Entrevista Renascença/Ecclesia

Mil de um ano para o outro. Está a aumentar o número de pessoas apoiadas pela Cáritas de Setúbal

19 out, 2025 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)

Um dia após o Jubileu dos Ciganos e itinerantes, promovido pelo Vaticano, a entrevista Renascença/Ecclesia aborda o trabalho da Cáritas de Diocesana de Setúbal junto da comunidade cigana, com esforços no apoio escolar, creche, jardim de infância e centro de dia para idosos. É convidado o presidente da Cáritas local, Paulo Valente da Cruz.

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O presidente da Cáritas de Setúbal, Paulo Valente da Cruz, diz que está a aumentar o número de pessoas apoiadas pela instituição.

“Há dois anos, apoiávamos 2.700 pessoas, diariamente, e o ano passado chegamos às 3.714”, diz o responsável em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia.

Paulo Valente da Cruz sublinha que a Cáritas de Setúbal ultrapassa as fronteiras do seu território nas respostas que proporciona e dá o exemplo das pessoas em situação de sem-abrigo. "Aparecem pessoas de toda a realidade do mundo, que facilmente atravessam a ponte pelo comboio e vêm ter connosco."

De acordo com o responsável, são apoiadas diariamente 250 pessoas em situação de sem-abrigo, mas a capacidade de resposta não permite as condições de acolhimento desejáveis.

“As pessoas não têm noção de que o pobre pode ser um de nós, um dia", aponta, lembrando também a necessidade de apoio a muitas famílias da classe média a braços com dificuldades por causa da "especulação imobiliária".

"Não basta só o assistencialismo"

O responsável da Cáritas de Setúbal apela à necessidade de moderação discursos sobre o tema da pobreza. “Eu diria que na classe política e nos intervenientes que vamos ouvindo na comunicação social, às vezes, é bom pensar um pouco até que ponto é que um dia não lhes pode bater este problema à porta. Aí, já davam, com certeza, outro tipo de discurso a este tema”, assegura.

Nesta entrevista é abordado também o trabalho da Cáritas junto da comunidade de etnia cigana, no dia seguinte ao Jubileu dos Ciganos e Itinerantes. Cruz defende que a situação é bem diferente da vivida nos anos 80, mas deixa também um sublinhado à importância do papel da Diocese, em particular da Cáritas, no combate à pobreza e exclusão.

Paulo Valente da Cruz olha “com alguma tristeza” os discursos políticos que promovem o discurso da discriminação e da criminalização da comunidade cigana, porque “se as pessoas estivessem mais perto do terreno, percebiam que este tipo de pessoas como as de etnia cigana têm coisas muito boas e que hoje têm outra realidade na forma de estar na sociedade”.

“Vai-se sempre buscar só os casos menos positivos, mas há casos muito positivos e de muito sucesso e de integração na sociedade."

"As pessoas não têm noção de que o pobre pode ser um de nós"

O Vaticano quis promover, no contexto deste Ano Santo, um Jubileu para as populações da comunidade cigana e para os itinerantes. É um sinal importante para a Igreja e para a sociedade e, em particular, também para o trabalho que a Cáritas de Diocesana de Setúbal vai fazendo?

Sem dúvida alguma, é um sinal muito importante. Importa salientar que a Cáritas de Diocesana de Setúbal não defende a criação de respostas sociais pura e simplesmente dirigidas à comunidade cigana, mas sim a todas as pessoas de todas as nacionalidades e etnias, de forma a integrar a comunidade cigana de uma forma transversal e exatamente igual a qualquer outro utente da Cáritas de Diocesana de Setúbal.

Como é que vê o aumento de discursos políticos que promovem de forma aberta o discurso da discriminação e mesmo, por vezes, da criminalização da comunidade cigana em Portugal?

Vejo com alguma tristeza, porque, de facto, se as pessoas estivessem mais perto do terreno, percebiam que este tipo de pessoas como as de etnia cigana têm coisas muito boas e que hoje têm outra realidade na forma de estar na sociedade. Vai-se sempre buscar só os casos menos positivos, mas há casos muito positivos e de muito sucesso e de integração na sociedade. Portanto, vejo com muita pena.

"Aparecem pessoas de toda a realidade do mundo, que facilmente atravessam a ponte pelo comboio e vêm ter connosco"

O Papa Francisco falava do ódio aos pobres. Há no discurso político uma ideia de que as pessoas são responsáveis pela situação em que se encontram quando são excluídas?

Eu, de facto, chego a uma conclusão: As pessoas não têm noção que o pobre pode ser um de nós um dia. E isso pode acontecer muito mais rápido do que as pessoas pensam.

Eu poder-vos-ia dar aqui vários exemplos do meu dia-a-dia, em que, de facto, temos de apoiar pessoas da classe média, porque, como já falamos, a especulação imobiliária e os aumentos de rendas levam a que haja determinadas famílias da classe média não consigam, num determinado momento, pagar uma renda. E nós, Cáritas, tentamos fazer essa prevenção porque, senão, a família vai para a rua e as crianças são retiradas à família. Esta é uma realidade que pode acontecer com qualquer um. Eu diria que na classe política e nos intervenientes que vamos ouvindo na comunicação social, às vezes, é bom pensar um pouco até que ponto é que um dia não lhes pode bater este problema à porta. aÍ, já davam, com certeza, outro tipo de discurso a este tema.

"A diocese de Setúbal, ainda hoje, é fundamental, com a sua Cáritas, na resposta, mas hoje ultrapassou as fronteiras. A semana passada apareceu uma família do Bangladesh, vinda de Lisboa"

A Cáritas tem estado ativa, desde a inserção ao acompanhamento da comunidade cigana, através do Centro Social Nossa Senhora da Paz. Que tipo de ações concretas desenvolvem no dia-a-dia e que frutos têm visto deste trabalho?

A Cáritas, de facto, no bairro da Bela Vista, tem uma comunidade, montou um programa de luta contra a pobreza e apoio social e alfabetização e, nessa sua vertente de resposta a estas necessidades, apoia também a comunidade cigana. portanto, tem vindo a alargar a oferta no bairro e disponibiliza, atualmente, creche pré-escolar, apoio às jovens mães, centro de serviço de apoio domiciliário. Como eu tinha dito, nós defendemos a integração como se fosse outro utente.

É um apoio transversal?

É um apoio transversal. Contamos, por exemplo, com três crianças de etnia cigana na creche, quatro no pré-escolar, três no serviço de apoio domiciliário, 15 jovens de etnia cigana a frequentar o clube de jovens e duas jovens mães de etnia cigana acompanhadas na resposta social do centro de apoio à vida, que são as mães grávidas.

É fundamental evitar a guetização...

Exatamente. Portanto, está tudo inserido dentro da tipologia de utentes que temos, da sociedade, de uma forma transversal. E esse é que é o caminho, no meu entender e no entendimento da Cáritas de Diocesana. Esse é o caminho para, de facto, a integração ser eficaz. Continuaremos este trabalho. Devo recordar que no passado dia 8 de abril, no Dia Internacional da Pessoa Cigana, tivemos a honra de receber o Presidente da República, que se juntou à população cigana e à restante comunidade e, de facto, foi destacada a importância da integração, do respeito e da valorização das diferentes identidades culturais no contexto de uma sociedade mais justa e solidária.

"Se as pessoas estivessem mais perto do terreno, percebiam que este tipo de pessoas como as de etnia cigana têm coisas muito boas e que hoje têm outra realidade na forma de estar na sociedade"

Tanto o Presidente da República como o bispo de Setúbal falaram nessa ocasião da necessidade de combater preconceitos e desigualdades. A partir da experiência concreta, a comunidade sente que se torna mais inclusiva com este contexto direto. O que é falta ainda para uma verdadeira inclusão?

Efetivamente, este tipo de ações ajuda muito. A comunidade cigana, naquele momento, sentiu-se apoiada e, depois, o que falta é haver mais ação neste tipo de apoio, neste tipo de momentos. E é isso que temos de tentar fazer. Foi muito gratificante ter o senhor cardeal e nosso bispo de Setúbal e o nosso Presidente da República porque criou-se um momento em que houve comunicação e em que o Presidente da República quis comunicar com os presentes. É interessante, e eu gostaria de partilhar isto convosco, que, a certa altura, dizem que fala um determinado indivíduo e esse indivíduo é um indivíduo que trabalha numa multinacional - eu não vou referir o nome - numa grande empresa a nível nacional. Quando entrou, não disse que era da etnia cigana e que casou com uma mulher que, por acaso, não é da etnia cigana. a dada altura, a esposa contou o seguinte: "Quando vou a um restaurante com a minha família, dizem que não há mesa, mas, quando telefono para marcar a mesa, há mesa para ir ao restaurante."

O Presidente da República, ao ouvir uma coisa desta natureza, disse: "Vocês têm que continuar esse trabalho e serem resilientes." Este é um exemplo paradigmático de que temos, para além de promovermos estes momentos, de dar a conhecer à sociedade este tipo de registos para a sociedade perceber que também há casos de sucesso na etnia cigana. Não é só RSI. Tínhamos ali, obviamente, todo o tipo de famílias. Tínhamos algumas que dependem do RSI, mas também tínhamos pessoas que já trabalham neste tipo de empresas e que têm valor na forma como se afirmaram. Há, de facto, que apostar mais neste tipo de exemplos, até para os outros acreditarem que é possível: os outros da etnia cigana.

A sociedade discrimina, mas a própria comunidade também, de alguma forma, se autoexclui. Não sente isso?

Sinto, sinto, sinto, mas, lá está, era aquilo que eu estava a tentar transmitir. Ela autoexclui-se e estes momentos são importantes para dizer o seguinte: "Atenção, vocês têm pessoas de etnia cigana que já estão inseridas, portanto não se autoexcluam." Mas sim, sem dúvida alguma, há essa autoexclusão.

Estive a ver números do bairro [da Bela Vista] e o bairro tem sensivelmente 4.500 pessoas, sendo 10,4% de etnia cigana. Portanto, andamos ali nos 450-500. Pelo menos, os registados. E efetivamente, há muitos que, inclusivamente, ainda pensam em não pôr as crianças na escola, querem ficar com as crianças com eles, sim. Autoexcluem-se, mas também, eventualmente, se sentissem sinais, principalmente entre os mais jovens de etnia cigana, se sentissem sinais de maior abertura, eventualmente não se autoexcluíam tanto. Mas, sem dúvida, sinto isso e nós sabemos que a própria cultura deles é muito propícia a se autoexcluírem.

"A especulação imobiliária e os aumentos de rendas levam a que haja determinadas famílias da classe média não consigam, num determinado momento, pagar uma renda"

Um dos pontos mais sublinhados neste trabalho é o desafio da educação. Que obstáculos ainda persistem na permanência escolar das crianças e jovens ciganos e como é que estão a tentar superá-los?

O que tentamos fazer, através, inclusive, destes jovens, do clube de jovens que temos, é passar à comunidade a ideia de que, realmente, as crianças têm de ser inseridas para a educação. Como estava a referir, há muito aquela tendência de se tentar ficar com a criança até aos seis, sete anos, ou mais, e só depois é que se faz o caminho escolar. Ali, que já é mais urbano, o que eu sinto é que começamos a conseguir passar esta mensagem de que é muito importante trazer as crianças para a escola, porque é aqui que começam as bases.

Ali, já começa a haver esta noção, mas ainda há a prevalência de uma outra cultura. As técnicas transmitem-me que ainda há algumas situações em que não põem as crianças na escola. E se formos mais para o mundo rural, sabemos que isso então é muito gritante. Eu tenho um caso conhecido de um jovem que aos nove anos ainda não tinha feito a primeira classe. Inseriu-se e começou a estudar a partir daí.

Temos falado muito com a Caritas pelos seus serviços. É, muitas vezes, a primeira porta onde se vai bater. Vivemos um ano na Igreja Católica, um ano de Jubileu dedicado à esperança. Que sinais concretos de mudança e de esperança consegue identificar no trabalho que se está a realizar nesta área?

Os sinais concretos e de esperança são começar a perceber que não basta só o assistencialismo. Neste caso concreto, inclusive à comunidade cigana, quando estamos a falar de jovens. Devemos promover a autonomização no sentido de eles serem outro tipo de registo na sociedade. Quando eu falei do exemplo deste indivíduo que trabalha já numa multinacional, estamos a falar de um jovem talvez com 30 anos e, portanto, eu começo a ter esse sinal de esperança de que aquele caso exemplar pode ser replicado.

E que há outros futuros possíveis...

Exatamente...

"Temos equipamentos que respondem de uma forma transversal a todas as camadas etárias (…) damos resposta à sociedade em geral"

Uma questão relativa aos 50 anos da criação da Diocese de Setúbal: que impacto teve essa presença eclesial na relação da Igreja com a comunidade local?. E, olhando para o futuro imediato, quais os maiores desafios sociais que Setúbal enfrenta e como é que a Caritas pode contribuir para ajudar a dar uma resposta?

O impacto foi muito grande. Nós sabemos a história de que, de facto, Setúbal viveu, nos anos 80 ou 90 grandes dificuldades. Chegava-se a falar de fome em Setúbal. A Diocese, que nasce com D. Manuel Martins, é o caso exemplar de resposta a essas necessidades. Aliás, devo dizer que neste momento temos equipamentos que respondem de uma forma transversal a todas as camadas etárias e, de facto, na altura havia mesmo pobreza em Setúbal. Hoje, fruto dos equipamentos que foram desenvolvidos, damos resposta à sociedade em geral. Por exemplo, nas pessoas em situação de sem-abrigo, aparecem-nos pessoas de toda a realidade do mundo, que facilmente atravessam a ponte pelo comboio e vão ter connosco. Para vos dar um exemplo: só em alimentação, no ano passado foram 165 mil refeições.

Está a aumentar muito essa valência?

Sim, sim, sim. Quando cheguei, eram sensivelmente 80 mil. Depois, passou a 100, 135 e o ano passado 165 mil. É uma pena dizer-vos isto, é com tristeza que o faço, mas ultrapassa mais de meio milhão de euros em resposta e nós lá estamos, mas já não é apenas para a sociedade em Setúbal.

"Há muitos que, inclusivamente, ainda pensam em não pôr as crianças na escola, querem ficar com as crianças com eles"

Tem noção do número de população em situação de sem-abrigo que há, neste momento, em Setúbal?

Apoiamos 250 pessoas, diariamente. Agora, a camarata só tem 14 camas há muito tempo e a nova filosofia, que eu defendo, foi a de criar apartamentos partilhados para otimização e o "housing first", e aí triplicámos para 46 camas. Mas precisávamos de mais. E, depois, não há habitação e nós é que estamos a pagar os apartamentos. Só temos o protocolo de Segurança Social a ajudar-nos efetivamente na questão dos técnicos, etc.

Há, portanto, muitos migrantes...

Grande parte não é migrante, porque essas pessoas fazem alguma coisa e vão embora. E há um ponto, uma questão que poderíamos explorar, se que explorar se tivéssemos tempo. Quando aparece uma pessoa em situação de sem-abrigo, por vezes, nós, com os nossos técnicos, percebemos que há pessoas que tinham que ser tratadas de outra forma. Por exemplo, a toxicodependência... Tinham de ir para a instituição. Problemas de saúde mental... Não há respostas no país. Conclusão: você tem naquela camarata uma mistura explosiva. Foi de sem-abrigo, foi, mas já precisávamos de outro tipo de caminho. Aqueles que não precisam desse tipo de apoio, tentamos pô-los nos apartamentos partilhados para criar otimização.

Portanto, sim, a diocese de Setúbal, ainda hoje, é fundamental com a sua Cáritas na resposta, mas hoje ultrapassou as fronteiras. A semana passada apareceu uma família do Bangladesh, vinda de Lisboa, e que recebeu a indicação para vir ter com a Cáritas de Setúbal. Nós tentamos dar resposta. Efetivamente, é uma Diocese que com a sua Cáritas responde para além das fronteiras da diocese e, como eu digo, às vezes tenho pena de serem tantos casos. Há dois anos, apoiávamos 2.700 pessoas, diariamente, e o ano passado, 3.715. Eu preferia que o número fosse menor, porque significava que as pessoas estavam melhores.

No ano todo, somando todas as respostas dos cinco equipamentos que temos, os de indicadores foram de 3.705 pessoas apoiadas diariamente. Evidentemente que, depois, pode haver algumas que seguem a sua vida e que estão nesse número também, mas o que é facto é que o número era muito menor. E é aqui que eu digo: sim, a nossa Diocese tem um papel fulcral e, aliás, a classe política sabe isso. Ali há respostas, já sabem que até para lá da Península.

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