Relatório
Risco de pobreza em Portugal desceu para 15,4% em 2025, mas desigualdades persistem
20 mai, 2026 - 00:22 • Fábio Monteiro
Relatório “Portugal, Balanço Social 2025” aponta melhorias nos rendimentos e no emprego. Desigualdades estruturais continuam, contudo, a marcar o país.
Portugal registou uma redução da taxa de risco de pobreza em 2025, que passou de 16,6% para 15,4%, o equivalente a 1,66 milhões de pessoas, segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, divulgado esta quarta-feira pela Nova SBE.
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Em declarações à Renascença, a economista Susana Peralta, uma das coautoras do relatório, diz que a redução deste indicador sinaliza uma boa notícia.
“São boas notícias, quer dizer que, de facto, a nossa economia tem estado a ter um desempenho positivo. Nós sabemos que as taxas de crescimento são acima da média europeia, etc. E que, além disso, esse crescimento tem sido razoavelmente inclusivo, chegado às margens mais desprotegidas da população”, afirma.
A economista alerta, contudo, que a taxa de risco de pobreza continua elevada.
“O asterisco aqui é que 15% é muita gente. Números redondos, um milhão e meio de pessoas. E que, depois, quando nós olhamos para como é que essas pessoas vivem, quando olhamos para a privação dentro das pessoas pobres, nós vemos que um terço tem encargos excessivos com habitação, que isso quer dizer que são pessoas que vivem, no fundo, sem uma maleabilidade do seu orçamento familiar”, diz.
“Estamos a passar por um período, outra vez, de maior inflação nos bens alimentares e no custo dos transportes. E estas pessoas têm, certamente, muita dificuldade em encaixar este aumento de custos sem restringirem consumos essenciais.”
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Os desempregados continuam a ser o grupo mais afetado pela pobreza. Em 2025, 42,6% das pessoas desempregadas encontravam-se em situação de pobreza, apesar da descida face aos 44,3% registados em 2024. Entre as famílias monoparentais, a taxa subiu de 31% para 35,1%, enquanto nas famílias numerosas se fixou nos 26,7%.
O relatório identifica também diferenças entre homens e mulheres. As mulheres apresentavam uma taxa de risco de pobreza de 16,3%, acima dos 14,5% observados entre os homens.
Rendimentos aumentaram, mas desigualdade mantém-se
Entre 2014 e 2024, o rendimento disponível médio das famílias portuguesas passou de 9.856 euros para 14.951 euros anuais, representando um crescimento de 51,7% a preços correntes. Depois do ajustamento à inflação, o aumento real do poder de compra foi de 25,2%.
Os aumentos percentuais foram mais elevados entre os grupos com rendimentos mais baixos. Entre as famílias com menos rendimento, o crescimento ultrapassou os 30%, enquanto entre os grupos mais ricos ficou abaixo dos 25%. Ainda assim, os aumentos absolutos continuaram a favorecer as pessoas com rendimentos mais elevados.
Susana Peralta assinala como positivo que o “crescimento do rendimento foi bastante bem distribuído na população, até com crescimentos proporcionais, não em euros, mas em termos proporcionais, superior até nas pessoas mais desfavorecidas”.
Apesar da melhoria dos rendimentos, os indicadores de desigualdade continuam elevados. Em 2025, os 10% mais ricos detinham quase oito vezes mais rendimento disponível do que os 10% mais pobres. Já os 25% mais ricos concentravam cerca de 46,5% do rendimento nacional, enquanto os 25% mais pobres tinham apenas 10,5%.
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Desigualdade salarial entre homens e mulheres agravou-se
O relatório aponta ainda para um ligeiro agravamento das desigualdades salariais entre homens e mulheres em todos os níveis de escolaridade. Em média, uma mulher com ensino superior recebia, em 2024, apenas 72 cêntimos por cada euro ganho por um homem com o mesmo grau académico.
Entre trabalhadores com ensino secundário, o rendimento das mulheres equivalia a 62 cêntimos por cada euro recebido pelos homens. Nos níveis de escolaridade mais baixos, o diferencial era ainda maior, com as mulheres a receberem apenas 57 cêntimos por cada euro auferido pelos homens.
Susana Peralta não avança nenhuma explicação. Coloca antes uma pergunta: "Nós realmente identificamos o crescimento do rendimento médio das famílias portuguesas nos últimos anos e vemos que esse crescimento médio é acompanhado por uma diminuição da pobreza, uma diminuição da privação. É um crescimento que até tem uma dimensão inclusiva, claro que podia ser sempre mais inclusivo, mas que esta questão da desigualdade salarial entre homens e mulheres parece que aí não se chega, não é? E isso eu acho que é uma questão que nos interpela."
Privação material continua elevada entre os mais pobres
A taxa de privação material e social diminuiu em 2025 para 10,2%, enquanto a privação severa caiu para 4,3%. Ainda assim, a privação continuava a ser quase seis vezes mais frequente entre a população pobre.
Entre as principais dificuldades identificadas estavam os encargos com habitação, saúde e alimentação. Cerca de 33,4% dos agregados pobres gastavam mais de 40% do rendimento em despesas com habitação. Mais de 30% não conseguiam manter a casa adequadamente aquecida e quase 40% não conseguiam mantê-la fresca durante o verão.
As condições habitacionais degradadas continuam igualmente relevantes. Cerca de 40,4% das famílias pobres viviam em casas com infiltrações, paredes degradadas ou estruturas danificadas, enquanto 17,3% residiam em alojamentos sobrelotados.
Na área da saúde, 35,3% das pessoas pobres afirmavam não conseguir aceder a cuidados de medicina dentária, valor muito acima dos 13,7% registados entre a população não pobre. Quase 20% das pessoas pobres avaliavam a sua saúde como má ou muito má.
Crianças e idosos continuam entre os mais vulneráveis
As crianças e os idosos continuam a ser os grupos mais vulneráveis à pobreza e exclusão social. Em 2024, existiam mais de 301 mil crianças pobres em Portugal e cerca de 541 mil pessoas com mais de 65 anos em situação de pobreza.
A taxa de risco de pobreza infantil situou-se nos 17,8%. Entre as crianças pobres, quase metade não participava regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer e mais de 22% não conseguiam participar em visitas ou atividades escolares não gratuitas.
O relatório refere ainda que 35,4% das crianças pobres viviam em casas sobrelotadas e que 15% dos agregados com crianças pobres não conseguiam assegurar uma alimentação saudável e nutritiva.
Entre os idosos, as principais dificuldades estavam relacionadas com despesas inesperadas, férias fora de casa e substituição de mobiliário usado. Quase um terço vivia em habitações degradadas e cerca de um quarto considerava os custos da habitação demasiado pesados.
Transferências sociais evitaram agravamento da pobreza
O relatório conclui que as transferências sociais continuam a desempenhar um papel central na redução da pobreza. Sem apoios sociais além das pensões, existiriam mais 500 mil pessoas em risco de pobreza em Portugal. Sem qualquer tipo de transferência social, a taxa de pobreza subiria de 16,6% para 40,3%.
As pensões de velhice eram, em 2024, a prestação social com maior número de beneficiários, abrangendo cerca de 26,2% da população. O relatório destaca, contudo, fortes desigualdades entre homens e mulheres nas reformas. Mais de 60% das mulheres pensionistas recebiam menos de 500 euros mensais, enquanto apenas 28,5% dos homens estavam abaixo desse valor.
Em 2025, o rendimento social de inserção abrangia 214 mil beneficiários, distribuídos por 109 mil famílias. Cerca de 67 mil beneficiários, o equivalente a 31,2% do total, tinham menos de 18 anos. O valor médio mensal do apoio era de 155 euros por beneficiário e 327 euros por agregado familiar.










