.
O comentador residente Manuel Poêjo Torres alinha nesta leitura, mas lamenta que a intervenção europeia seja tardia e continue a ser apenas residual e à margem das rondas negociais entre EUA e Irão.
“Estão a ser discutidos o futuro do novo desenho geopolítico e geoeconómico que passa obrigatoriamente por esta região do mundo. Os europeus deveriam fazer parte de uma equipa de negociações e não simplesmente transferir isto para vizinhos como o Paquistão, que está amplamente influenciado por interesses russos e chineses”, critica.



















