Diretor da ASD
Trocar caças F-16 por aviões europeus? "Portugal dava sinal geopolítico muito importante"
03 mai, 2026 - 08:00 • Alexandre Abrantes Neves
Camille Grand, diretor-geral do cluster europeu de defesa ASD, considera que a substituição dos F-16 devia ser feita com um produto europeus, por exemplo da Airbus ou da Saab. Sobre o investimento em defesa, o líder do cluster homónimo em Portugal, José Neves, pede maior coordenação entre os aliados europeus.
O Governo continua a empurrar a decisão, mas a Europa começa a apertar o cerco e a fazer pressão para que a substituição dos caças F-16 seja feita dentro do Velho Continente. “Daria um sinal [geopolítico] muito forte”, diz à Renascença o diretor-geral do cluster ASD, Camille Grand, que junta empresas da Europa dedicadas à Aeronáutica, Espaço e Defesa.
O ministro da Defesa, Nuno Melo, continua sem querer comprometer-se com uma data para anunciar a decisão que insiste estar em “aberto”, apesar de já ter anunciado publicamente ter aberto a porta aos caças norte-americanos F-35.
A opção dos Estados Unidos da América (EUA) é a mais “natural e tradicional”, assume Grand, mas o mercado europeu está a ganhar fôlego e merece atenção.
“Há cada vez mais países a considerar as opções oferecidas pelos três fabricantes europeus de caças. Gostaria de salientar que existem opções muito, muito boas em cima da mesa, provenientes da indústria europeia. Penso que Portugal pode enviar um sinal muito forte ao afirmar que optamos por uma solução europeia”.
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Na leitura deste responsável industrial, esta seria uma boa oportunidade para Lisboa se tornar num bom exemplo na União Europeia (UE) e na NATO em relação aos EUA – numa altura em que Donald Trump reduz a presença em certos países, Portugal podia, assim, impulsionar o “bom caminho de autonomia que se tem feito nos últimos cinco e dez anos”.
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Já sobre a postura divisória de Donald Trump em relação à Aliança Atlântica, Grand não vê perigos de menor financiamento em estruturas da NATO que possam enfraquecer os aliados e dificultar o cumprimento da meta dos 5% até 2035.
“Parece-me que o desafio para a indústria é ser capaz de acompanhar o ritmo. O dinheiro e os contratos estão a chegar e temos de acompanhar o ritmo. Mas estou muito confiante de que podemos fazer isso”, defende o também ex-diretor da UE em política de defesa, pedindo um reforço de verbas no próximo quadro financeiro plurianual de Bruxelas (2028-2034), que vai ainda ser negociado entre o Conselho e o Parlamento Europeu.
“Esperamos que este quadro adicione mais financiamento direto para fornecer pesquisas, para fornecer cooperação, para fornecer inovação em todo o mundo. Mas governos, UE e indústria. Devemos ir mais rápidos juntos”.
Esta é uma posição partilhada pelo presidente da AED, o cluster que reúne empresas portuguesas de defesa e aeronáutica. José Neves considera, no entanto, que a Europa ainda peca por falta de coordenação.
“No caso da sexta geração, neste momento, temos dois programas europeus e poderíamos ir a três. O caso da sexta geração nos Estados Unidos, o chamado F-47, só tem um programa. Temos de conciliar os diferentes países num só programa, que é um pensamento de uma resposta única a nível do continente europeu. A Europa tem de se unir mais para não ficar dependente dos Estados Unidos”, avisa.
PTRR tem de olhar para setor da defesa
As conversas com a Renascença decorreram durante um evento da ASD Portugal, num hotel a cerca de 20 quilómetros do centro de Lisboa, sob contornos sigilosos, perante a discussão e as reuniões à margem entre quadros da UE e da NATO com indústrias sobre o futuro da defesa dos aliados.
“Um dos principais pontos é o papel das pequenas e médias empresas (PME)”, assinala José Neves. “Há um novo conceito de defesa, uma defesa que tem de ser mais ágil, mais rápida a responder solicitações. E muitas vezes as grandes empresas, que já têm um processo longo, bem estabelecido, não são tão rápidas a responder”.
Daí, a vontade de dar palco a várias PME (portuguesas e não só) em mesas-redondas e intervenções durante o evento. “São bons exemplos, entre outros, de empresas portuguesas que respondem a esta agilidade, com ‘software’ e com ‘drones’ que fazem atualizações em tempo real.”
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Entre estas empresas, destacam-se os casos bem-sucedidos de projetos financiados e já concluídos ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – um “exemplo”, diz José Neves, e que deve levar o governo a mais investimentos no setor da defesa, também com o novo Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR).
“Quando olhamos para a intervenção das Forças Armadas no âmbito da Kristin, vimos que as Forças Armadas estiveram presentes, usando tipicamente mecanismos ‘dual use’, através dos drones, da observação da terra, imagens-satélite, de aeronaves, o posicionamento da própria marinha em auxílio das populações nos rios”.
E nesse esforço de aumentar o investimento e atingir os 5% do PIB até 2025, José Neves apela ao governo para não esquecer um ponto fundamental: garantir todos os esclarecimentos à população.
“Dizer que, além da capacidade que olhamos para a defesa, também estamos a criar postos de trabalho, tipicamente altamente qualificados, mais bem pagos do que o emprego normal em Portugal, e empregos que podem potenciar as exportações do país”, remata.










